A cultura da framboesa. Presença de néctar nas flores e sua extração pelas abelhas

A cultura da framboesa. Presença de néctar nas flores e sua extração pelas abelhas

[Fonte: Voz do Campo]

Importância da cultura

A cultura da framboesa tem vindo a ganhar uma importância crescente nos últimos 20 anos, sobretudo no Algarve e na Costa Vicentina. Em 2017 as estimativas apontam para 1108 hectares cultivados, representando 17 880 toneladas produzidas a nível nacional (INE,2017), das quais, a maior parte se destinou à exportação. Tendo em conta que em 1999 só havia 87 hectares cultivados em território nacional (Oliveira et al.,2007), fica bem evidente a expansão que esta cultura tem tido. As diversas operações culturais e sobretudo uma colheita delicada levam a que a cultura da framboesa empregue em média 12 trabalhadores por hectare. A qualidade do solo não é um fator determinante, porque a cultura é feita quase sempre em substrato. Embora a framboesa possa ser cultivada em estufas simples, as infraestruturas têm vindo a melhorar ao longo dos anos.

Fig. 1 – Gota de néctar após o vingamento do fruto. São visíveis os estiletes e os estigmas em cada drupéola.

Importância da polinização

Na framboesa, aquilo a que habitualmente designamos por fruto é, na realidade, um fruto múltiplo composto por drupéolas. Cada drupéola é o resultado de um processo de polinização, sendo por isso necessário que, numa mesma flor, o pólen chegue a todos os estigmas (Fig. 1). Uma polinização deficiente, não só reduz a produção (menor taxa de vingamento), como leva à produção de frutos deformados (quando o número de drupéolas formadas é inferior ao normal). Assim, a polinização tem efeitos significativos sobre a quantidade e a qualidade da produção.

Dado que a polinização é entomófila, a framboesa necessita atrair um elevado número de insectos.

Néctar das flores e o seu papel na frutificação

Para atrair os insetos polinizadores, as flores de framboesa secretam grandes quantidades de néctar, com elevado teor de açúcares, o que torna esta cultura atractiva para as abelhas e outros insectos polinizadores. O néctar tem assim um importante papel no processo de produção. Mas, por outro lado, quando não é extraído, serve de substrato para o desenvolvimento de fungos e bactérias, podendo pôr em risco a produção. Este problema surge sobretudo quando a humidade relativa do ar é elevada (Fig. 1).

Papel das abelhas na extração de néctar

A abelha (Apis mellifera) é o único inseto que armazena quantidades substanciais de néctar floral. Ao colherem esse néctar, as abelhas, não só polinizam as flores, como também reduzem de forma assinalável o potencial de proliferação dos agentes patogénicos que estragam os frutos.  A quantidade e a qualidade de frutos de framboesa produzidos dependem assim das colónias de abelhas para as duas funções na cultura: polinização e extração de néctar. Os abelhões são utilizados para complementar a polinização realizada pelas abelhas, sendo usados sobretudo nos meses mais frios. No entanto, não tratam do problema de excesso de néctar, pois embora o usem como alimento, não criam reservas desta substância.

Estudo sobre a produção de néctar nas flores de framboesa

A determinação da quantidade de néctar produzido e o momento em que esta ocorre são essenciais para se poder calcular o número de colmeias a colocar nas estufas para assegurar a sua extração pelas abelhas.

Um estudo feito durante os períodos de floração e frutificação nas estufas de produção de framboesa, de 12 de março até 11 de novembro de 2017, indica que se regista uma produção de néctar mais importante quando as pétalas começam a abrir, diminuindo progressivamente nos estados fenológicos seguintes e passando a ser residual a partir do momento em que as anteras começam a secar e a sua cor escurece. A produção de néctar foi determinada em mais de quatro centenas de flores, de duas cultivares de framboesa amplamente difundidas.  A secreção e produção de néctar por parte da cultura de framboesa foi significativa, tendo variado entre 350 a 560 litros/ha, numa campanha de 42 dias, durante o período referido.

Fig. 2 – Planta da quinta, com a localização das colmeias e das zonas de mortalidade das abelhas.

Colocação de colmeias fora das estufas

Fig. 3 – Colmeias normais (esq.) e “super-colmeias” (dir.)

No trabalho realizado pela Universidade do Algarve em colaboração com a Hubel Agrícola, em duas campanhas de produção de framboesa em estufas de nova geração (estufas com 5,5 m de altura ao canal e 8,5 m à cumeeira) da Fazenda Nova (Fig. 2), no concelho de Olhão, foram feitas observações sobre as abelhas e sobre o estado das colónias. Na primeira campanha, de 12 de março até 24 de Abril de 2017, foram colocadas 44 colmeias à volta das estufas, mas com acesso às flores no interior das estufas. A colocação de colmeias no exterior das estufas levou a um enfraquecimento das colónias, visitas intermitentes às flores, recolha irregular de néctar e ocorrência de algumas picadas aos trabalhadores. Notando-se as perdas e o enfraquecimento das colónias, logo a seguir à campanha, as colmeias foram agrupadas num apiário de criação com o intuito de salvar as colónias ainda existentes.

Colocação de colmeias dentro das estufas

Na segunda campanha, entre 5 de outubro e 8 de novembro de 2017, deu-se inicio a uma segunda fase de experimentação. Foram constituídas 4 “super-colmeias” (colmeias com o dobro do tamanho e do número de quadros (Fig. 3). Estas “super-colmeias” foram povoadas com colónias, equilibradas, entre si através da pesagem das abelhas de cada colmeia e da medição das áreas de criação de cada quadro. Foram instaladas dentro das estufas, a 2 metros de altura do solo, em cima de balanças. As colónias instaladas pertenciam a diferentes linhagens. Uma foi constituída com abelhas da subespécie italiana (Apis mellifera ligustica); a segunda com abelhas desenvolvidas desde 1986 na ilha da Graciosa, Açores, híbridas da caucasiana (Apis mellifera caucasica) com ibérica (Apis mellifera iberiensis). Não se trata, portanto, aqui de uma subespécie, mas sim de uma raça híbrida designada por “Graciosa”, pelo apicultor que a selecionou (Jean-Pierre Lhérété). A terceira e quarta colmeias foram constituídas com abelhas ibéricas (Apis mellifera iberiensis). Uma destas duas últimas foi constituída sem abelha mestra, com um dispositivo contendo feromonas para as abelhas continuarem a trabalhar normalmente. Todas as colmeias foram pesadas diariamente, durante 35 dias. Na figura 4 podemos ver que as flutuações de peso aconteceram de uma forma sincronizada; quando existe uma descida ou subida de peso, esta aconteceu em quase todas as colmeias simultaneamente. Podemos verificar que três colmeias acabaram com um balanço negativo (perderam peso).  A única que acabou com o balanço final neutro (manteve o peso inicial) foi a da raça Graciosa.

Fig. 4 – Variações dos pesos das colmeias, determinados entre 5 de outubro e 8 de novembro de 2017, durante 35 dias

A colocação de colmeias no interior das estufas, em suportes a 2 metros de altura, durante o período de floração das plantas permitiu reduzir significativamente a mortalidade das abelhas e assegurar visitas assíduas e pontuais às flores, sem derivas ou ocorrência de ataques aos trabalhadores.

Considerações finais

A quantidade e a qualidade da produção de framboesas em estufa melhoram significativamente com a presença de abelhas. A preparação e colocação das colmeias dentro das estufas em suportes elevados a 2 metros de altura beneficia significativamente as abelhas e a cultura. Mais ainda, foi calculado que, nas condições em que se realizou este estudo, são necessárias 5 colmeias tipo reversível (ou entre 2 e 3 super-colmeias) por hectare, para a polinização e a recolha do néctar na cultura de framboesa, que secreta, numa campanha de 42 dias, em média 455 Lha de néctar.

Referências

INE. (2017). Estatísticas Agrícolas. Lisboa: Instituto Nacional de Estatística.

Oliveira, P. B., Valdiviesso, T., Esteves, A., Mota, M., & Fonseca, L. (2007). A planta de framboesa: Morfologia e fisiologia. Folhas de Divulgação AGRO 556 Nº1. INRB. Oeiras.

Um artigo de:  Tomás de Almeida Brito1, Jean-Pierre Lhérété2, Jorge Pereira3, Amílcar Duarte4

1 Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade do Algarve, tomasdealmeidabrito@gmail.com

2 Consultor Apícola, 255ª Estrada de Alcaria Cova, Estói, 967908847

3Hubel Agrícola, Parque Hubel, Pechão 8700-179 Olhão, jpereira@hubelagricola.pt

4MeditBio, Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade do Algarve (UAlg), Campus de Gambelas, 8005-139 Faro, aduarte@ualg.pt

Publicado na Voz do Campo n.º222 (janeiro 2019)

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