O despovoamento, o envelhecimento e o abandono rural potenciam os efeitos dos grandes incêndios florestais, conclui um relatório do Eixo Atlântico hoje divulgado, que refere que Portugal “mostra as associações mais consistentes” desses fatores com a área ardida.
“O despovoamento e o envelhecimento devem ser interpretados como fatores estruturais que aumentam a vulnerabilidade territorial a incêndios de grande magnitude”, pode ler-se nas conclusões de um relatório de Análise da Relação entre o Despovoamento Rural e a Alteração dos Regimes de Incêndios no Sudoeste Europeu, elaborado pelo Eixo Atlântico do Noroeste Peninsular, uma organização de 41 municípios do Norte de Portugal e da Galiza.
O relatório, que analisa incêndios em Portugal, Espanha e França entre 2016 e 2026, aponta que “os resultados evidenciam a importância de incorporar a dimensão demográfica na análise da vulnerabilidade territorial face aos incêndios”.
“Embora os fatores demográficos exerçam uma influência significativa, os GIF [grandes incêndios florestais] continuam a ser fenómenos altamente complexos e multifatoriais, pelo que qualquer estratégia de prevenção deve integrar a gestão florestal, o ordenamento do território, a recuperação da paisagem agroflorestal e a adaptação climática”.
Na comparação entre os três países, relativamente aos GIF (considerados como aqueles que afetam mais de 500 hectares), “o principal foco localiza-se no Centro e no Norte de Portugal, onde numerosas LAU [‘local administrative units’, sigla inglesa para áreas administrativas locais correspondentes às freguesias em Portugal] atingem as maiores densidades registadas no mapa”.
Tanto nestas regiões de Portugal como nalgumas zonas do noroeste de Espanha, há várias LAU “com percentagens de área afetada superiores a 25%, atingindo, em alguns casos, valores superiores a 75% e mesmo a 100% da superfície da LAU acumulada durante o período analisado”, o que não implica necessariamente “que toda a superfície tenha ardido simultaneamente, mas sim que uma mesma área possa ter sido afetada por vários incêndios ao longo dos 10 anos considerados”.
“Grande parte das unidades administrativas afetadas por incêndios concentra-se em LAU que perderam população durante o período analisado”, incluindo no Norte e Centro de Portugal, com valores superiores a 10% ou 20%, assinala.
Numa comparação estatística feita entre os países, Portugal supera as áreas estudadas de França e Espanha na área ardida média por Grande Incêndio Florestal, ao atingir 24,87%, o que compara com 2,68% de França e 6,35% de Espanha.
“Além disso, em Portugal, o impacto da perda de população (-0,2666) é extremamente acentuado: o abandono das terras de cultivo e de pastoreio parece traduzir-se diretamente em hectares afetados”, aponta, sendo ainda calculado outro modelo que conclui que, “a longo prazo, o abandono do meio rural é extremamente prejudicial em Portugal: a perda de população aumenta a área ardida (-0,2666) e o envelhecimento fá-la disparar (+0,4557)”.
Nas conclusões, aponta-se também que “o envelhecimento está positivamente associado a uma maior vulnerabilidade em parte dos territórios analisados, especialmente em Espanha e Portugal”, sendo que o território luso “mostra as associações mais consistentes entre despovoamento, envelhecimento e superfície ardida” entre os três países.
“Em Portugal, os grandes incêndios concentraram-se especialmente em áreas com menor recorrência prévia do fogo em cada período analisado. Uma interpretação possível é a de que a recorrência do fogo reduza parcialmente a continuidade e a quantidade de combustível, embora esta hipótese requeira análises específicas adicionais”, admite o relatório.
Também em Portugal, mas adicionalmente em Espanha, “o despovoamento e o envelhecimento reforçaram a sua relação com os GIF”.












































