O valor da terra – Manuela Raposo Magalhães e Selma B. Pena

O valor da terra – Manuela Raposo Magalhães e Selma B. Pena

A expressão terra é frequentemente utilizada por todos os que vieram do campo para a cidade, ou para a emigração e também pelos seus descendentes. A terra também pode estar associada ao solo, este último muito mais do que simples poeira, e de uma riqueza incalculável. De facto, o valor da “terra – solo” e da “terra – espaço rural” depende muito daquilo que com ela se faz, ou seja, da sua utilização.

Nos anos 30 do século XX, passámos pela campanha do trigo que destruiu o fundo de fertilidade do solo. Mais tarde passámos pelas campanhas de monocultura de pinheiro-bravo e de eucalipto que continuam a degradação do solo e a destruição da Paisagem, e que continuamos a ver acontecer sobretudo a norte do Tejo, mas também no Algarve e, mais pontualmente, noutros sítios. As políticas desligadas da capacidade ecológica da “terra” para suportar aquelas monoculturas, conduziram à situação atual de megaincêndios, com perda de vidas e bens, do abandono da terra e da necessidade de criação de um aparelho descomunal de combate ao fogo que é pago por todos nós e cujo valor poderia melhor ser utilizado em desenvolvimento.

Os carvalhos e os castanheiros foram substituídos, primeiro pelo pinheiro-bravo e depois pelo eucalipto. Com as políticas sucessivas que levaram a isso, substituiu-se uma paisagem equilibrada – agricultura nos melhores solos, mata mista em complementaridade com a agricultura e todos os seus subprodutos, pastorícia em articulação com a mata e a agricultura, aldeias, vilas e cidades localizadas estrategicamente em situações de maior conforto e na proximidade dos alimentos e materiais produzidos – por uma paisagem ecologicamente desertificada, humanamente despovoada e que arde extensiva e repetidamente. Muitos dizem que se vivia mal na paisagem tradicional (a maioria das pessoas) e é verdade. E agora, vive-se bem, ou simplesmente não se vive?

É de facto urgente refletir sobre o futuro da paisagem rural de Portugal e desmistificar algumas ideias, como a de que só se pode criar valor e riqueza com o pinheiro e o eucalipto.

O afastamento das pessoas relativamente ao Mundo Rural fê-las perder a consciência de que as cidades dependem da agricultura para se sustentar e da conservação de recursos naturais incontornáveis para se viver, como o solo, a água, o ar e a biodiversidade (em qualidade e quantidade).

Do equilíbrio da Paisagem quanto ao cumprimento destas funções, atualmente chamadas serviços de ecossistemas, depende a nossa saúde e sobrevivência. A noção de que as árvores, dependendo da espécie, particularmente as folhosas de folha larga, autóctones, concorrem para uma maior disponibilidade de água (subterrânea e de superfície) também se perdeu. Estas funcionam como agentes de infiltração da água no subsolo e simultaneamente como grandes bombas de aspiração dessa água para a atmosfera, através da evapotranspiração, amenizando (termoregulando) o clima, limpando o ar de poeiras e até captando para o solo a chamada precipitação oculta, ou seja, o

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