A Organização Mundial de Saúde Animal (WOAH) afirma que mais de 20% da produção animal mundial anualmente acaba no “lixo” ou perde-se devido a doenças que seriam evitáveis. Estas perdas têm consequências diretas no aumento dos preços dos alimentos, no comércio internacional e na fragilização dos meios de subsistência de milhões de pessoas. Muitas vezes não percebemos porque aumenta o preço dos ovos, porque dispara o preço da carne de vaca ou em situações mais extremas porque aumenta a fome alimentar em países subdesenvolvidos. É necessário ir a raiz do problema para perceber a sua consequência final.
Os sistemas destinados à prevenção de crises sanitárias – nomeadamente a vigilância epidemiológica animal, os serviços veterinários, os programas de vacinação e a capacidade de laboratórios veterinários – recebem menos de 0,6% do investimento global em saúde. A diferença entre aquilo que é necessário investir e o que efetivamente é investido não constitui apenas um problema técnico ou financeiro; trata-se de uma escolha política. A WOAH estima que melhorar os Serviços Veterinários mundiais exigiria um investimento aproximado de 2,3 mil milhões de euros por ano, um valor que parece alto mas que representa menos de 0,05% do custo económico provocado pela COVID-19 num único ano.
A manutenção da saúde animal passa despercebida quando funciona corretamente. Contudo, quando os sistemas falham, as consequências tornam-se amplamente visíveis. Cerca de 60% das doenças infeciosas humanas conhecidas têm origem animal, enquanto 75% das doenças emergentes em humanos resultam igualmente de agentes provenientes dos animais.
Gostaria de dar três exemplos do impacto que os serviços veterinários podem ter no mundo: 1) A raiva continua a ser um exemplo paradigmático. A doença provoca cerca de 59 mil mortes humanas por ano, apesar de ser quase totalmente evitável. Aproximadamente 99% dos casos resultam de mordeduras de cães, sendo que a vacinação animal custa apenas alguns euros, enquanto o tratamento humano pós-exposição e quando disponível ultrapassa frequentemente os 100 euros por pessoa. 2) Outro desafio crescente é a resistência antimicrobiana. Sem medidas eficazes, estima-se que esta problemática possa causar mais de 39 milhões de mortes humanas até 2050 e vir a matar mais que o cancro. Os prejuízos na produção animal mundial serão superiores a 953 mil milhões de euros. 3) Também a gripe aviária continua a representar uma ameaça séria. Embora ainda não exista evidência de transmissão sustentada entre humanos, os especialistas alertam que a prevenção na origem é hoje mais urgente do que nunca.
Segundo o relatório OECD–FAO, publicado em julho de 2025, o consumo mundial per capita de carne, leite e outros produtos de origem animal deverá aumentar cerca de 6% até 2034, com a Índia e a China a contribuírem de forma determinante para este aumento. Para responder a essa procura, prevê-se um crescimento global da produção de carne, leite e ovos na ordem dos 17% durante o mesmo período. Esta expansão ocorre num contexto em que os riscos sanitários estão a aumentar, e não a diminuir, colocando uma pressão acrescida sobre os sistemas de saúde animal.
No centro deste problema encontra-se um desafio estrutural: os benefícios da saúde e do bem-estar animal são coletivos e partilhados globalmente, mas continuam frequentemente a ser olhados e financiados como se fossem interesses isolados de cada país.
Quando os Serviços Veterinários são fortes e capacitados, os surtos podem ser detetados precocemente, controlados mais rapidamente e os impactos económicos e sanitários significativamente reduzidos. Pelo contrário, quando estes serviços são frágeis, os surtos tendem a disseminar-se mais amplamente, durar mais tempo e gerar custos incomparavelmente superiores. As medidas preventivas refletem a importância da preparação e da capacidade de resposta rápida. A experiência já nos demostrou inúmeras vezes que “mais vale prevenir que remediar”.
Os dados atualmente disponíveis são claros: investir em saúde animal constitui uma das decisões económicas e estratégicas mais eficazes que os países podem tomar. Por isso, em Portugal e no mundo, investir nos serviços veterinários, na medicina veterinária e nos médicos veterinários não é uma questão de opção, mas sim um dever para com o bem-estar e saúde da sociedade e de todos nós.
O artigo foi publicado originalmente em Vida Rural.














































