Regadio no Mira com taxa de utilização de 60%

Regadio no Mira com taxa de utilização de 60%

[Fonte: Jornal Sudoeste] Meio século após a construção da barragem de Santa Clara, estão a ser utilizados 60% dos cerca de 12 mil hectares abrangidos pelo Aproveitamento Hidroagrícola do Mira (AHM). Os números são avançados ao “SW” pelo director-executivo da Associação de Beneficiários do Mira (ABM), entidade com sede em Odemira e responsável pela gestão dos perímetros de rega do Mira e Corte Brique.

De acordo com Manuel Amaro Figueira, o AHM está a regar perto de 7.100 hectares, “envolvendo uns 1.500 beneficiários” e abrangendo “explorações de todo o tipo, inclusive explorações onde não se passa nada”. “Temos cerca de 30% do perímetro com áreas inferiores a 10 hectares, que são muito pouco apetecíveis para qualquer produção. Por outro lado, temos intenções de investimento para áreas confinantes com o perímetro mas que inicialmente não foram classificadas como perímetro de rega onde não é possível desenvolver actividade económico”, observa.

Para este responsável, a construção da barragem de Santa Clara “foi um marco importante na vida do concelho e, naturalmente, na vida dos beneficiários do Mira”. “Porque passaram a ter capacidade para fazer outro tipo de culturas com rentabilidades bem mais interessantes que aquelas que tinham antes da barragem”, justifica.

Ainda assim, Manuel Amaro Figueira reconhece que o incremento do regadio na zona da charneca de Odemira “foi um processo demasiado lento”. “Nos primeiros 20 anos não aconteceu praticamente nada e a obra teve uma utilização abaixo dos 30%. Depois, a grande alteração na capacidade de haver empresas a utilizar a água ocorre a partir dos anos 90” do século passado, lembra o director-executivo da ABM, sustentando que “a mudança do paradigma do sequeiro para o regadio não se faz só com água”.

“Faz-se com mentalidade, com adaptação às questões do regadio, com dinheiro. A charneca do Mira, em termos de sequeiro, era uma área muito pobre. Portanto, os proprietários eram gente descapitalizada e sem capacidade para converter uma exploração de sequeiro em regadio com toda complexidade que isso acarreta em termos de mentalidade e em termos de capacidade de investimento. De tal forma que isto demorou 20 anos”, sintetiza.
Agora que estão cumpridos 50 anos desde a inauguração da barragem de Santa Clara, o director-executivo da ABM reconhece que “há claramente margem de crescimento” no Aproveitamento Hidroagrícola do Mira. Mas, garante, também existem bastantes “limitações”.

“Hoje em dia a dificuldade são os instrumentos de ordenamento do território, que criam dificuldades à utilização da água”, diz, sublinhando que “o maior problema diz respeito às áreas que não estão classificadas como perímetro de rega mas que são perfeitamente irrigáveis se os planos de ordenamento previrem essa possibilidade”.

“Têm vindo a ser criados instrumentos de ordenamento do território que fazem com que a produção agro-alimentar e o uso da água disponível para agricultura na barragem de Santa Clara tenha sido relegado para segundo plano, uma vez que as condicionantes são muito fortes do ponto de vista de não-utilização de áreas que não tenham sido incluídas dentro da área beneficiada”, reforça.

Na prática, continua Manuel Amaro Figueira, “há capacidade para crescer, assim haja vontade política para que a água seja utilizada para regar a produção de alimentos”. E é precisamente neste enquadramento que o director-executivo da ABM afirma que tem de haver, de uma vez por todas, uma escolha entre ter produção agrícola ou conservação da natureza.

“Tem de haver opções! Ou se faz uma coisa ou se faz outra. Porque o que determina o que se faz na actividade agrícola como em qualquer actividade económica é o mercado. E o mercado não se compadece com este tipo de questões. Não vale a pena andar a querer sustentar que é defensável uma compatibilização entre produção intensiva de alimentos e conservação da natureza, porque não é compatível”, conclui.

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