Serra da Lousã sem mãos a medir na venda de lenha para aquecimento

Serra da Lousã sem mãos a medir na venda de lenha para aquecimento

Diversas entidades que comercializam lenha na Serra da Lousã, de onde emigraram carvoeiros que fizeram fortuna no Brasil, não têm mãos a medir para responder ao acréscimo de encomendas deste inverno.

O frio das últimas semanas veio agravar a situação, com vários lenhadores a admitirem que falta mercadoria para satisfazer de imediato os pedidos.

“Não tenho capacidade de resposta. Tem havido muita procura e nem sempre conseguimos fazer as entregas”, afirma à agência Lusa João Santos, da Lousã.

Habitualmente, “a semana antes do Natal é sempre boa”, mas depois “já ninguém pensa em lenha” até ao Ano Novo, segundo o empresário.

Desta vez, a seguir ao Natal, “ainda se vendeu mais do que na semana anterior”, contraindo o que acontecia no passado.

Este aumento da procura de lenha pode ser explicado com o regresso do frio de outrora, em dezembro e janeiro, e o facto de as pessoas terem passado mais tempo em casa nestas festas, devido às restrições associadas ao combate à pandemia da covid-19.

Os dois fins de semana prolongados, no Natal e no Ano Novo – sexta-feira, sábado e domingo – e a tolerância de ponto no dia 24, concedida aos trabalhadores da Função Pública, obrigaram as pessoas a ficar mais em família.

“Nunca tive um inverno como este, com uma procura tão concentrada no tempo”, conta João da Lenha, como é também conhecido da vila da Lousã, distrito de Coimbra.

Neste inverno, também o conselho diretivo dos Baldios de Vila Nova, no concelho de Miranda do Corvo, tem registado “imensa procura de lenha”, sobretudo para consumir nas lareiras das habitações.

“Estamos com pedidos acima da média e não temos capacidade para responder a todos”, confirma à Lusa uma técnica daquela organização.

Dulce Pedro refere que “há muita gente em teletrabalho e que acaba por consumir muito mais”, realçando que o aumento da procura de lenha é uma consequência do frio nas serranias do interior.

À sede dos Baldios de Vila Nova, têm acorrido clientes para repetir encomendas.

“Há famílias que já consumiram 20 metros cúbicos de lenha nestes meses”, segundo Dulce Pedro.

Os compradores habituais são sobretudo de Miranda do Corvo e Penela, além de alguns da Lousã, que recebem a encomenda sem acrescidos custos de deslocação.

“Neste momento, até temos pessoas de Coimbra a pedir lenha, não se importando de pagar o transporte”, segundo a responsável.

Na Lousã, os Baldios de Vilarinho vendem a maior da lenha disponível a intermediários.

“Vendemos mais por grosso a madeireiros que vêm cá carregar os excedentes da floresta”, explica Luís Trota, do conselho diretivo.

Em declarações à Lusa, o dirigente adianta que “dá muita despesa fazer lenha”, o que justifica aquela solução, sem prejuízo de os compartes a poderem comprar a preços mais acessíveis.

Aquela entidade regista “a mesma procura de lenha de anos anterior”, tendo em conta que as pessoas, especialmente os idosos, tendem a mudar os sistemas de aquecimento.

Optam por “soluções mais limpas”, por exemplo à base de péletes, cujos sacos de granulado “são mais fáceis de transportar”.

Muitos dos carvoeiros que saíram da Serra da Lousã, na primeira metade do século XX, conseguiram uma vida melhor no Brasil.

Na cidade portuária de Santos, alguns enriqueceram no setor e ascenderam a um estatuto que nunca teriam na terra natal, onde deixaram árvores plantadas por sua mão.

Muitos desses exemplares, incluindo oliveiras centenárias, asseguram hoje o aquecimento de famílias confinadas.

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