Tomate de Indústria biológico – uma oportunidade? – Catarina Martins

Tomate de Indústria biológico – uma oportunidade? – Catarina Martins

Em Portugal, o tomate para indústria representa, na campanha de 2017, mais de 19.000 ha de área de produção para um fornecimento contratualizado com a indústria de cerca de um milhão e setecentas mil toneladas. Esta cultura encontra em Portugal condições propícias que se manifestam num elevado potencial produtivo e qualitativo (brix e cor).

Nos últimos anos tem-se denotado, por parte da indústria de concentrado, um interesse crescente pela produção obtida pelo Modo de Produção Biológico (MPB) de modo a dar resposta à procura por parte dos seus clientes.

As particularidades da sua produção são conhecidas. No MPB, não se recorre à aplicação de pesticidas nem adubos químicos de síntese, nem ao uso de organismos geneticamente modificados. A nível europeu, o MPB é alvo de legislação específica, o Regulamento (CE) n.º 834/2007, do Conselho de 28 de Junho, relativo à produção biológica e à rotulagem dos produtos biológicos, cujo cumprimento é controlado e certificado por organismos acreditados para o efeito.

Uma das maiores dificuldades para a produção de tomate em modo biológico prende-se com a questão do histórico de ocupação dos terrenos. As parcelas autorizadas têm de cumprir uma das seguintes obrigatoriedades: sem ocupação cultural nos últimos 3 anos, não adição de substâncias não autorizadas em Agricultura biológica nos últimos anos ou ter um compromisso de conversão que durará 3 anos e posteriormente a este um período de manutenção de cerca de 2 anos.

O desconhecimento, por parte dos produtores, dos produtos existentes e a sua difícil aquisição constituem também um fator limitante ao desenvolvimento da agricultura biológica em Portugal. Os produtos comerciais disponíveis têm vindo a aumentar, embora nalgumas áreas sejam insuficientes ou de custo elevado, como é o caso dos adubos orgânicos e dos produtos fitossanitários homologados, dificultando um pouco a atividade no sector. Nos últimos anos tem se notado uma maior procura e um maior envolvimento por parte das empresas de adubos e produtos fitossanitários. Esta é uma resposta clara de que o mercado do biológico está a crescer.

O MPB está associado a uma produção mais baixa se comparado com a produção convencional. No caso do tomate para indústria isso também se verifica. Estima-se que a produção por hectare de tomate de indústria biológico possa representar entre 30 a 40% menos do que no convencional. Obviamente, essa atual estimativa de diferença na produção tem de se refletir no preço pago pela matéria-prima e no preço que o consumidor final irá pagar. Atualmente o preço pago pela indústria não está condicionado por teores de brix e cor.

O cenário de produções baixas e de maior risco, prende-se a meu ver com algum desconhecimento e falta de experiência; o que é normal por se tratar de uma forma diferente de produzir esta produção hortícola.

A procura crescente do tomate para indústria biológico é algo que não se pode negar nem deixar passar em claro, associada ao também crescente consumo e procura por parte do consumidor final, apesar de ainda haver muito por fazer e aprender para dominar a sua produção, como já acontece com o tomate de produção convencional.

Por tudo isto, considero que a produção de tomate de indústria em MPB é uma oportunidade que merece ser explorada. Se algum dia os produtos biológicos deixarem de ser mais caros e associados a um nicho de mercado, o cenário atual pode mudar. Mas nunca uma frase popularizada num anúncio televisivo fez tanto sentido: não negue à partida uma ciência que desconhece!

 

Catarina Martins

Departamento Técnico da Agromais

 

 

 

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