Um ano depois do incêndio, a vida não voltou à Serra de Monchique

Um ano depois do incêndio, a vida não voltou à Serra de Monchique

Para José Gonçalves, presidente da junta de freguesia do Alferce, “isto é o mesmo que dizer que alguém que trabalhou a vida toda e colocou o dinheiro no banco, um dia vai lá e não tem nada porque alguém o levou. A nós aconteceu-nos a mesma coisa. Investimos tudo o que tínhamos num futuro rendimento. Veio um incêndio e levou-nos o dinheiro todo”.

“A única diferença é que em vez de depositarmos o dinheiro todo no banco, depositamo-lo na floresta e, de um dia para o outro, tudo desapareceu”, esclarece.

João e José garantem que a vontade de recuperar as produções perdidas é enorme, mas o atraso nos processos “prolonga o sofrimento” e reduz o ânimo.

No dia 22 de agosto de 2018, o ministro da Agricultura, Capoula Santos, anunciou um programa de apoio aos agricultores afectados pelo incêndio de Monchique, no valor de cinco milhões de euros. O financiamento deveria começar a chegar aos proprietários no início de novembro.

De acordo com Aurélio Cavaco, responsável pelo apoio a cerca de 150 candidaturas, num universo de quase 280, apenas dois produtores receberam o valor total acordado com o PDR. O excesso de burocracia é apontado como principal obstáculo, num processo que enfrentou, por duas vezes, um adiamento do prazo de apresentação de candidaturas.

Contrariando a convicção dos produtores, o autarca de Monchique adianta que a solução adotada este ano é “melhor” e “mais interessante”.

“Em relação aos apoios agrícolas, comparando com 2003, o que acontece foi que as pessoas foram ressarcidas de um prejuízo que disseram que tiveram e não houve uma garantia de que elas tivessem investido. O que aconteceu em 2003? Praticamente ninguém investiu esse dinheiro”, garante.

“Acho que estes processos são muito mais rigorosos e interessantes”, defende.

A dificuldade no acesso aos apoios agrícolas, acrescida de um atraso na recuperação das casas parcial ou totalmente destruídas pelo fogo, traduz-se num grande abandono de terrenos algarvios. Um fator que representa, igualmente, um obstáculo à prevenção e combate eficaz de incêndios.

Em 50 anos, entre 1960 e 2010, Monchique registou um decréscimo populacional na ordem dos 60%. Onde antes o número de pessoas em idade ativa era seis vezes superior ao número de idosos, agora o envelhecimento populacional faz-se notar a um ritmo preocupante. Por cada idoso, há um jovem em idade ativa, o segundo valor mais baixo na região do Algarve.

João Dimas contraria esta tendência e queixa-se da ausência de incentivos à fixação das gerações mais jovens. Hoje o cenário que encontra é convidativo à partida para Portimão, ou outra cidade que ofereça melhores opções no acesso à saúde e educação. “Onde tínhamos um pulmão, agora temos um deserto”, desabafa.

“A paixão pela apicultura”, as flores que nascem sobre chão queimado e as lembranças de uma vida fixadas num só lugar são a motivação de cada um destes sobreviventes. Resiliência é a palavra de ordem em todas estas histórias, mas como elas tantas outras terminaram de forma bem diferente, longe da verde paisagem de Monchique.

O artigo foi publicado originalmente em Rádio Renascença.

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