A influência da Qualidade da Pulverização numa eficaz Protecção das Culturas. – António Cannas

A influência da Qualidade da Pulverização numa eficaz Protecção das Culturas. – António Cannas

Nas últimas décadas, muito se tem evoluído nas aplicações de produtos fitofarmacêuticos e muitos têm sido os meios colocados ao serviço da lavoura no sentido de se fazerem aplicações com melhor eficácia e menor impacto para o meio ambiente.

Destaque para moléculas cada vez mais “vectoriais” quanto aos alvos de destino e em muitos dos casos sem quaisquer danos sobre flora ou fauna estranha ao tratamento, equipamentos mais evoluídos com bicos de pulverização cada vez mais adequados ao fim a que se destinam e auxiliares da pulverização designados por adjuvantes.

Numa aplicação existem, em maior ou menor proporção, perdas que se podem classificar da seguinte forma:

1.Perdas entre o bico de pulverização e o alvo:
a.Deriva;
b.Evaporação.

2.Perdas devidas a uma má retenção sobre o alvo:
a.Salpico originado pelo impacto da gota com o alvo;
b.Escorrimento provocado pelo excessivo tamanho da gota ou volume de calda excessivo;
c.Lixiviação provocada pela acção mecânica da chuva ou da rega por aspersão.

3.Perdas devidas a uma má penetração da substância activa:
a.Propriedades físicas da superfície do limbo e da cutícula cerosa existente sobre o mesmo;
b.Condições atmosféricas verificadas no momento da aplicação (temperatura e humidade).

4.Perdas devidas a uma má translocação:
a.Incapacidade da molécula de substância activa se translocar uma vez no interior da folha.

Quais os factores aos quais devemos dar atenção no momento de fazermos uma aplicação?

Molhabilidade: molhar, significa expandir em maior ou menor medida a gota que impacta no alvo, por efeito tensioactivo;

Aderência: é importante que a gota que impacta o alvo se mantenha sobre o mesmo sem escorrimento;

Salpicos: a inércia com que a gota é projectada sobre o alvo leva à necessidade de absorver o impacto da mesma impedindo que se produzam salpicos e perda de calda para o solo;

Resistência à lavagem: para que se mantenha eficaz sobre o alvo, a calda deve resistir à lavagem mesmo após quedas de precipitação ou regas por aspersão;

Acidez da calda: devido à hidrólise alcalina, muitas matérias activas acabam por perder eficácia. É importante acidificar a calda sobretudo quando em presença de águas que tenham reacção alcalina;

Deriva: a deriva está associada a condições meteorológicas desfavoráveis, mas também à existência de gotas de calibre muito fino (inferior a 100 microns);

Escorrimento: o escorrimento está associado à formação de gotas com diâmetro muito elevado (superior a 400 microns).

Que factores devemos ter em conta quando pretendemos efectuar um tratamento?

1. Estado do equipamento: devemos certificar-nos de que o manómetro e o regulador de pressão se encontram em bom estado de funcionamento bem como as pontas de pulverização, sem entupimentos nem desgaste.

2. Condições meteorológicas: não se devem efectuar tratamentos em dias de vento, sendo este um factor de muito peso na ocorrência de deriva. Por outro lado, é importante assegurar que a humidade atmosférica não é demasiado baixa nem a temperatura demasiado alta.

3. Fitofármaco: finalidade a que se destina, homologação e dose recomendada.

4. Volume de calda: independentemente da cultura a que se destina, o sucesso de uma aplicação não está associado a um determinado volume de calda a aplicar, mas sim a um determinado número de impactos que varia de acordo com o tipo de tratamento a efectuar.

5. Tamanho da gota: as gotas verdadeiramente eficazes numa aplicação têm um diâmetro que se situa entre os 100 e os 400 microns. Abaixo ou acima destes valores, as perdas por deriva/evaporação e por escorrimento comprometem o resultado da aplicação.

6. Tipo de formulação: a própria natureza do fitofármaco a utilizar influencia o tamanho das gotas à saída da ponta de pulverização. Assim sendo, as formulações solúveis em água originam gotas mais finas que as formulações solúveis em óleo.

7. Bicos ajustados à aplicação: desenvolvidos para aplicação de herbicidas ou para tratamentos com fungicidas e insecticidas em fruteiras, olival e vinha.

É importante que no momento da aplicação, seja feita uma avaliação dos diversos factores que podem condicionar a mesma, sejam eles meteorológicos, mecânicos, biológicos ou químicos e intervir pelos mais diversos meios de forma a limitar as perdas no processo. Para uma aplicação eficaz, temos muitas vezes de intervir no processo eliminando ao máximo os factores que condicionam o êxito de uma aplicação e para tal, existem no mercado adjuvantes com diversas funcionalidades que, sem alterar a eficácia do produto, auxiliam no controle desses mesmos factores limitantes, reduzindo a deriva, acidificando a água que serve de base à composição da calda, melhorando a aderência sobre o alvo, limitando o escorrimento, expandindo a gota e impedindo a lixiviação da calda depositada por acção mecânica da chuva ou de regas por aspersão.

António Cannas

Chefe Produto Qualidade da Pulverização – Desenvolvimento Lusosem, S.A.

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