Recursos florestais: novas tendências de inovação e valorização

Recursos florestais: novas tendências de inovação e valorização

As preocupações globais com a sustentabilidade têm limitado o uso de produtos de origem fóssil e renovado o interesse pelos produtos de base florestal. Encontrar novas aplicações e processos para os recursos florestais, assim como novas possibilidades de aproveitamento de sobrantes – desperdícios e resíduos “verdes” – são caminhos para aumentar o valor acrescentado da floresta e prolongar o sequestro de carbono. Em Portugal, há sinais encorajadores, sobretudo na bioindústria.

Os recursos florestais são fundamentais para apoiar a produção numa economia de baixo carbono. Em alternativa ao padrão atual – baseado em produtos de origem fóssil – a floresta emerge como uma fonte viável de produtos renováveis, biodegradáveis e reutilizáveis – com menor pegada ecológica. A biomassa florestal pode substituir quase todos os produtos derivados dos recursos fósseis e o seu potencial de utilização abrange diferentes sectores, da embalagem à construção civil, passando pelas indústrias química, têxtil, cosmética, alimentar e farmacêutica.

A maior limitação para uma mais ampla aplicação da biomassa é a sua disponibilidade. É importante, por isso, utilizar de modo eficaz os recursos florestais, através de uma nova cadeia de valor que começa com a gestão adequada da floresta e prossegue com a recolha dos sobrantes que dela resultam, a sua transformação através de processos mais eficientes e a sua aplicação na criação de biocompósitos e bioprodutos inovadores, com valor acrescentado. Esta transformação dos sobrantes de biomassa em materiais que vão além dos produtos florestais tradicionais está a ser potenciada pela investigação e aplicação de novas tecnologias.

Além do valor intrínseco destes novos materiais e produtos, a sua utilização ajuda a reduzir as emissões de carbono e a diminuir a acumulação excessiva de resíduos de biomassa que contribui para o risco de incêndio. Permite também criar rendimentos adicionais nos sectores agrícola e florestal, gerando novas fontes de retorno para quem a eles se dedica.

Este potencial dos recursos florestais enquanto matéria-prima nobre acompanha um conjunto de oportunidades que se reforçam em virtude das crescentes restrições políticas e legais ao uso de produtos de origem fóssil, como por exemplo as que limitam os plásticos de uso único.

Há muitas oportunidades para aproveitar os recursos florestais. A casca e outras partes habitualmente não utilizadas das árvores contêm compostos ativos com diversas utilizações na indústria química, cosmética, alimentar e farmacêutica, refere o Instituto Europeu da Floresta. Estes compostos, que incluem alcaloides, carotenoides, flavonoides, fenóis, resinas, esteróis, taninos, terpenos e ceras com diversas propriedades (antioxidantes, inseticidas, antimicrobianas ou antifúngicas) representam entre 1% e 10% da biomassa lenho-celulósica.

Exemplos de inovação no aproveitamento de recursos florestais

A biomassa lenho-celulósica é já uma alternativa aos têxteis de base fóssil, devido à qualidade das fibras e a sua pegada ecológica é até inferior à do algodão. Os têxteis com base na celulose representam cerca de 7% de todas as fibras e, segundo o Instituto Europeu da Floresta, a sua procura tende a aumentar.

Da mesma forma, os plásticos de base biológica têm reconhecido potencial na produção de embalagens flexíveis e rígidas – que representaram mais de metade do mercado mundial de bioplásticos em 2019 –, e nos sectores alimentar, agrícola, dos revestimentos, têxteis, construção, automóvel e transportes, entre outros.

Nos sectores alimentar e agrícola, a procura de alternativas biodegradáveis para as embalagens tem apoiado a procura por bioplásticos biodegradáveis, parte dos quais produzidos a partir dos açúcares existentes na biomassa florestal e nos sobrantes agrícolas, e que começam a dar resposta às diretivas que obrigam à substituição de vários plásticos de origem fóssil.

Da floresta aos biomateriais com valor acrescentado

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Em Portugal, já foram dados os primeiros passos no aproveitamento de recursos florestais, resíduos e subprodutos e na sua transformação em bioprodutos com elevado potencial. Dezenas de empresas nacionais – de start ups e indústrias já instaladas – dedicam-se a criar produtos, processos e negócios de perfil inovador, sustentável, competitivo e exportador.

A área farmacêutica e a biotecnologia industrial são as duas com maior impacte no nosso país, refere a P-BIO – Associação Portuguesa de Empresas de Bioindústria, que agrega a maioria das empresas ligadas à biotecnologia e que identifica as indústrias têxtil, pasta e papel, alimentar, plásticos, químicos e biocombustíveis como algumas daquelas onde a inovação biotecnológica é mais representativa.

Entre os associados da P-BIO encontram-se empresas como a Biotrend, que desenvolve, otimiza e amplia bioprocessos, trabalhando com matérias-primas, e a Silicolife, que explora novas vias de produção de compostos de interesse industrial recorrendo a tecnologia informática.

A estas juntam-se dezenas de outras (não associadas), como a Spawnfoam, que produz vasos biodegradáveis, biomateriais e placas para isolamento térmico e acústico a partir de fungos e resíduos orgânicos agroflorestais ou a Plasblock, que fabrica blocos para paletes de madeira, 100% recicláveis, com subprodutos residuais.

A indústria têxtil em Portugal tem sido pioneira na produção de fibras sustentáveis, desde matérias-primas recicladas, aproveitamento de desperdícios, fibras vegetais e misturas de materiais. Há exemplos de tecidos a partir de novos materiais biodegradáveis como a cortiça ou o caule das rosas, da reciclagem de resíduos das próprias fábricas e de plásticos recolhidos no mar, sublinha a Sinopse Têxtil Vestuário, da Direção-Geral das Atividades Económicas.

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A bioindústria é também dinamizada por várias empresas da fileira florestal tradicional, como a Amorim Cork Composites ou a The Navigator Company, com aplicações da cortiça e seus resíduos em compósitos que servem, por exemplo, a indústria espacial, e com as unidades produtivas de pasta e papel a evoluir para biorrefinarias que usam biomassa, sobrantes e subprodutos para criar energia, biocombustíveis, colas, químicos e até óleos essenciais.

Em paralelo à iniciativa empresarial, o Plano Nacional de Promoção de Biorrefinarias (PNPB) pretende utilizar recursos nacionais para criar bioprodutos e biomateriais inovadores de valor acrescentado, além do fornecimento de biocombustíveis, eletricidade e calor.

A transição para uma economia mais sustentável e coerente com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas para 2030 está enquadrada pela Comissão Europeia na sua estratégia para a bioeconomia. Uma das medidas foi a criação de um Centro de Conhecimento para a Bioeconomia que disponibiliza informação relevante, de forma concisa, melhorando o conhecimento base para a tomada de decisões políticas.

O artigo foi publicado originalmente em Florestas.pt.

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