A brucelose

A brucelose

A brucelose, também conhecida como “febre de Malta”, é uma zoonose associada a uma bactéria intracelular, transmissível ao homem por várias espécies animais (pequenos e grandes ruminantes, suínos e cães são os vetores de transmissão do bacilo para os humanos), cuja infeção é causada pelas bactérias Brucella melitensis (a mais patogénica e cujos reservatórios são as cabras e as ovelhas), Brucella abortus, (presente no gado bovino) (ver figura 1), Brucella suis e Brucella canis (transmitidas pelos suínos e pelos cães, respetivamente), embora existam mais espécies de Brucela spp.

brucelose figura1
Figura 1 – Reservatórios do agente da brucelose

Nos animais, a brucelose é uma infeção crónica, cuja localização das bactérias nos órgãos reprodutores é responsável pela esterilidade dos animais e por abortos.

No ser humano, esta doença pode expressar-se de várias formas, aguda ou crónica, sistémica ou localizada.

Normalmente, as pessoas afetadas recuperam em duas a três semanas, na forma aguda da doença, mesmo sem serem sujeitas a tratamento. Noutras, porém, podem surgir complicações e evoluir para as formas subaguda, intermitente ou crónica da doença. As complicações desta doença não são comuns, mas podem incluir endocardite, meningite, encefalite, orquite entre outras.

A sua sintomatologia pode manifestar-se entre dias a semanas após o contacto com a fonte de contaminação (a média são duas semanas) e começa por um início repentino de calafrios e febre alta, que pode persistir de forma intermitente e por dois a quatro dias. Pode haver remissões da febre ao longo de meses ou anos, sendo tida muitas vezes como “febre de origem desconhecida”. Causa ainda dores articulares e na nuca, cefaleias, diarreia e mal-estar geral, incluindo instabilidade do humor.

A brucelose pode mesmo ser fatal, embora numa percentagem inferior a 5%, sobretudo em casos graves que incluam endocardite e complicações do sistema nervoso central.

As vias de transmissão desta doença para o ser humano ocorrem por contacto indireto (por via digestiva) ou direto (75% das transmissões) com os animais.

As bactérias encontram-se maioritariamente em produtos animais, como o leite, a urina ou produtos do aborto em animais que estejam infetados. Por tal, esta patologia tornou-se uma doença ocupacional – acomete os veterinários e os produtores agropecuários, trabalhadores dos centros de abate e os técnicos laboratoriais, em grande escala.

No ser humano, afeta mais o sexo masculino (podendo causar-lhes orquites e infertilidade) e a faixa etária entre os 55 e os 64 anos. Aparentemente, segundo alguns autores, tem carácter geográfico (incide mais nas áreas rurais) e caráter sazonal, pois a declaração de casos de doença ocorre mais frequentemente entre abril e junho (coincidindo também com o aumento dos partos de animais e a maior disponibilidade de leite cru para consumo e transformação).

Outras vias de transmissão da brucelose para o ser humano são as secreções, através de soluções de continuidade cutâneas ou através da ingestão de produtos não pasteurizados (ver figura 2), sobretudo lácteos crus. A ingestão de carne é uma fonte de infeção menos comum, até porque não é frequente que se consuma carne crua e o número de bactérias neste produto é baixo. Menos prováveis ainda são outras vias de transmissão como a ingestão de vegetais ou água contaminados por fezes ou urinas de animais ou a transmissão inter-humana.

Como medidas de prevenção e face a estas vias de contaminação, recomenda-se que os alimentos sejam cozinhados (a brucela é destruída a 72º C em 15 segundos e a 62-63º C (pasteurização) durante 3 minutos. Abaixo dos 5º C, o crescimento e multiplicação bacterianos são inibidos, mas podem persistir mesmo a temperaturas mais baixas e até de congelação. O leite deve ser pasteurizado, também como medida de prevenção da brucelose.

brucelose figura2.1 brucelose figura2.2
Figura 2 – Fontes de transmissão da brucelose ao Homem

De igual modo, e ainda ao nível da prevenção da doença, as pessoas que lidam com animais ou carcaças eventualmente infetados devem usar equipamento de proteção, como óculos e luvas para proteção dos olhos e da pele, respetivamente.

brucelose figura3.1
brucelose figura3.2
Figura 3 – Vacinação de animais
(grandes e pequenos ruminantes)

Não existe vacina humana, mas a vacinação dos animais é recomendável (figura 3), quando as autoridades sanitárias entenderem que fatores de ordem sanitária o justificam.

Esta doença está identificada em todo o mundo e, de acordo com a OMS, a sua incidência poderá ser muito superior ao que sugerem os números oficiais.

É uma doença de declaração obrigatória, com implicações socioeconómicas e cuja distribuição geográfica acompanha a endemia animal, sendo possível estar a par da sua incidência nas diferentes localidades, precisamente devido ao diagnóstico laboratorial que, na Região Autónoma da Madeira, se realiza no Laboratório Regional Veterinária e Segurança Alimentar (LRVSA).

O teste efetuado neste laboratório é um teste simples de sero-aglutinação, denominado Rosa Bengala (ver figura 4), de rápida execução e com resultados quase imediatos.

brucelose figura4.1 brucelose figura4.2
Figura 4 – Teste de sero-aglutinação Rosa Bengala

O princípio do teste consiste na aglutinação antigénica bacteriana para a deteção (qualitativa e semiquantitativa) de anticorpos anti-brucella. Trata-se de um teste com elevada sensibilidade e uma especificidade diagnóstica de 100%.

O serodiagnóstico desta doença torna-se um recurso laboratorial essencial, sobretudo numa das zoonoses bacterianas mais importantes para o ser humano e tantas vezes subdiagnosticada, mesmo em países desenvolvidos ou em desenvolvimento. E daí a importância da utilização deste teste de triagem com um antigénio “brucélico” corado com Rosa Bengala, para pesquisa de anticorpos em soros de animais.

Desta forma, e através da ação do LRVSA, é possível fazer o controlo desta patologia salvaguardando a saúde pública e o desenvolvimento socioeconómico da nossa Região.

Sílvia Vasconcelos
Laboratório Regional Veterinária e Segurança Alimentar
Direção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural

O artigo foi publicado originalmente em DICAs.

Comente este artigo
Anterior Inundações destroem mais de 54.000 hectares agrícolas no sul de Moçambique
Próximo Commission publishes report on implementation of EU promotion policy for agri-food products

Artigos relacionados

Últimas

Revogada exceção que permitia engarrafamento fora do Douro e do entreposto de Gaia

O Governo revogou uma exceção prevista no estatuto das denominações de origem e indicação geográfica do Douro que permitia o engarrafamento nas zonas limítrofes da região demarcada ou […]

Últimas

Cotações – Coelhos – 18 a 24 de outubro de 2021

As cotações médias não se alteram […]

Eventos

Seminário em Vagos sobre novos desafios para a agricultura – 15 de novembro

A 15 de Novembro, Vagos acolhe o “Seminário Rural +: Novos desafios para a agricultura”. Organizado pela Câmara Municipal de Vagos, […]