Portugal produz cerca de 86% dos alimentos que consome, o que coloca a nossa dependência do exterior entre os 14% e os 20%. Será isto excessivo?
A pergunta
Qual é a dimensão efetiva da dependência alimentar em Portugal?
Resposta curta
Menor do que se costuma dizer. No triénio 2021 a 2023, Portugal atingiu um grau de autossuficiência de cerca de 80% na agricultura e 86% no conjunto alimentar, o que coloca a dependência agroalimentar entre os 14% e os 20%. Para uma economia pequena e totalmente aberta ao exterior, integrada na União Europeia, é um valor perfeitamente razoável. Isto não apaga, porém, as fragilidades de alguns setores, como os cereais, as oleaginosas e as carnes de bovino.
Os números
Nos últimos 30 anos (1994-2024)
- redução de mão-de-obra à taxa de -2,5%/ano
- crescimento de volume da produção à taxa de +0,9%/ ano
- produtividade do trabalho aumentou 168,8% (+3,4%/ano)
- crescimento dos consumos intermédios por hectare de superfície agrícola cultivada à taxa de + 4,3 %/ano
- crescimento do volume da produção agrícola por hectare de superfície cultivada à taxa de +2,5%/ano
- produtividade da terra aumentou à taxa de 2,5%/ano
- produtividade dos consumos intermédios diminuiu 37,2% (-1,5%/ano)
Fundamentação
A produtividade do sector agrícola pode ser medida com base em diferentes indicadores, sendo o da produtividade parcial do trabalho o mais usualmente utilizado.
Durante os últimos 30 anos (“1984”-“2024”), a produtividade do trabalho medida pela relação entre o volume da produção agrícola e o número total de UTA (Unidades de Trabalho Ano), aumentou 168,8%, o que corresponde a um crescimento médio anual de +3,4%/ano. É de realçar que estes ganhos de produtividade resultaram predominantemente da redução do volume de mão-de-obra agrícola (-2,5%/ano), já que o volume da produção agrícola cresceu, apenas, +0,9%/ ano nas 3 décadas em causa.
Por seu lado, a produtividade parcial dos fatores intermédios, medida pela relação entre o volume da produção agrícola e o volume dos bens intermédios utilizados, decresceu, entre os triénios “1994” e “2024”, 37,2% (−1,5%/ano), o que foi consequência de um crescimento de 248,5% (+ 4,3 %/ano) dos consumos dos bens intermédios por hectare de superfície agrícola cultivada, muito superior ao aumento de 109,5% (+ 2,5%/ano) do volume da produção agrícola por hectare de superfície cultivada.
Em consequência destas evoluções tão diferentes verificadas para o volume da produção agrícola e o valor dos bens intermédios agrícolas, nos últimos 30 anos, o produto agrícola bruto em volume, medido pelo valor acrescentado bruto a preços no produtor constantes, decresceu entre “1994” e “2024” a uma taxa de crescimento média anual de -0,9%/ ano. Pode-se assim concluir que nas 3 últimas décadas, o setor agrícola português, apesar de apresentar ganhos de produtividade do trabalho muito significativos (+3,4%/ano), teve uma contribuição negativa (-0,9%/ano) para o crescimento da economia nacional, conclusão esta que quase sempre é ignorada nas análises sobre a evolução do setor agrícola português nos últimos 30 anos.
O artigo foi publicado originalmente em AGRO.GES.












































