Os malefícios do tribalismo moderno

Os malefícios do tribalismo moderno

O afastamento entre o mundo urbano e o rural é uma realidade cada vez mais prevalente em Portugal, o que parece um contra censo numa altura em que as principais preocupações declaradas pelos consumidores são de origem ambiental1. Mais contraintuitivo é ainda porque aqui chegamos na época da história em que o Ser Humano tem acesso a mais informação e conhecimento.

Este problema é particularmente grave, não porque desvaloriza o elo mais fraco – o meio rural – apesar de ser verdade que o desvaloriza. É particularmente grave porque representa um atraso civilizacional acentuado, um regresso ao tribalismo e uma divisão na nossa sociedade que não pode nunca produzir nada de bom.

Daqui resulta a ideia cada vez mais comum na cidade, de que o campo é responsável pelos principais males dos nossos tempos: pelas alterações climáticas, pela produção de alimentos prejudiciais à saúde, pela ruína da biodiversidade e pela absorção do dinheiro comunitário sem que isso apresente resultados palpáveis. O agricultor passou a representar um malfeitor que se preocupa apenas com o lucro do curto prazo e despreza totalmente a importância do meio ambiente em que habita. Ora esta perceção não podia estar mais longe da realidade.

Por outro lado, no meio rural, o discurso é cada vez mais hostil contra os “urbano-depressivos” que, com iniciativas cada vez mais visíveis na política e na comunicação social, pretendem acabar com as tradições e proibir os costumes do quotidiano de quem vive no campo. Também esta visão está deslocada da realidade.

É tão claro que os habitantes rurais não são uns malfeitores que detestam o meio ambiente, como que os cidadãos urbanos não têm como principal ambição acabar com a forma de vida dos primeiros. No entanto, esta crença de que assim é, de parte a parte, é tão disseminada que toma uma importância que não lhe é devida e provoca a tal divisão na sociedade, a meu ver gravíssima.

Pois bem, cabe a todos os cidadãos responsáveis combater esta tendência. Isto significa estar preparado para contra-argumentar tanto com um lado como com o outro, fazendo ver a ambos os grupos que, em geral, as pessoas são relativamente tolerantes em Portugal, e que isso tem mais valor que lhe parecemos dar. Significa saber que, por exemplo:

  • Os Portugueses, em geral, parecem não detestar assim tanto as tradições rurais. Num estudo recente da Eurosondagem2, apenas 11% dos inquiridos afirmaram ser contra as touradas, sendo que 22.7% responderam que não gostam de touradas, mas respeitam a liberdade de escolha de cada um. Talvez a ideia de que a população urbana quer acabar com as tradições rurais seja desajustada!
  • Não, os produtos que saem dos campos agrícolas não são, em geral prejudiciais à saúde. Segundo a última publicação da EFSA3, de maio de 2019, em Portugal, em 2017, apenas 3.9% dos produtos alimentares amostrados apresentaram níveis de resíduos de agroquímicos acima dos valores permitidos. A nível europeu, este valor era de 1.6%. O que é claramente prejudicial à saúde são os alimentos processados, pelos quais os agricultores habitualmente não têm qualquer responsabilidade a não ser por fornecerem parte da matéria-prima. Afinal, talvez os agricultores não estejam a envenenar a população a troco de maior lucro na sua atividade!
  • Sim, é verdade que a agricultura tem emissões de gases com efeito de estufa significativas (cerca de 10% do total nacional, líquidas e após considerar várias circunstâncias em que há sequestro de carbono nas atividades agrícolas). Mas é importante entender que a agricultura é também a principal responsável pela manutenção das nossas florestas. A grande maioria das áreas florestais portuguesas oferecem baixos rendimentos e de natureza muito sazonal. Que não restem dúvidas que a floresta como a conhecemos apenas é possível pela sua integração com a agricultura. E que não restem dúvidas também que em Portugal só temos um sumidouro líquido de carbono a contrabalançar todas as restantes atividades – A Floresta. A Floresta que seria muito mais propensa a incêndios sem o pastoreio do seu sob coberto e sem a atenção dos agricultores que, por lá estarem e por serem a isso incentivados pelo tal orçamento comunitário, exploram a floresta de forma sustentável e a mantêm.

Muitos outros exemplos desta complexa realidade existem, mas o meu objectivo aqui não era o de listar exaustivamente todos os mitos que, de parte a parte, devem ser neutralizados. O meu objectivo era o de sensibilizar o cidadão comum, rural ou urbano, de que esta divisão social, para além de infundada, é muito nefasta e deve ser combatida.

Ainda há dias lia uma publicação nas redes sociais em que se explicava como a água do Alqueva está a ser poluída pela agricultura intensiva instalada no perímetro de rega que alimenta. Se isto não fosse grave até tinha piada!! Tinha piada pelo absurdo que representa e que só pode ser defendido por que não conhece nem entende a realidade: à exceção de muito poucas captações diretas da albufeira, a barragem do Alqueva não rega nenhuma área que lhe fique a montante (um simples mapa pode mostrar isto com facilidade) logo, nenhuma escorrência das áreas de rega é acumulada na albufeira; além disso, a maioria do perímetro é ocupada por culturas permanentes, regadas com rega gota-a-gota com eficiências altíssimas (mais de 95%) e com os tratamentos feitos com pulverizadores especializados que apenas molham a planta e são preparados para não desperdiçar. Torna-se claro que publicações deste género apenas pretendem semear a divisão e o tribalismo que nada serve uma das sociedades mais pacificas e tolerantes do mundo ocidental.

O agricultor que produz azeitona em sistemas modernos, chamados intensivos, beneficia com a produtividade e rentabilidade do seu negócio. Mas o consumidor urbano, que compra azeite da melhor qualidade e a preços cada vez mais baixos, apenas possíveis com a tal produção intensiva, também beneficia. No fundo, todos beneficiam de um sistema muito eficiente em qualidade e preço. Como este exemplo do olival, poderia citar vários exemplos ao longo da fileira alimentar.


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Miguel Vieira Lopes
[email protected]


1 45% dos Portugueses afirma estar disposto a pagar mais por produtos e serviços prestados por empresas comprometidas em ter um impacto social e ambiental positivo (Deloitte, 2017).
2 O estudo de opinião foi efetuado pela Eurosondagem para a ProToiro, de 14 a 19 de Dezembro de 2019.
3 EFSA = European Food Safety Authority.

O artigo foi publicado originalmente em AGRO.GES.

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