Vindima farta em Lisboa e no Alentejo não compensa perdas no resto do país

Vindima farta em Lisboa e no Alentejo não compensa perdas no resto do país

Douro e Dão com perdas de quase 30%. Dados do Instituto da Vinha e do Vinho mostram que só é esperado crescimento da produção em quatro das 12 regiões vitivinícolas no continente. Madeira é ainda uma incógnita e os Açores agravam a quebra prevista.

O Instituto da Vinha e do Vinho (IVV) estima uma queda de 3% na produção de vinho nacional neste ano, uma redução que coincide com as previsões avançadas em julho, ainda antes da vindima. Mas a análise das declarações de colheita e produção, cuja entrega terminou a 15 de novembro, veio mostrar que  mais regiões com menos vinho nesta vindima do que o que se esperava inicialmente e que, nas poucas em que cresce, o aumento é mais significativo do que o previsto.

Os dados são do IVV e baseiam-se na análise das declarações já submetidas, até 19 de novembro, e que mostra uma produção total de 6,271 milhões de hectolitros de vinho, ligeiramente abaixo dos 6,287 milhões previstos em julho.

Mas destaca o instituto que esta é ainda uma “primeira avaliação” e que estes dados ainda serão atualizados, “devido às declarações que estão a ser submetidas fora do prazo”.

Por outro lado, a Região Autónoma da Madeira “só terá os seus dados processados no decorrer do mês de dezembro”. Para já, mantém-se a previsão de julho de um aumento de 9% na Madeira para 42 mil hectolitros, três mil acima do ano passado. Em contrapartida, nos Açores, onde se esperava que a quebra neste ano fosse de 15%, para 11 mil hectolitros, será, na verdade, tudo indica, superior a 40%, com a produção a ficar-se pelos oito mil hectolitros.

Em Portugal continental, só quatro regiões demarcadas deverão registar crescimentos, em vez das sete inicialmente previstas. Afinal, os vinhos verdes devem, com base nos últimos dados, ficar-se por uma produção em linha com a do ano passado, da ordem dos 817 mil hectolitros, enquanto a península de Setúbal e o Algarve, onde eram esperados aumentos de 5% e de 15%, respetivamente, estão com quebras de 6% e de 10%. São esperados 471 mil hectolitros em Setúbal, menos 33 mil do que no ano passado, e 13 mil hectolitros no Algarve, menos mil do que na campanha anterior.

Mas é a norte que se dão as maiores perdas. A Região Demarcada do Douro, a maior produtora de vinho em Portugal, vai neste ano ter uma quebra de mais de 400 mil hectolitros, o que corresponde a uma quebra de 26% em relação ao ano passado, e acima dos 20% inicialmente estimados. Serão produzidos, pelos últimos dados, 1,261 milhões de hectolitros. A verdade é que a vindima curta foi, desde o início, vista na região como um mal menor, dado o contexto de pandemia, com os produtores a terem grandes dificuldades em escoar os seus vinhos ainda da colheita anterior. Em especial de vinho do Porto, que acumula quebras de mais de 14% até setembro. A produção autorizada de vinho do Porto na atual vindima foi estabelecida nas 102 mil pipas, menos seis mil do que em 2019. Mas das 102 mil, dez mil são produzidas em regime de reserva qualitativa, com recurso aos apoios do Estado criados especificamente para o setor do vinho, e que serão introduzidas, gradualmente, no mercado na próxima década.

Com produções muito menores, mas duramente atingidas, também foram regiões como Trás-os-Montes (-22% para 93 mil hectolitros), Terras do Dão (-27% para 188 mil hectolitros), Beira (-15% para 218 mil hectolitros) ou Cister (- 39% para 36 mil hectolitros de vinho).

Em contrapartida, Lisboa vai, mais uma vez, produzir mais do que o Alentejo, esperando-se um aumento de 24%, bem acima dos 5% inicialmente previstos, para 1,226 milhões de hectolitros. O Alentejo mais do que duplica o crescimento previsto no arranque do verão e está, agora, com uma produção de 1,130 milhões de hectolitros, mais 13% do que na vindima do ano passado.

Nesta semana, no fórum da ViniPortugal, foram conhecidos os dados das vendas de vinhos no mercado nacional, que acumulam uma quebra de 10,9% em volume e de 24,2% em valor. No total, nos primeiros nove meses do ano, foram vendidos menos 189 milhões de euros em vinho, fruto da falta de turistas e das limitações na restauração, setor que acumula quebras de quase 47%, quer em valor quer em volume. Nas exportações, os vinhos estão a portar-se bem, com um crescimento de 2,43% até setembro, que aponta para novo recorde na frente externa em 2020, mas que fica longe de compensar as perdas em território nacional.

Para atenuar os efeitos da pandemia, o setor contou com um pacote de medidas de crise no valor de 18 milhões de euros, dos quais 12 milhões para a destilação de vinhos e seis milhões para apoiar o armazenamento de crise. No total, foram aprovadas 382 candidaturas, no montante global de 11 milhões. No Fórum Anual da ViniPortugal, a ministra da Agricultura, Maria do Céu Antunes, anunciou que Portugal, em conjunto com os outros Estados membros, está a avaliar com a Comissão Europeia a possibilidade de prorrogar, para 2021, as medidas excecionais de apoio para as empresas afetadas pela covid-19.

Ilídia Pinto é jornalista do Dinheiro Vivo

O artigo foi publicado originalmente em DN.

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