Projeto nascido há mais de uma década no interior algarvio transformou água, sombra e espaço público numa resposta ao calor e num motor de atração local. Depois de o caso chegar ao Jornal da SIC, a Terracrua Design defende a identificação de aldeias onde o modelo possa ser adaptado e replicado.
Quando as temperaturas ultrapassam os 40 graus no interior de Portugal, uma pergunta começa a tornar-se inevitável: para onde podem ir as pessoas?
No Ameixial, uma pequena aldeia da Serra do Caldeirão, no concelho de Loulé, parte da resposta pode estar à vista há vários anos.
A recuperação da Fonte da Seiceira e a criação de um espelho de água deram origem a um espaço público onde água, vegetação, sombra e zonas de permanência permitem hoje à população e aos visitantes encontrar um lugar de frescura durante os meses mais quentes.
O caso foi ontem mostrado no Jornal da SIC, colocando no debate nacional uma experiência que a Terracrua Design considera poder ser replicada, com adaptações a cada território, em muitas outras aldeias portuguesas.
Uma história que começou em 2014
A história do Ameixial começou muito antes de expressões como “refúgio climático” fazerem parte da discussão pública.
Em setembro de 2014, quinze participantes num Curso de Design em Permacultura passaram doze dias a trabalhar sobre a freguesia. Em vez de desenharem uma propriedade fictícia, fizeram do próprio Ameixial um laboratório de planeamento territorial.
Percorreram a paisagem, estudaram água, solos, vegetação, economia e infraestruturas e, sobretudo, ouviram a população.
O processo ficou documentado em mais de 400 fotografias, mapas, levantamentos, painéis de diagnóstico e uma maquete física da freguesia. Os registos mostram uma metodologia baseada primeiro na observação do território, depois na identificação das necessidades da comunidade e só posteriormente no desenho de soluções.
Entre os espaços identificados para valorização encontrava-se a Fonte da Seiceira.
Poucos meses depois, na primeira edição do Orçamento Participativo do Município de Loulé, a população escolheu precisamente a criação de um espelho de água naquele local.
A obra seria inaugurada em maio de 2016, representando um investimento municipal de cerca de 50 mil euros, complementado por intervenções da Junta de Freguesia.
Muito mais do que uma praia de interior
Hoje, a Fonte da Seiceira dispõe de cerca de 100 metros quadrados de espelho de água, zonas verdes, balneários, mesas de piquenique, churrasqueiras e um pequeno bar com esplanada.
Mas olhar para o Ameixial apenas como um local de lazer é ignorar aquilo que o espaço representa perante um clima que está a mudar.
Água. Árvores. Sombra. Espaço público. Um lugar onde permanecer quando o calor se torna extremo.
A intervenção não foi concebida em 2014 sob a designação de “refúgio climático”. O conceito não fazia parte da discussão que existe hoje. Mas, na prática, a combinação de elementos criada naquele território desempenha precisamente algumas das funções que atualmente procuramos numa infraestrutura de adaptação ao calor.
“O Ameixial demonstra o que podemos fazer em muitas aldeias do interior: criar espaços de água e sombra que funcionem como refúgios nos períodos de calor extremo e que, ao mesmo tempo, tragam pessoas, atividade económica e vida às comunidades locais.”, afirma Tiago Lucena, da Terracrua Design.
O turismo procura água e sombra
Há ainda uma segunda dimensão.
Num país onde grande parte da procura turística de verão continua concentrada no litoral, pequenos espaços desta natureza podem ajudar a redistribuir visitantes pelo território.
O que protege a população do calor pode simultaneamente tornar uma aldeia mais atrativa.
Uma fonte recuperada, árvores, sombra, água, uma zona de merendas e um pequeno espaço de restauração podem representar uma intervenção relativamente simples, mas criar condições para que residentes permaneçam no espaço público e para que visitantes parem, consumam e descubram o território.
Adaptação climática e desenvolvimento local não precisam de ser políticas separadas.
No Ameixial, podem ser observadas no mesmo lugar.
De uma praia para uma rede nacional
É esta possibilidade que a Terracrua Design quer agora colocar no debate.
Portugal possui milhares de aldeias e pequenos aglomerados rurais. Muitos conservam fontes, nascentes, pegos, ribeiras, pequenas albufeiras, açudes e outros elementos relacionados com a água que perderam parte da sua função ou permanecem subaproveitados.
A proposta não passa por construir uma “praia fluvial” igual em cada aldeia.
Passa por identificar os recursos existentes e desenhar cada intervenção a partir do território.
Em alguns lugares poderá ser uma fonte. Noutros, um pego, uma linha de água, uma pequena albufeira ou simplesmente um espaço público onde seja possível combinar retenção de água, arborização e sombra.
A Terracrua Design está a desenvolver esta abordagem para trabalhar com municípios e juntas de freguesia na identificação destes locais e na criação de redes municipais de espaços de água e conforto climático.
Em vez de um único grande equipamento, vários pequenos pontos distribuídos pelas aldeias de um concelho.
O Ameixial como prova de conceito
O interesse do Ameixial está precisamente em mostrar que esta discussão não começa numa folha em branco.
Existe um espaço construído. Existe utilização. Existe um processo participativo documentado.
E existe uma história com mais de uma década que permite observar como uma intervenção relativamente pequena pode produzir benefícios ambientais, sociais e económicos durante muitos anos.
O mesmo processo de 2014 identificou ainda a antiga fábrica de cortiça do Ameixial entre os espaços que a população gostaria de ver recuperados. Em 2024, após investimento municipal, o edifício reabriu como espaço de incubação e acolhimento de atividades económicas.
A correspondência não significa que todas as decisões públicas posteriores tenham resultado diretamente daquele exercício. Demonstra, porém, algo mais simples e talvez mais importante: quando se começa por ouvir as pessoas e compreender o território, é possível identificar necessidades que continuam relevantes uma década depois.
A pergunta para Portugal
Perante verões progressivamente mais difíceis no interior, o Ameixial deixa uma pergunta:
quantas aldeias portuguesas poderiam ter o seu próprio espaço de água e sombra?
Não necessariamente grandes obras. Não necessariamente piscinas.
Mas lugares desenhados a partir da água e dos recursos que já existem, capazes de oferecer conforto climático à população, criar novos espaços de encontro e simultaneamente aumentar a atratividade das aldeias.
O Ameixial demonstra que é possível.
O desafio agora é passar de um caso isolado para uma estratégia territorial.
Fonte: Terracrua Design















































