Setor do azeite está a viver dias “muito difíceis” no Douro e Trás-os-Montes. “A questão do bagaço tornou isto num verdadeiro pesadelo”

Setor do azeite está a viver dias “muito difíceis” no Douro e Trás-os-Montes. “A questão do bagaço tornou isto num verdadeiro pesadelo”

Olivicultores e lagareiros do Douro e Trás-os-Montes queixam-se de uma “campanha difícil” devido à diminuição do preço do azeite e da azeitona e ao “inesperado custo” de transporte e tratamento do resíduo bagaço, aplicado pelas indústrias extratoras.

 

“O setor está a viver dias muito difíceis e a questão do bagaço tornou isto num verdadeiro pesadelo”, afirmou hoje à agência Lusa Francisco Vilela, da Cooperativa Agrícola dos Olivicultores de Murça (CAOM).

O empresário Ivo Borges, do lagar de azeite Agrifiba, instalado em Vila Real, realçou o “problema grave” e alertou para a necessidade de se encontrar “uma solução muito em breve para que o setor continue a trabalhar”.

A problemática é nacional. Especificamente, no Douro e Trás-os-Montes existem três indústrias extratoras (Mirandela e Pocinho) que, este ano, decidiram transmitir para os lagares os custos associados ao transporte e tratamento dos subprodutos resultantes do processo de extração de azeite, designadamente o bagaço de azeitona.

Mário Abreu Lima, vice-presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), referiu que a questão do tratamentos dos subprodutos da colheita de azeitona veio juntar-se à “baixa acentuada do preço do azeite no mercado nacional e internacional e, por inerência, da azeitona”.

Segundo acrescentou, os lagares da região produzem, “em média por ano, cerca de 80 mil toneladas de bagaço de azeitona”. “O que representa, no fundo, um custo de cerca de 1,6 milhões de euros que não era pago e passou a sê-lo”, frisou.

O custo é “muito maior” para os lagares que estão mais distantes das extratoras, porque, de acordo com o dirigente da CAP, o “transporte tem aqui um peso substancial”.

E esta é, na opinião de Abreu Lima, “uma situação essencialmente grave para os olivicultores, porque, naturalmente, os lagares fazem refletir os acréscimos de custo advenientes da cobrança pelos bagaços no agricultor”.

Os olivicultores queixam-se de um aumento do preço da transformação da azeitona, enquanto os empresários dizem que o que “menos queriam era imputar os custos” aos agricultores.

“A fabricação do azeite está cara. A extração do azeite este ano, nos lagares, aumentou bastante. Para quem vive disto é complicado”, afirmou à Lusa Fernando Vilela, agricultor de Vila Real.

Ivo Borges disse que, no seu lagar, o preço da transformação subiu de “oito para 10 cêntimos” e sublinhou que, para as unidades que estão longe das extratoras, é “complicado continuarem a trabalhar”.

“Era feita uma recolha dos bagaços, onde nos pagavam dois euros a tonelada de bagaço. Estamos a falar de mais ou menos 35 a 40 euros o camião. Mas, neste momento, cada camião custa-nos em média 450 a 500 euros”, exemplificou.

A Cooperativa dos Olivicultores de Murça possui um tanque de retenção de bagaço, que “adia o problema” e ajuda a “poupar no transporte”.

Mesmo assim, segundo Francisco Vilela, aquilo que representava uma “receita de 4.000 euros” vai transformar-se numa “despesa de quase 60.000 euros”, que serão assumidos pela cooperativa.

O vice-presidente da CAP disse ainda que, em “cima de tudo isto” está também a aplicação de uma “taxa ambiental de 25%” sobre os resíduos que “é completamente disparatada” porque o setor modernizou-se.

Francisco Pavão, presidente da Associação dos Produtores em Proteção Integrada de Trás-os-Montes e Alto Douro (APPITAD) afirmou que a “fileira está toda ela preocupada e está na busca de soluções”.

O empresário Ivo Borges defendeu, por exemplo, a instalação de uma nova extratora na região do Douro. Francisco Pavão falou em “soluções dispersas” pela região como a compostagem, biomassa, aterros sanitários e lembrou o projeto Biocombus, desenvolvido pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e que tem como objetivo aproveitar os subprodutos da colheita de azeitona, transformando-os em biomassa, que poderá ser utilizada como combustível sólido para caldeiras domésticas.

“Temos que procurar soluções para os problemas locais, soluções que evitem que haja camiões a transportar bagaço pela região”, salientou o dirigente da APPITAD.

Francisco Pavão realçou ainda que foi criada uma Associação de Lagares que já expôs o problema às comunidades intermunicipais do território: Douro, Terras de Trás-os-Montes e Alto Tâmega, bem como aos ministros do Ambiente e ao secretário de Estado da Agricultura.

Para a campanha 2019/2020 perspetiva-se uma “produção média” na região. Verificaram-se alguns problemas sanitários, provocados pela mosca da azeitona, a chuva já veio tarde e o vento, antes do início da apanha, deitou também muito fruto ao chão.

Murça quer concluir projeto que reaproveita resíduos dos lagares de azeite

A Cooperativa Agrícola dos Olivicultores de Murça quer “colocar definitivamente” em funcionamento o projeto Biocombus, um “processo inovador” de tratamento de resíduos dos lagares de azeite com pó de cortiça para produção de biomassa.

A problemática do bagaço de azeitona, resultante do processo de extração de azeite, entrou na ordem do dia nesta campanha, porque as indústrias extratoras decidiram transmitir para os lagares os custos associados ao transporte e tratamento deste resíduo.

“Nós temos uma solução que pode ser suficiente para nós e pode ser replicada no resto do país”, afirmou hoje à agência Lusa Francisco Vilela, presidente da direção da Cooperativa dos Olivicultores de Murça.

O responsável referiu-se ao projeto Biocombus, desenvolvido há vários anos por um investigador da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) em conjunto com a cooperativa de Murça.

“Achamos que esta pode ser uma solução para o mercado, em vez de só a extração do bagaço”, frisou.

O Biocombus, desenvolvido pelo investigador João Claro, propõe-se resolver dois problemas em simultâneo, os resíduos e efluentes resultantes dos setores oleícola e da cortiça, juntando-os e transformando-os em biomassa, que poderá ser utilizada como combustível sólido para caldeiras domésticas.

Francisco Vilela explicou que o projeto já funcionou, só que se verificou um problema a nível do secador utilizado para o bagaço húmido, pois “não era eficiente em termos energéticos”.

“Está testado e é eficiente em termos de poder calorífico (…) Temos tido algumas dificuldades em as empresas metalúrgicas olharem para isto. A última delas aderiu ao projeto e depois resolveu ir para o Chile e deixou o secador a meio”, lamentou.

O projeto está patenteado e já possui máquinas à escala industrial, faltando “apenas o secador eficiente”.

Agora, a Cooperativa quer concluir esta iniciativa e, segundo o responsável, houve uma abertura por parte do Ministério do Ambiente para acesso, a partir de março, ao Fundo Ambiental.

Francisco Vilela referiu que, com o aumento da produção de azeite, aumenta consequentemente a produção de bagaço, deixando também as indústrias extratoras com dificuldades em dar resposta.

Lembrou ainda que os lagares foram obrigados a modernizar-se para responder às exigências ambientais, enquanto, na sua opinião, essas extratoras “pararam no tempo”.

Este ano, com a decisão tomada por essas empresas, aquilo que era uma receita passou a ser uma despesa para os lagares privados e cooperativas, o que veio agravar as dificuldades já sentidas pelo setor devido à quebra do preço do azeite e, consequentemente, da azeitona.

A Cooperativa dos Olivicultores de Murça possui um tanque de retenção de bagaço, que “adia o problema” e ajuda a “poupar no transporte”.

Mesmo assim, segundo o dirigente, aquilo que representava uma “receita de 4.000 euros” vai transformar-se numa “despesa de quase 60.000 euros”, que serão assumidos pela cooperativa.

Para tentar resolver o problema, foi criada uma Associação de Lagares que junta cooperativas e privados. A Cooperativa de Murça integra a comissão instaladora.

(Notícia atualizada às 14:30)

O artigo foi publicado originalmente em SAPO 24.

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