A água da Albufeira da Marateca/Santa Águeda abastece mais de 63 000 pessoas nos municípios de Castelo Branco, Idanha-a-Nova, Vila Velha de Ródão e Fundão. Mas antes de chegar à torneira é controlada na Estação de Tratamento de Água de Santa Águeda situada na Póvoa de Rio de Moinhos, no Concelho de Castelo Branco.
De acordo com o Decreto-Lei n.º 69/2023, de 21 de Agosto todos os municípios têm um Programa de Controlo da Qualidade da Água (PCQA) que monitoriza a água de consumo. O programa é supervisionado pela Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos ( ERSAR ), é revisto anualmente e prevê a realização trimestral de análises laboratoriais cujos resultados são divulgados, no prazo de 45 dias úteis após o termo de cada trimestre. Estas análises avaliam cerca de 58 parâmetros onde se incluem pesticidas (como glifosato, AMPA, entre outros) PFAS (substâncias per e polifluoroalquílicas) e nitratos.
Em 2022 a morte de toneladas de peixes na Albufeira da Marateca, sem que a Agência Portuguesa do Ambiente tenha identificado a causa, criou uma grande desconfiança em relação à qualidade da água. Refira-se que na envolvente à albufeira estão instalados pomares intensivos de pêssego e cereja, ocupando também, a zona de proteção, o que constitui uma fonte muito provável de contaminação por pesticidas.
Como se sabe a contaminação da água não afecta apenas os humanos, mas também a biodiversidade, de forma directa ou por bioacumulação e bioampliação. Neste contexto, a Quercus Castelo Branco decidiu realizar uma análise laboratorial à água da barragem mais completa que a obrigatória no PCQA . Foi solicitada avaliação para 842 itens diferentes, entre substâncias, produtos de degradação e outros indicadores da qualidade da água. Para além dos PFAS (também designados por químicos eternos), metais e nutrientes, deu-se relevância aos pesticidas (herbicidas, fungicidas, inseticidas, bactericidas), dada a sua perigosidade e uso frequente na agricultura. Neste grupo, foi investigada a presença e a concentração de 767 substâncias e produtos em que essas substâncias se podem transformar no ambiente, como é o caso dos derivados do clorotalonil (fungicida). Como o TFA (ácido trifluoroacético) não consta dos PFAS analisados trimestralmente (Soma de PFAS) a Quercus realizou uma análise específica de TFA que seguiu a abordagem recomendada pela Comissão Europeia. O TFA pode resultar da degradação de substâncias fluoradas ligadas a pesticidas, gases fluorados/refrigerantes e outras fontes químicas ou industriais.
A amostra foi recolhida no dia 29 de junho de 2026 em três pontos por isso os resultados dão uma visão geral da albufeira. A análise foi realizada pelo Phytocontrol, um laboratório francês com acreditação, que apresentou a proposta mais completa de entre os muitos laboratórios contactados pela Quercus.
Os metais analisados (cádmio, chumbo e mercúrio, entre outros), nitratos, nitritos e fósforo total dissolvido apresentaram resultados dentro dos valores normais.
Não se detectaram PFAS nem pesticidas (tais como glufosinato, ditiocarbamatos, paraquato e diquato, entre outros), tendo estes ficado abaixo do limite de quantificação do laboratório.
Apenas o TFA, com uma concentração de 0,73µg/L (microgramas por litro) é preocupante. Apesar de não constituir uma situação de risco imediato deve ser monitorizado.
Os resultados das análises periódicas do 1º Trimestre de 2026 referentes aos 4 municípios estão publicados e se compararmos os resultados da Quercus com os divulgados, por exemplo, pelos Serviços Municipalizados de Castelo Branco (SMCB), verificamos concordância naquilo que têm em comum. É o caso do glifosato, pesticidas totais, nitratos, nitritos, alguns metais e soma de PFAS em que não aparecem sinais de valores acima dos limites, nem de presença relevante.
Mas há uma diferença importante – enquanto os dados dos SMCB caracterizam a água da rede pública, já tratada e distribuída, os dados da Quercus caracterizam a água da albufeira antes do tratamento. Além disso, a análise da Quercus avaliou um número muito superior de substâncias ao que está definido no PCQA.
Encontrámos referência à monitorização da água da Marateca no Relatório e Contas 2024 das Águas do Vale do Tejo, no entanto, não existe uma tabela detalhada com valores por data, local de recolha e substância analisada. Para além de não referir claramente o TFA, o conjunto de pesticidas também é muito inferior ao analisado pela Quercus. Assim esta análise acrescenta informação pertinente que complementa a informação pública disponível.
Ao disponibilizar dados científicos credíveis, esta iniciativa da Quercus contribui para dar confiança aos cidadãos, estimulando-os a serem mais atentos e mais activos na preservação dos bens naturais.
Num Distrito com água de boa qualidade é de salientar o trabalho do Município de Castelo Branco distinguido reiteradamente com o selo de “Qualidade Exemplar de Água para Consumo Humano”.
É muito importante ter em conta que os herbicidas e os fungicidas são aplicados em Março e Abril e a recolha da amostra só se realizou no final de Junho e talvez por isso já não foram detectados. De qualquer forma uma análise pontual é insuficiente para ter um conhecimento aprofundado de um sistema complexo, como é a albufeira. Assim a Quercus considera importante realizar novas análises e noutros períodos do ano assegurando uma monitorização continuada.
Conhecer melhor a qualidade da água na origem é essencial para proteger os ecossistemas, gerir melhor a água e garantir informação clara, rigorosa e acessível aos cidadãos. Esta informação de base técnica e científica é fundamental para reforçar a confiança das populações nas instituições e nos serviços prestados.
Relatório do laboratório Phytocontrol, informe-se sobre os métodos usados e os resultados detalhados através deste link – https://drive.google.com/file/d/10vydCKN4JGU4ZiI-Qv4ceutFWD1RnA4k/view?usp=drive_link
Nota: Por lapso o laboratório refere a data da colheita a 26 de junho em vez de 29 de Junho de 2026. Já solicitámos a correcção.
Fonte: Quercus














































