Symington. “Vamos transformar ruínas em casas de ‘charme’ no Douro

Symington. “Vamos transformar ruínas em casas de ‘charme’ no Douro

O enoturismo é a grande área de aposta da Symington, mas sem descurar o vinho do Porto. O CEO do grupo admite alargar a área de vinha comprando parcelas contíguas no Douro. Novas regiões só se fosse no Dão.

Com duas das suas mais emblemáticas marcas de vinho do Porto a comemorarem neste ano aniversários históricos – a Graham’s festeja o bicentenário e a Warre’s completa 350 anos -, a Symington Family Estates está a lançar as bases para a chegada da quinta geração à administração do grupo e para um novo ciclo de crescimento, com novos investimentos no enoturismo. Rupert Symington, o CEO da empresa, faz o balanço de 2019 e fala do futuro de um grupo que vende mais de 24 milhões de garrafas e fatura mais de 95 milhões de euros por ano. E que sonha, um dia, talvez alargar a atividade ao Dão.

Como correu o ano de 2019?
A sombra do brexit foi, talvez, o que mais nos preocupou ao longo do ano. Era para ser em fevereiro, depois em outubro, afinal passou para janeiro, mas só se torna efetivo no fim de 2020… É muita incerteza e o consumidor, sem confiança, não compra da mesma forma. Inglaterra é um mercado chave, representa mais de 20% da nossa faturação, e ‘doi’ quando não está a correr a 100%. Não comento as decisões políticas, só queria que tudo isto passasse e houvesse um acordo. Não podemos esquecer que Portugal e Inglaterra têm acordos comerciais há mais de 300 anos e é pena ver como uma questão política pode interferir numa relação comercial tão próxima.

Em termos de vendas, como terminou o ano?
Foi um ano extremamente positivo. As vendas de vinho do Porto cresceram 2,5% em valor, com o mercado britânico a subir 11%, depois de um ano de 2018 difícil. Claro que foi um ano muito influenciado pela declaração Vintage que, embora não represente muito em volume, representa em valor. E a nossa quota no mercado premium ronda os 33%, o que significa que uma em cada três garrafas de vinho de qualidade consumidos no mundo é nossa, o que é muito importante.

E nas restantes áreas de negócio?
Os vinhos DOC Douro cresceram 27% e valem já 7,6 milhões de euros, o valor mais elevado de sempre. Tal como o do enoturismo, que ultrapassou os 4,5 milhões de euros. Foi uma área em que fizemos uma aposta muito forte nos últimos cinco anos, fazendo benfeitorias nas nossas instalações na Graham’s e na Cockburn’s, e abrindo um centro de visitas no Douro, na Quinta do Bomfim. Estamos muito contentes. E o restaurante Vinum [uma parceria da Graham’s com o grupo basco Sagardi] já faturou acima dos três milhões. Estamos a ver os investimentos feitos a darem bons resultados.

São áreas com grande potencial?
Sem dúvida. Temos uma visão muito positiva do nosso core, o vinho do Porto, mas o DOC Douro e o enoturismo têm um potencial de crescimento muito rápido. O Porto não está só na moda, as pessoas gostam genuinamente de cá vir. Recebemos 115 mil pessoas nos nossos três centros de visitas, o que para nós é um número bastante excitante. Poderíamos ter recebido 30% mais, mas fechamos as portas aos grandes grupos. Queremos que a nossa experiência de visitas seja uma coisa mais pessoal, mais íntima. Preferimos que as pessoas paguem 20 euros só para entrar, mas recebam uma experiência que valorizam. Uma coisa bem feita por criar futuros clientes nos anos seguintes. Se um turista for bem recebido na Cockburns, no Bomfim ou na Graham’s torna-se embaixador da marca junto da família e dos amigos.

Vão continuar a investir no enoturismo?
Estamos na fase final de estudos de um restaurante na Quinta do Bomfim, no Douro, e não pomos de parte a possibilidade de fazermos um outro em Vila Nova de Gaia. Temos vários ativos à disposição. Não vamos, para já, abrir mais centros de visitas, mas estamos a explorar a possibilidade de avançarmos com um novo ramo de negócio que seriam os alugueres de curta duração. Temos cerca de 40 edifícios no Douro e a minha visão é transformar algumas destas ruínas em casas de charme para aluguer. Não será um hotel, acho que o negócio dos hotéis tem menos a ver connosco, queremos fazer investimentos complementares às nossas marcas. Ficar a dormir numa quinta nossa, e temos 26 no Douro, é diferente de ficar a dormir num hotel no Porto.

Quando abre o restaurante na Quinta do Bomfim? E o segundo em Gaia?
Espero que ainda este ano possamos arrancar com o projeto no Bomfim, mas ainda não temos o licenciamento terminado. Não vamos construir nada, gostamos de restaurar coisas antigas. Em Gaia, temos o local identificado, mas não há projeto ainda. Como lhe disse, o Vinum já fatura mais de três milhões e isso dá-nos a confiança de tentarmos um projeto novo, mais pequeno de certeza, mas com potencial para faturar 1,5 milhões ou seja o que for. Falando de coisas novas, não posso esquecer que arrancamos, no fim de 2019, com a nova adega na Quinta do Ataíde, no Vale da Vilariça. Foi um projeto que demorou, sofreu várias alterações conceptuais, e agora apontamos para estar pronta para a vindima de 2022.

Na viticultura, há novas aquisições em vista?
No Douro já temos muita vinha. Temos propriedades fantásticas, não estamos a explorar algumas em termos de marca, é pouco provável que venhamos a comprar mais quintas. Às vezes surgem oportunidades é de comprar vinhas vizinhas e foi o que fizemos, há cinco anos, na Quinta dos Malvedos, o que nos permitiu aumentá-la em cerca de 20% mantendo a mesma equipa de gestão e baixando o custo de exploração. Estamos disponíveis para alargar as propriedades que temos, comprar mais acho difícil. Não digo que não possa acontecer, mas não estamos ativamente à procura.
Compraram a Quinta Fonte Souto em Portalegre, há dois anos. têm outras regiões em vista?
Temos alguns critérios muito importantes. O projeto tem que ter condições para produzir vinho de qualidade e há poucos sítios no mundo onde podemos fazer vinhos de alta qualidade. O Douro é um, Portalegre é outros, e achamos que o Dão também tem essas condições, mas não temos nada previsto para aí. É um sonho.

E no Alentejo, vão crescer?
Em Portalegre temos 200 hectares de terreno, ainda, diria que 60 com condições para plantação. Até podíamos plantar mais, em patamares, mas há ali grandes áreas que são de conservação florestal. E também não é fácil, hoje em dia, plantar vinhas. Temos de nos candidatar às licenças, não é automático. Com as vinhas que temos agora, se calhar o máximo que podemos produzir em Fonte Souto são 20 mil caixas por ano (180 mil litros), não é por aí que vamos entrar em grandes mercados. Não estamos atrás de nenhuma propriedade neste momento, mas se algum vizinho nos vier bater à porta.

O Paul foi o rosto do grupo durante 40 anos. Como se processou este primeiro ano sem ele na gestão executiva?
O Paul faz muita falta em termos de estratégia, mas, em bom rigor, eu, o Johnny e o Paul gerimos a empresa como co-CEO durante muitos anos. Agora, em vez de ser a partilhar entre três é entre dois. Mas eu só tenho mais oito anos de carreira cá na empresa e temos que começar a preparar a saída. Oito anos passam num instante. E a verdade é que somos uma empresa familiar muito tradicional, estou cá há 27 anos e a equipa quase não mudou, as as mesmas pessoas a tomar as decisões. Este ano vamos mudar os órgãos sociais e é a oportunidade para introduzir sangue novo e para tentar estimular a próxima geração de gestores, e já temos seis a trabalhar connosco, a assumirem mais responsabilidades.

Qual é o maior desafio que o grupo tem pela frente?
Posicionar os vinhos de Portugal num patamar superior na perceção do consumidor internacional. Não há futuro para o Douro nem para a Symington em vender vinho a concorrer com a oferta mais competitiva.

Criaram um fundo de impacto para o Douro. Porquê?
Outro dos marcos de 2019 que, para nós, foi um grande orgulho foi sermos certificados pela B Corporation, que reconhece empresas que demonstrem ter práticas de sustentabilidade. E não é só a poupança de recursos, é, também, a atitude que temos para com os nossos fornecedores, pessoal e clientes. Procuramos sempre ser bons vizinhos e sentimo-nos responsáveis pelas nossas comunidades, em particular pelo Douro. O Douro, sem o vinho do Porto, seria um local bastante pobre e triste. Somos responsáveis, todos os anos, por comprar mais de 30 milhões de euros, só em uvas, fora outros serviços, e essa injeção de dinheiro no Douro é fundamental para a sobrevivência das comunidades na região. Temos adotado uma política de tentar escolher, todos os anos, uma causa para suportar e, recentemente, escolhemos o transporte de doentes. Acho que já vamos na décima ambulância que doamos. No final de 2019 decidimos criar o para centralizar todas as doações que fazemos, focando-nos três áreas principais, a saúde, a educação e o ambiente. É para nós um orgulho podermos devolver. A Graham’s comemora 200 anos e a Warre’s 350 e quisemos assinalá-lo com a criação deste fundo, de um milhão de euros. E todos os anos iremos afetar parte dos resultados ao fundo para que vá crescendo. É um pequeno gesto, mas é a forma que temos de agradecer à comunidade. Temos consciência que a família não teria o peso que tem no sector sem o apoio dos seus colaboradores, as pessoas das vinhas e das adegas. Não estamos a desprezar o Porto e Gaia, mas o Douro é muito mais carenciado e precisa de outro tipo de atenção.

Foi esse sentido de responsabilidade que levou a Symington a juntar-se à (IWCA)?
O Douro já é uma das áreas mais secas de vinha do mundo e como acho que, sem vinha, o Douro não é sustentável, entendo que temos uma grande responsabilidade em sermos ativos na procura de soluções. Não somos nós que vamos alterar a política de emissões de carbono dos EUA, mas podemos associar-nos a um grupo que está a estudar maneiras de continuar a produzir vinho em condições bem diferentes e bem mais secas no futuro. Essa é a nossa preocupação.

Perfil O Symington discreto e afável
Co-CEO da Symington Family Estates já há vários anos, função que partilhava com os primos Paul e Johnny, Rupert representa a quarta geração de Symingtons em Portugal. Ingressou na empresa em 1992 e integra a administração desde 2004. Com a saída de Paul, que se retirou aos 65 anos, como é hábito na família, Rupert ficou como CEO e Johnny como chairman. Afável e conversador, é um homem discreto, que prefere passar despercebido. É um fã incondicional do Douro e dos longos passeios pelos montes, o seu de eleição.

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O artigo foi publicado originalmente em Dinheiro Vivo.

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