Estando nesta altura a decorrer a apresentação de candidaturas à 2ª fase do Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior, é necessária uma reflexão sobre os resultados da 1ª fase, em áreas cruciais para o futuro como são as florestas e o ambiente. Sobre este assunto, o Presidente da Escola Superior Agrária da Universidade Politécnica de Coimbra (ESAC-UPC) não pode deixar de manifestar a sua preocupação. Efetivamente, na 1ª fase do Concurso, pelo contingente geral de acesso, a nível nacional todos os cursos da área de florestas ficaram com menos de metade das vagas preenchidas e apenas dois cursos da área de ambiente preencheram completamente as vagas, tendo mesmo havido vários cursos nesta área que não tiveram um único colocado.
Face a esta realidade, João Gândara confessa que há uma pergunta que não podemos deixar de fazer: “se sabemos que os desafios ambientais já são, e irão continuar a ser, uma das grandes questões das próximas décadas, porque é que continuamos a ter dificuldade em atrair jovens para as formações nestas áreas?” “E isto não é uma pergunta retórica. É uma contradição sobre a qual é indispensável a nossa reflexão”, alerta.
“As alterações climáticas, a transição e a eficiência energética, a gestão de resíduos e dos recursos florestais e naturais, os incêndios, a poluição em todas as suas formas, a perda de biodiversidade, a degradação dos solos, a escassez de água, a necessidade de restaurar ecossistemas e a adaptação das cidades e dos territórios às novas condições ambientais não são problemas do futuro. Já estão a acontecer. E vão exigir, cada vez mais, profissionais qualificados para os compreender, prevenir, gerir e resolver. Profissionais sem medo de enfrentar grandes desafios!”, continua.
“E há algo que talvez seja ainda mais importante: não estamos apenas a formar para satisfazer o mercado de trabalho atual. Estamos a formar para os problemas que vão definir o mercado de trabalho de amanhã”, prossegue. “Pensemos, por exemplo, na biodiversidade. A conservação deixou de ser apenas uma preocupação de investigadores ou organizações ambientais. A recuperação de ecossistemas degradados, a implementação de medidas de restauro, a gestão de espécies invasoras e a monitorização da biodiversidade vão assumir uma importância crescente”, assevera.
“O mesmo acontece com os resíduos, onde a economia circular está a obrigar a repensar profundamente a forma como produzimos, utilizamos e valorizamos materiais. Ou com a energia, onde a transição para sistemas mais sustentáveis exige profissionais capazes de compreender simultaneamente as dimensões tecnológica, ambiental e territorial. Ou ainda com a água, os solos, a qualidade do ar, o ordenamento do território e a adaptação às alterações climáticas. Ou com a floresta, onde os incêndios, as pragas e as alterações climáticas vão exigir novas formas de prevenção e gestão adaptativa. Não faltam problemas. O que não podemos deixar faltar são pessoas preparadas para os enfrentar. O futuro precisa de jovens que consigam trazer novas formas de olhar para os problemas e recebam a formação adequada para encontrar soluções inovadoras”, exprime com grande preocupação.
Por isso, “talvez seja altura de olharmos para a escolha de um curso superior de outra forma”, sugere.
“Quando um jovem escolhe uma licenciatura, é natural que pense nas profissões que conhece, nas áreas que parecem ter mais procura hoje ou naquelas que estão mais presentes nas redes sociais. Mas talvez seja igualmente importante perguntar: que marca querem os jovens deixar no mundo? De que profissionais vamos precisar daqui a 10, 20 ou 30 anos? Não tenho dúvidas de que uma parte importante da resposta estará nas profissões ligadas à sustentabilidade e à gestão florestal e ambiental, remata o Presidente da ESAC.
Esperando que este paradoxo venha a ser atenuado pelos resultados da 2ª fase do Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior, cujos resultados serão conhecidos a 30 de setembro, a ESAC decidiu adiar para o dia 28 de setembro o início das aulas do primeiro ano dos cursos de licenciatura. Pretende assim garantir que os estudantes colocados na 2ª fase estarão em condições de igualdade relativamente aos colocados na 1ª fase, não sendo prejudicados pelas alterações introduzidas ao calendário do Concurso Nacional de Acesso.
Fonte: ESAC














































