A fotografia tridimensional de Carlos Relvas já está (quase) toda num lugar

A fotografia tridimensional de Carlos Relvas já está (quase) toda num lugar

As fotografias estereoscópicas do amateur da Golegã sempre circularam entre coleccionadores, mas faltava quem as estudasse e reunisse: Carlos Relvas – Stereo Raisonné é lançado hoje. Catálogo online junta espólios de dez coleccionadores públicos e privados.

Era uma oliveira com um tronco de sete metros e meio de circunferência e uma base de dez. Um colosso de árvore que parece plantada ali desde sempre e que para sempre dará fruto. Um gigante que impressionou de tal maneira o fotógrafo-agricultor Carlos Relvas (1838-1894) ao ponto de o fazer anotar no verso do cartão estereoscópico desta maravilha da natureza uma das medidas da sua presença na planície da Quinta da Barroca, Torres Vedras.

O gigantismo, a complexidade estrutural, a diversidade de camadas e a riqueza de texturas desta velha oliveira são metáforas adequadas para descrever o trabalho que Relvas dedicou à imagem estereoscópica, uma das técnicas que elegeu desde que começou a dedicar-se à fotografia, no início dos anos 1860. É essa magnitude e pioneirismo que desde hoje podem ser apreciados no catálogo online Carlos Relvas — Stereo Raisonné (carlosrelvascatalogue.pt), o primeiro estudo aprofundado de um dos legados fotográficos do amateur da Golegã mais imponente, aquele que talvez mais circule entre coleccionadores, mas sobre o qual pouco se sabia.

Organizado pelo Early Visual Media Lab — Cicant, da Universidade Lusófona, e com a coordenação científica e curadoria de Victor Flores e Ana David Mendes, este catálogo, para além de uma visão de conjunto e comparativa, contribui para posicionar definitivamente a estereoscopia como uma técnica que Relvas não praticou apenas com um maravilhamento infantil ou pela sedução do espectáculo da tridimensionalidade do espaço. O (muito) que se pode apreciar nesta empreitada, que começou em 2017, é a mestria de um fotógrafo a tirar partido de todas as vantagens sensoriais da imagem estereoscópica (técnica apresentada em 1838 e logo aplicada à fotografia após a sua divulgação pública, em 1839), fosse o tronco de uma árvore centenária, os efeitos flamejantes de um pórtico manuelino ou ele próprio a aparecer à frente da câmara binocular.

Auto-retrato de Carlos Relvas (1868-1869) no primeiro estúdio, numa prova estereoscópica em albumina colada em cartão COLECÇÃO CASA DOS PATUDOS – MUSEU DE ALPIARÇA

Auto-retrato (1868-1869) no primeiro estúdio, num negativo em colódio húmido sobre vidro CASA-ESTÚDIO CARLOS RELVAS

A ponta deste icebergue começou a ser desvendada em 2018, na exposição Carlos Relvas — Vistas Inéditas de Portugal. A Fotografia nos Salões Europeus, no Museu do Chiado, em Lisboa, quando várias imagens estereoscópicas foram incluídas no estudo das primeiras décadas de carreira de Relvas. Desde então, Victor Flores e Ana David Mendes dedicaram-se apenas à fotografia estereoscópica de Carlos Relvas. Apesar do conhecimento que já traziam, o final desta empresa surpreendeu-os, sobretudo pelo número de imagens diferentes encontradas, 784, entre positivos e negativos, mas não só. “É número muito significativo. Ele tinha uma grande vontade de divulgar e dar visibilidade ao trabalho estereoscópico que estava a fazer”, diz Victor Flores em conversa com o PÚBLICO. Ana David Mendes concorda (este fundo de Relvas é um dos maiores do género do mundo), mas também sublinha a maneira “extremosa” como Relvas tratava “tudo aquilo que fazia”, sobretudo os cartões estereoscópicos. “Sabemos que ele seleccionava as cores dos cartões, que tratava dos carimbos, fazia as anotações pelo

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