O que sabemos sobre micróbios do solo? Pouco, muito pouco…

O que sabemos sobre micróbios do solo? Pouco, muito pouco…

Vamos falar de micróbios. Os mal-amados microrganismos estão no centro da discussão sobre solo e agricultura de conservação e parecem ser o aliado perfeito para beneficiar produções agrícolas

A VIDA RURAL acompanhou o Fórum ‘Benefícios associados aos usos de micorrizas e tricodermas’, organizado pela Atens/Crimolara e deixa-lhe o essencial sobre este tema.

Nada fáceis de estudar, e com uma conotação negativa associada, os micróbios estão associados a transformações de alguns dos produtos alimentares que mais gostamos, como o pão, o vinho ou queijo. Mas sabemos o suficiente sobre eles para poder tomar decisões fundamentadas numa exploração agrícola? Vamos por partes.

Isabel Brito, professora da Universidade de Évora, estuda micorrizas há 25 anos. Especialista em micorrizas arbusculares em contexto de agricultura de conservação, esta investigadora tentou desmistificar a ideia menos positiva a que associamos os micróbios: “No fundo transformam a matéria orgânica em inorgânica para que possa ser absorvida pelas plantas. Mas só nos lembramos deles quando impactam negativamente as nossas vidas e isso é injusto”, refere. 

O que sabemos sobre micróbios do solo? Pouco, muito pouco…

Uma colher de chá de solo tem mil milhões de micróbios. Mas a população microbiana vai diminuindo com a distância das raízes e é nos 15 cm superficiais onde tudo se passa a nível de atividade, dada a maior disponibilidade de oxigénio. É nestes 15 cm que se encontram os polícias bons e os polícias maus, por isso, “o limite entre o bom e o mau é muito ténue e jogar com este equilíbrio é perigoso, mas o que é uma desvantagem pode ser transformado numa vantagem”. O ponto é conhecer, estudar, testar. 

O poder das micorrizas

A investigação de Isabel Brito conclui que as micorrizas possibilitam um aumento do rendimento nas culturas, para além da aquisição de nutrientes facilitada, de bioproteção contra agentes bióticos e abióticos e de maior estabilidade da estrutura do solo. Mas estas são as micorrizas autóctone, naturalmente presentes nos solos.

Já quanto às micorrizas inoculadas “não se conseguem obter grandes benefícios agronómicos, essencialmente porque são caras, tem um tempo longo para atingir um certo nível de colonização e não são compatíveis com altos níveis de adubação, caso do fósforo”, explica. 

A estratégia da Universidade de Évora foi estudar a produção de inóculos nativos, com colonização mais rápida. Tudo isto integrado numa estratégia mais vasta que incluiu a instalação de uma cultura de interesse, as chamadas developers ou cover crops, que desenvolvem a rede de micélio extra-radicular antes da cultura principal ser instalada. Estas culturas de cobertura são posteriormente cortadas mecanicamente “ou usado um herbicida que permite à rede de micélio permanecer intacta”, revela.

A investigadora partilhou o caso de uma experiência feita com tomate, com ajuste de práticas culturais, onde foi feita uma cultura de cobertura, neste caso cevada, que foi eliminada com um herbicida sistémico. Os resultados foram animadores: “As diferenças de produção rondaram as 20 toneladas/hectare e a taxa de mortalidade de planta foi baixa, mesmo com a aplicação liberal de nutrientes”.

Também no milho foram identificados benefícios agronómicos, sempre utilizando uma cover crop antes da sementeira, trazendo maior diversidade funcional para o campo.

A questão da eliminação da cultura de cobertura com herbicidas levantou dúvidas na plateia sobre o efeito nefasto deste agroquímico nas micorrizas. Isabel Brito esclareceu que o herbicida, neste caso o glifosato, pode atacar os micróbios mas também pode servir de substrato de crescimento para o solo: “Tem é de haver uma utilização regrada e conscienciosa do glifosato”, frisou. 

E na viticultura?

Amaia Nogale, investigadora no Instituto Superior de Agronomia, partilhou a sua experiência na utilização de micorrizas arbusculares em viticultura sustentável. A coordenadora do Projeto Mycovitis, no âmbito do programa LEAF (Linking Landscape, Environment, Agriculture and Food) frisou que as vinhas formam naturalmente micorrizas arbusculares normalmente e são dependentes delas, pois beneficiam de fungos micorrízicos. “Com as alterações do funcionamento biológico do solo houve consequências graves. Dai o estudo da reintrodução de micorrizas, que consideramos interessante. Mas devemos selecionar bem a espécie que vamos introduzir, tem de estar bem adaptada e ser a certa para a cultura”, indica. Esta técnica foi usada na plantação de vinhas novas onde se registaram resultados interessantes na eficiência do uso da água e na resistência a stress hídricos fortes. 

“As culturas de cobertura são uma forma natural de fazer isto numa vinha já estabelecida, como a sementeira de centeio de inverno por exemplo”, conclui Amaia Nogales.

Plantas mais resistentes

Gorka Erice, diretor técnico da Atens, uma das maiores empresas mundiais na produção de micorrizas e tricodermas inoculadas, falou dos benefícios nutricionais da utilização destas técnicas em agricultura, de que resultam essencialmente maior absorção de fósforo, melhoria do estado hídrico e térmico, proteção contra stress oxidativo, abiótico e contra patogénicos como fungos e nemátodos. No fundo, “a planta resiste mais, porque está mais forte”, explica Gorka. 

Partindo para a realidade nacional, Cristina Xavier, técnica da Crimolara, apresentou o portofolio de soluções da empresa nesta área e revelou alguns resultados em testes com culturas hortícolas, como a abóbora, mas também na vinha (onde se verificaram bons resultados em situações de crises de transplante e doenças do lenho) e na floresta “em especial em solos mais pobres e difíceis, onde conseguimos provocar a antecipação do corte e a produção de mais metros cúbicos de madeira. “Também tivemos bons resultados no castanheiro e no montado de sobro, onde estas soluções podem ajudar a ultrapassar problemas com fungos”. 

Tempo ainda para ouvir José Azoia, multiplicador de sementes na região de Santarém, um produtor à procura de uma solução para os problemas com fusarium em grão de bico: “Solucionei a questão com microrrizas, consigo bons resultados, mesmo sem adubação, e nunca mais tive problemas. Não é barato, são mais 25€/há, mas fazendo as contas o custo/benefício compensa. Eliminei o fusário e o azoto que as microrrizas deixam no solo é muito grande e traz vantagens agronómicas”, conclui. 

O artigo foi publicado originalmente em Vida Rural.

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