A problemática das Espécies Exóticas Invasoras

A problemática das Espécies Exóticas Invasoras

Com Pedro Anastácio

Especialista em Ecologia Aquática, Pedro Anastácio estuda espécies não nativas invasoras de água doce em Portugal no Centro Ciências do Mar e do Ambiente (MARE), polo da Universidade de Évora (UÉ), uma área com forte componente aplicada e utilização prática, influenciando os decisores políticos a tomar medidas para o controle destas espécies.

O coordenador na UÉ do projeto LIFE INVASQUA – Espécies exóticas invasoras de água doce e sistemas estuarinos: sensibilização e prevenção na Península Ibérica – pretende juntamente com investigadores portugueses e espanhóis aumentar a consciência do público ibérico e de grupos interessados e envolvidos com a problemática das Espécies Exóticas Invasoras (EEI) nos ecossistemas aquáticos. Para além disto, o projeto pretende desenvolver ferramentas que melhorem a eficiência de programas de alerta atempada e resposta rápida na gestão (EWRR, siglas em Inglês) de novas EEI que possam aparecer nos habitats de água doce e estuários.

Desde o princípio dos anos 90 do século passado, então estudante de mestrado em Ecologia Animal, que Pedro Anastácio se tem dedicado ao estudo de espécies invasoras. Nesse período elegeu o Lagostim-vermelho-da-Luisiana, um crustáceo decápode de água doce como alvo do seu interesse científico, sendo que esta espécie causava já na altura muitos prejuízos aos produtores de arroz. Desde então Pedro Anastácio veio alargando o âmbito da sua investigação passando dos crustáceos para tudo o que é fauna aquática, incluindo moluscos e peixes, tendo publicado próximo de uma centena de artigos científicos.

Ao referimo-nos a uma espécie como não-indígena, exótica ou alóctone de um determinado local, queremos dizer que não é originária dali, tendo sido transportada por ação humana a partir da sua área de distribuição nativa. “Infelizmente há entre estas espécies algumas que são exemplos clássicos de problemas, mesmo quando nos referimos a espécies de produção agrícola e pecuária”, sublinha o investigador, dando como por exemplo os coelhos na Austrália ou cabras e porcos selvagens em várias ilhas. Ou seja, algumas espécies não-nativas tornam-se invasoras. Este investigador acrescenta ainda que, “nas translocações de espécies o princípio da precaução é fundamental, devendo-se evitar fazê-lo se houver espécies locais que possam ser usadas para o mesmo fim”.

Olhando para trás, e num passado recente, o investigador considera que não foram introduzidas na natureza no nosso país espécies que tenham sido uma mais-valia clara. No entanto, Pedro Anastácio lembra que existem algumas espécies que foram introduzidas para controlo biológico de espécies invasoras, “e que podemos considerar úteis”, considerando também “que há sempre lados positivos e negativos em tudo e as invasões não são exceção”. O investigador reconhece ainda que “se não conseguirmos erradicar uma espécie que tem impactes negativos, deveremos procurar aproveitá-la de alguma forma”.

Há desde 1999 legislação em Portugal sobre espécies invasoras, com alterações importantes em 2019. A legislação atual permite “enquadrar ou proibir o licenciamento de algumas introduções ainda que não impeça de forma eficiente as introduções acidentais ou ilegais”, frisa o investigador. Este é um dos motivos que o leva a afirmar que é “muito importante que os comportamentos de risco para invasões biológicas sejam alterados por campanhas de conscientização de públicos-alvo”. Estas campanhas são dirigidas aos pescadores, aquariofilistas, e jardineiros entre muitos outros ligados à área. No entanto, esta e outra informação técnico-científica deve ser comunicada de forma clara à sociedade em geral, “sempre com base investigação científica de qualidade e avaliada por outros cientistas” sublinha. Ainda a respeito de comunicação em ciência, o investigador refere que, “a sociedade tende a favorecer e financiar a investigação e os investigadores que conhece ou a quem reconhece utilidade”, recordando que “em regimes democráticos, comunicar é uma forma de aumentar as probabilidades de sobrevivência das linhas de investigação”.

Ainda que o financiamento da investigação seja necessário e até imprescindível para o avanço científico e tecnológico, Pedro Anastácio junta o trabalho em equipa como ingrediente para o sucesso. “Consegue-se fazer coisas extraordinárias com imaginação e pouco dinheiro, mas sem uma equipa forte, coesa, empenhada e com boa liderança não se chega tão longe” sublinha. Acrescenta ainda que é necessário colegas e colaboradores para ajudar em assuntos práticos e para discutir ciência”, criando a atmosfera produtiva ideal.

Este investigador tem por Charles Elton, zoólogo inglês e ecologista animal a maior referência no campo das invasões biológicas, tendo publicado em 1958 a obra “The Ecology of Invasions by Animals and Plants”, em português “A ecologia das invasões por animais e plantas”. Elton era um comunicador nato e baseou o seu livro numa série de programas de rádio em que falava sobre o tema. Comunicar ciência aos mais jovens poderá, na opinião de Pedro Anastácio, “ser uma forma eficiente de mudar comportamentos, transmitir conhecimento novo e recrutar futuros cientistas”. Esta é uma mensagem forte que pretende transmitir através do projeto LIFE Invasaqua, organizando diversas ações para sensibilizar o público sobre as ameaças causadas por EEI aquáticas.

O artigo foi publicado originalmente em UÉvora.

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