Vítor Poças: “Portugal está a fazer gestão ruinosa da floresta”

Vítor Poças: “Portugal está a fazer gestão ruinosa da floresta”

“Um país que não acautela um dos seus recursos mais importantes, como é a floresta, está a fazer gestão ruinosa”, acusa o presidente da Associação dos Industriais de Madeira e Mobiliário de Portugal. A escassez de matéria-prima em Portugal está a ditar o encerramento de serrações e a crescente importação de madeira.

Vítor Poças é presidente da Associação dos Industriais de Madeira e Mobiliário de Portugal (AIMMP) desde 2011. Já viu “queimar o Pinhal do Rei” e encerrar centenas de serrações. E não acredita, nem em “slogans”, nem na gestão da floresta “a partir da Praça do Comércio ou da Rua do Século”. Quer “ver plantar árvores e abrir caminhos e aceiros corta-fogo”, promover o “emparcelamento” e uma floresta “regionalizada”, em articulação com municípios e juntas freguesia. O mobiliário cresceu 1000 milhões de euros nas exportações nos últimos oito anos, mas o industrial avisa: “Se continuarmos a queimar a floresta, vai ser difícil continuar a fazer o milagre da multiplicação do produto florestal em móveis e produtos de madeira”.

A AIMMP define-se como a única associação empresarial no sector de âmbito nacional e com uma perspectiva de fileira. Quem representam, exactamente?

A associação foi criada [em 1957] para representar as serrações, que era o que existia. Entretanto, houve um despacho do Governo para [poder] representar todas as indústrias de base florestal, excepto a celulose, o papel e a cortiça. Hoje, está dividida – e muito bem – em cinco divisões sectoriais. A primeira, o corte, abate, serração e as embalagens de madeira (a primeira transformação); a segunda, os painéis, derivados de madeira e energia de biomassa (segunda transformação); a terceira, que representa as carpintarias e afins, e dentro das carpintarias há uma tipologia muito grande de indústrias, desde as fábricas de urnas às fábricas de portas, mobiliário de exterior, etc. Depois temos a divisão do mobiliário e afins. E temos ainda a divisão da exportação, importação e distribuição de madeiras e derivados. Tem sede no Porto e delegações em Leiria e Lisboa.

Estamos representados em termos internacionais nas principais confederações do sector, designadamente na Confederação Europeia da Indústria de Madeira, da qual sou vice-presidente já há muitos anos, e também na Confederação Europeia da Indústria de Mobiliário e na Federação Europeia de Fabricantes de Paletes e Embalagens de Madeira. E ainda estamos ligados à EPAL (European Pallet Association), proprietária da marca das famosas europaletes, que representamos em Portugal e cuja inspecção é feita, neste momento, pela Bureau Veritas.

Em Portugal, estamos na Confederação Empresarial de Portugal e na Confederação Portuguesa da Construção e do Imobiliário. E temos o Centro de Formação Profissional das Indústrias de Madeira e Mobiliário, em parceria com o Instituto de Emprego e Formação Profissional, e estamos no Centro Pinus e noutras associações.

Exportações cresceram 1000 milhões nos últimos oito anos

Quantas empresas agrega a AIMPP e quantos postos de trabalho asseguram?

No sector a nível nacional há mais de 6000 empresas, que representam cerca de 55 mil postos de trabalho directos. No ano 2019 atingimos 2,6 mil milhões de euros de exportações, num universo de mais de 3,7 mil milhões de volume de negócios. Na AIMMP temos 700 associados efectivos, pagantes.

Como estão as exportações este ano? Há seguramente um antes e um depois da pandemia.

Há, claro. Em Fevereiro estávamos a crescer na casa dos 3% e, em Agosto, estávamos a perder 20% relativamente ao ano anterior.

A tendência das exportações nos últimos anos era de crescimento?

Este sector cresceu mil milhões de euros nos últimos oito anos. Mil milhões de euros de exportações. É um case study em Portugal. Não conheço outro sector igual. E repare: cresceu mil milhões de euros sobre 1600 milhões.

Dentro das cinco divisões sectoriais da vossa actividade, em qual delas se sentiu mais esse crescimento nas exportações?

No mobiliário. Claramente. E dou-lhe todos esses indicadores, até para se fazer a transição para o tema da floresta e se perceber como é que, mesmo ardendo e queimando a floresta, o sector foi capaz de se reinventar e de aumentar mil milhões de euros as suas exportações. E também para explicar ao país que, se continuarmos a queimar a floresta, vai ser difícil continuar a fazer o milagre da multiplicação do produto florestal em móveis e produtos de madeira.

“Estamos a fazer gestão ruinosa”

A falta de matéria-prima – madeira – é um problema há vários anos, do qual todos os agentes do sector se queixam e que, com o problema dos incêndios, se tem agravado mais. Como lidam com este constrangimento?

A nossa associação é de fileira. Representamos o sector desde o corte, o abate [das árvores] na floresta, toda a primeira e segunda transformação [de madeira] até à comercialização e exportação dos nossos produtos. Nesta visão de fileira, como presidente da AIMMP, tenho de ter uma visão transversal. Sei que aquilo que fizermos à floresta de bem ou de mal tem repercussões em toda a cadeia de valor e em toda a indústria. Mas também tenho de fazer análises casuísticas e segmentadas daquilo que é o nosso sector.

[Somos] um país que não acautela um dos recursos mais importantes de que pode dispor – e nós sabemos que o nosso clima e o nosso solo são propícios a termos uma boa floresta. Estamos a fazer gestão ruinosa de um dos bens mais importantes para a economia portuguesa.

No cluster industrial de base florestal temos basicamente três grandes fileiras: a indústria da madeira e mobiliário, propriamente dita, que nós, AIMMP, representamos e que exporta 2,63 mil milhões de euros. Temos depois a indústria da cortiça, que representa exportações na casa dos 900 milhões e que deve estar perto de atingir os mil milhões. E temos depois a celulose e pasta de papel, que anda também na casa dos 2,66 mil milhões de exportações. Portanto, se somar estes valores, dá cerca de 6,2 mil milhões de euros de exportações. Isto deve representar cerca 10,5% das exportações portuguesas de bens.

Estamos a falar de um cluster florestal industrial muito, muito importante para o país. Já para não falar nas outras actividades ligadas ao turismo, aos desportos florestais, ao carbono, à biodiversidade, à protecção do ambiente e contra as alterações climáticas. E talvez seja essa a razão pela qual o actual Governo passou a área das florestas para o Ambiente, porque me parece que viram por ali um caminho para poder justificar a floresta junto da União Europeia, já que agora se fala em economia circular, sustentabilidade, combate às alterações climáticas, bioeconomia, etc. Quando começámos a perceber que a União Europeia está muito vocacionada para esses assuntos, é normal que haja dinheiro. E nós estamo-nos a pôr a jeito para receber dinheiro.

Está a dizer que o Governo terá visto na mudança de tutela política das florestas do Ministério da Agricultura para o do Ambiente uma janela de oportunidade para poder receber mais fundos europeus?

Foi um modus operandi. E até já lhe referi isso.

Sim, em declarações ao PÚBLICO em Junho foi muito crítico dessa decisão política.

Para mim, tanto me faz [a floresta] estar num lado como no outro. O importante é que seja bem gerida. Não é pelo facto de estar na Agricultura ou no Ambiente que pode ter melhor ou pior gestão. É como haver um bom presidente de uma empresa ou um mau presidente. Ou um bom primeiro-ministro e um mau primeiro-ministro. Não é pelo facto de ele estar em São Bento ou em Campanhã que é bom ou mau. A questão que se põe é se se tem ou não capacidade de gerir. Do ponto de vista da proximidade ao agricultor – em Portugal temos cerca de 350 mil proprietários florestais e a maior parte deles são agricultores e silvicultores –, faria todo o sentido que as florestas estivessem na Agricultura. Não me choca que estejam no Ambiente, se o Governo disser “nós por aqui vamos buscar mais dinheiro e dá-nos mais jeito”.

Mas a questão é se vamos buscar mais dinheiro ou a forma como esse dinheiro vai ser aplicado?

Eu diria que, quando se canaliza o dinheiro para a floresta, ele acaba por beneficiar a indústria também. Quando se diz que vamos fazer mosaicos florestais, o importante é se o recurso está disponível ou não. Se lhe chamam mosaico ou outra coisa, não interessa.

“O país não está a aproveitar o potencial da floresta”

Retomo uma frase sua: “Um país que não acautela um dos seus recursos mais importantes está a fazer gestão ruinosa.” Estamos a fazer gestão ruinosa e a desaproveitar o recurso que é a floresta?

Absolutamente. Vamos lá ver: nós, indústria, estamos a aproveitá-la.

Refiro-me ao país. O país está a desaproveitar a floresta?

Está. O país não está a aproveitar o potencial do recurso que é a floresta. A floresta é renovável. Se eu não plantar árvores, não vou ter árvores. Para fazer floresta é preciso plantar árvores e não queimar as existentes. E nós não estamos a fazer isso. Aliás, estamos a queimar árvores e não estamos a plantar. Não preciso de mais slogans e frases bonitas. O que quero é ir do Porto a Lisboa ou de Lisboa vir para o Porto e ver máquinas no terreno a plantar árvores, a cuidar da regeneração natural, a abrir estradas e caminhos florestais e aceiros corta-fogo, a criar zonas de vigilância e de protecção da floresta contra o crime. Estou farto de conversa.

E quando faz essas viagens pelo país não vê nada disso?

Não vejo. Não se plantam árvores. Vamos ser honestos, todos. Não vale a pena ter mais milhões. É que não só não plantam árvores como, ainda por cima, as que existem ardem. Já fomos capazes de queimar o Pinhal do Rei. Está tudo dito.

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