Sejamos agro-curiosos – José Pena

Sejamos agro-curiosos – José Pena

Fico mesmo contente quando os meus vizinhos me fazem as mais variadas perguntas sobre agricultura e enviam mensagens com dúvidas que lhes apareceram pertinentes quando decidem “pôr mãos à obra”. Decididamente nós precisamos destes curiosos que passam do computador ou jornal para a prática, decidem plantar couves ou batatas, “metem uns regos de cebolo” lá em casa porque não querem aquilo a “velho” ou porque leram que “faz bem à saúde o contacto com a terra”.

Estou ainda a recordar-me que estes agro-curiosos não estão a ser agro-criminosos, “recorrendo à horta de um amigo” ou vizinho, e estão a quebrar a quarentena para ir á sua horta urbana que tem cedida pelo executivo local ou da sua área de residência para mondar ou regar o que lá tem.

Os agro-curiosos são influenciados por publicações e notícias em tempos difíceis ou, crises, quer financeiras quer de saúde pública, como a estamos a viver.

Mas ganharam um novo fôlego com as redes sociais, onde surgiram páginas criadas ou alimentadas por pessoas ligadas à produção agrícola, à produção animal ou a assistência agrícola e promoveram as suas atividades, mostrando aquilo que é o trabalho diário.

Grande parte do conteúdo destas, é inspirado em páginas homólogas de outros países que adaptadas e traduzidas encaixam perfeitamente por cá, não fosse a agricultura, um tema ou setor global. Se não fosse a carolice e a luta destas páginas a poluição mundial continuava a ser causada pelos agricultores através da produção animal, o consumo de leite faria mal ou os produtos frescos da agricultura seriam impróprios para consumo porque os agricultores não cumprem as regras. Na verdade, essa mentira continua a ser publicada e dita, mas os agricultores, são pessoas honestas e diretas, aprenderam a defenderem-se bem em público, sendo até em alguns casos bem representados.

Existe um filtro muito grande entre o que a nossa comunicação social mostra e o que deveria passar. Aquela eterna questão de passar o alarmismo e esconder a sensatez, enquanto a imprensa publica o que vende e deixa nos rascunhos o que importa. Quer isto dizer que a comunicação social tem andando a reboque do que as redes socias estão a comunicar. A desinformação que isto causa elevou o ativismo e radicalismo e outros ismos, a um patamar elevado, alimentado por pessoas que se deixam levar pelo que se partilha e não pelo que é verdade.

Pessoalmente, o conhecimento e o contacto com outras pessoas do setor nunca me turvaram a visão, mas acredito que esse seja um exercício difícil, para quem esteja fora do tema ou do setor, sobretudo para os preguiçosos que não procuram fontes ou autores, no fundo a verdade.

Não podia deixar ainda, de referenciar, no atual contexto que enfrentamos a agro-curiosidade de querer ser saudável e ecologicamente correto. Começo pelo caminho mais fácil: planos nutricionais curtos e redução de alimentos e deterioramento de outros. Decididamente não sou a pessoa ideal para falar de alimentação, mas como futuro técnico, posso dizer-vos que o vosso consumo de produtos exóticos e/ou fora de época deixam uma enorme pegada ambiental.

Quando vão às superfícies comerciais ao invés da mercearia da rua, os preços e as promoções vão ser ótimas, porque no início da cadeia o agricultor recebeu um preço asfixiado pelo que produziu para essa mesma cadeia de retalho otimizar o lucro da logística e seu lucro, que será depois contabilizado na sua sucursal com sede num país diferente de Portugal com uma carga fiscal mais reduzida que a nacional.

Façam esse juízo de valor antes de ir às compras (devidamente protegidos) ou de açambarcarem os produtos de primeira necessidade, “olhar para o que se diz, não para o que se faz.”

Finalizo este artigo com uma frase transcrita do Comunicado da CAP, A agricultura sustenta o mais elevado dos valores: o da vida humana. Sem agricultura não há alimentos, sem alimentos não há vida.” – Curta e objetiva, direciono-a aos agro-curiosos: elevem a vossa curiosidade à ciência e explicação científica que se esconde nas buscas que fazem, sobretudo de temas agrícolas. Se a vossa curiosidade for tão coerente quanto perspicaz verão que não falamos sem causa nem discutimos sem razão, promovam a agricultura e levem uma vida saudável e feliz.

José Pena
Estudante-Finalista de Agronomia na Escola Superior Agrária de Ponte de Lima. Coordenador do Programa de Intercâmbio da IAAS Ponte de Lima.

Comente este artigo
Anterior Compal lança campanha de agradecimento ao sector agrícola nacional
Próximo Gonçalo Santos Andrade - P. Fresh - Dados exportações FLF 2020 - 1.º trimestre

Artigos relacionados

Dossiers

Curso da Agrobio sobre fertilidade e fertilização do solo em agricultura biológica

“Fertilidade e fertilização do solo em agricultura biológica” é o tema de um curso promovido, nos dias 3 e 10 de Agosto, […]

Últimas

Vem aí a Melting Gastronomy Summit para “simplificar os nossos apetites”

[Fonte: Público]

Evento realiza-se no Edifício da Alfândega do Porto, em Novembro, e reúne mais de 30 oradores à volta da “mesa”. […]

Últimas

Há um combate sem fim à vista no Sorraia

No passado Verão, os holofotes viraram-se para o rio Sorraia e para a luta contra o jacinto-de-água. Desligadas as atenções, continua o combate […]