Secretário da Agricultura dos Açores pede “reflexão com profundidade” sobre alterações climáticas

Secretário da Agricultura dos Açores pede “reflexão com profundidade” sobre alterações climáticas

O secretário da Agricultura e Florestas dos Açores defendeu “uma reflexão com toda a profundidade e cuidado” sobre as alterações climáticas, referindo que “está na moda arranjar culpados” e que “a agropecuária infelizmente é um alvo fácil”.

“Sim é verdade, a agricultura e a pecuária contribuem para as alterações climáticas. Mas serão as únicas? Serão as que mais contribuem? Está na moda ‘ir na onda’, apontar o dedo, arranjar culpados e a agropecuária infelizmente é um alvo fácil. Muitos dos que apontam o dedo são os mesmos que apreciam uma boa refeição acompanhada de um bom vinho, um bom queijo e uma boa carne”, escreve João Ponte num artigo de opinião publicado hoje na imprensa regional.

Na terça-feira, o reitor da Universidade de Coimbra, Amílcar Falcão, anunciou que a academia vai eliminar o consumo de carne de vaca nas cantinas universitárias a partir de janeiro de 2020, por razões ambientais.

A carne de vaca será substituída “por outros nutrientes que irão ser estudados”, sendo esta “uma forma de diminuir aquela que é a fonte de maior produção de dióxido de carbono que existe ao nível da produção de carne animal”.

No artigo, o titular da pasta da Agricultura nos Açores refere que a decisão do reitor da “mais antiga universidade portuguesa deixou perplexos muitos cidadãos, uns porque dependem desta atividade económica para sustentar as suas famílias, outros porque encaram esta decisão unilateral como um ataque à liberdade individual, às suas ideologias, às suas crenças e aos seus costumes”.

“Independentemente do ceticismo relativamente aos verdadeiros propósitos desta posição, aparentemente com alguma demonstração de desconhecimento relativamente ao verdadeiro contributo da agropecuária para as alterações climáticas, o que é certo é que estas declarações são mais um alerta para a necessidade de se efetuar uma reflexão com toda a profundidade e cuidado sobre esta temática”, escreve o governante açoriano.

João Ponte sustenta que, “por mais que incomode”, a decisão do reitor da Universidade de Coimbra é “uma verdadeira chamada de atenção para se agir” em cada setor e atividade, no dia-a-dia. para “melhorar a saúde do planeta”.

“Será mesmo a agropecuária a desgraça da nossa e das futuras gerações? Valerá também a pena falar do contributo dos transportes, do setor energético, do comércio, do turismo ou da indústria?”, pergunta João Ponte.

No caso dos Açores, destaca a forma de produzir “ambientalmente mais sustentável”, o que permite “uma produção de leite e de carne diferenciada e mais saudável”, levando ainda a que “a pegada ambiental para produzir um litro de leite ou um quilo de carne nos Açores seja muito inferior a outras regiões ou outros países”.

João Ponte lembra que os Açores produzem 35% de todo o leite do país, num arquipélago em que “um terço do território é floresta e as pastagens ocupam mais de 90% da superfície agrícola útil da Região”.

Destacando os investimentos e os programas lançados nos Açores tendo por base as preocupações ambientais, o secretário regional da Agricultura disse que o arquipélago “está empenhado na adoção de políticas regionais de combate às alterações climáticas”.

João Ponte afirma ainda que “as universidades, em particular a de Coimbra, que muito têm contribuído para o desenvolvimento do país, poderão ajudar de forma decisiva com o seu conhecimento e auxiliar os pequenos e grandes agricultores na transição para uma agricultura ambientalmente mais ecológica”.

Na quinta-feira, o presidente da Federação Agrícola dos Açores, Jorge Rita, considerou, em declarações aos jornalistas, ser “totalmente absurdo” a anunciada eliminação do consumo de carne de vaca nas cantinas universitárias de Coimbra, sustentando que os agricultores são os primeiros defensores do ambiente e pedindo que o combate às alterações climáticas não seja feito de “forma radical”.

O artigo foi publicado originalmente em Açoriano Oriental.

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