O engenheiro que brincava com o fogo

O engenheiro que brincava com o fogo

Na altura em que se comemoram 50 anos da primeira lei de protecção da natureza evocamos o gestor florestal que defendeu o Gerês, foi pioneiro do fogo controlado e nunca abdicou dos princípios do serviço público.

 

José Moreira da Silva (1923/2007) não podia ter chegado à direção do Parque Nacional da Peneda-Gerês em pior altura. O seu antecessor, José Lagrifa Mendes, acossado pela contestação local e deixado cair pelo poder central, acabara por se suicidar em 1975. Tinha uma missão impossível: dar continuidade à lógica de protecção da natureza consagrada na lei 9/70, da qual resultara a criação do Parque em 1971, restabelecer a autoridade e dialogar com os residentes.

Foram cinco anos decisivos, exercendo sempre funções como “encarregado de direcção”. Chegara com fama de direita mas foi afastado em 1980, após a vitória da coligação conservadora Aliança Democrática (PPD/CDS/PPM).

Residindo no Porto mas trabalhando no Gerês percorreu milhares de quilómetros, umas vezes com motorista, outros ao volante e conduzindo sempre tão depressa que a Guarda Republicana lhe passou a chamar “o engenheiro Ascari” … [Alberto Ascari, bicampeão do mundo de Fórmula Um, morto em 1955]

Tempos de cólera

Estava nos Serviços Florestais desde 1950 e conhecia a lenda negra destes. Com a queda da ditadura seguiu-se no Gerês um processo caótico onde se misturavam desejo de liberdade, rejeição das condicionantes inerentes à atividade em área protegida e pressões de grupos de interesses.

“Em 1975 houve reuniões muito tensas. Em Adrão (Castro Laboreiro), as coisas podiam ter acabado muito mal para o meu pai”, conta Isabel Moreira da Silva, também engenheira florestal. Uma das razões pelas quais o Gerês estava em brasa prendia-se com prepotências da Guarda Florestal para com os habitantes e os trabalhadores eventuais.

Símbolo ainda vivo da imposição de um modelo exógeno de desenvolvimento, a submersão da aldeia de Vilarinho das Furnas pela albufeira homónima em 1971. Outro conflito envolvia o Grupo dos Amigos do Parque, constituído em parte por pessoas afetas ao antigo regime com diversos privilégios, incluindo um campismo em plena reserva biogenética. Entretanto, o executivo de então da Câmara de Terras do Bouro tentava impor uma nova estrada para a Portela do Homem através da preciosa Mata da Albergaria.

Águias de Espanha

Os conflitos foram-se diluindo e Moreira da Silva lançou-se num processo de dinamização do parque, praticando um serviço público profissional, sem prepotências nem favores. Francisco Rego, docente do Instituto de Agronomia que o conheceu bem, conta que um dia mandou chamar um guarda florestal que era acusado de ter abatido uma águia de Bonelli.

– Ó sr. engenheiro, eu era lá capaz de fazer mal a uma águia do Parque…

– Então?

– É que aquela não era das nossas, é das que vêm de Espanha…

Tentou que o parque fosse visto com respeito por quem lá entrava, os residentes se sentissem honrados por o ser e os cientistas ali afluíssem para estudar a riqueza natural. Organizou um curso para operadores de escavadoras para aprenderem a reconhecer vestígios arqueológicos. Em 1978, pediu ajuda a Oliveira Fernandes da Faculdade de Engenharia do Porto para instalar energias renováveis numa Casa da Guarda. “Queria ter casos exemplares para mostrar aos residentes que pertencer ao parque não significava apenas restrições”, conta Isabel Moreira da Silva.

Domesticar o fogo

Tendo descoberto os trabalhos do californiano Edwin Komarek levou-o ao Gerês, onde confrontou o americano com o que achava serem os efeitos perversos das queimadas feitas pelos residentes.

– Aqui os pastores queimam demais…

– O que é que o faz pensar que seja demais?

– Pois, de facto, nunca tinha olhado para isso assim…

Nascia a ideia do fogo controlado como técnica de ordenamento e prevenção, juntando o saber empírico dos Florestais a investigadores da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, como Francisco Rego. Esta visão presidiria, mais tarde, ao projecto de reflorestação do Marão (ardido em 1985). Já reformado, ajudaria a fundar, em 1992, a Forestis, associação nacional dos produtores florestais.

O artigo foi publicado originalmente em Expresso.

Comente este artigo
Anterior Cotações – Suínos – Informação Semanal – 20 a 26 Abril 2020
Próximo Superior: se a prática faz a excelência, o que fará a falta dela? - Amadeu Soares

Artigos relacionados

Últimas

Reativação do incêndio em Castelo Branco foi dominada às 17h45

A reativação do incêndio que deflagrou na quarta-feira à tarde perto de Sobral do Campo, concelho de Castelo Branco, foi dada como dominada hoje às 17h43, […]

Eventos

CANCELADO – Fórum da Vinha e do Vinho – 18 e 19 de abril – Ilha do Pico

O Secretário Regional da Agricultura e Florestas anunciou que o Governo dos Açores vai realizar no próximo ano, na ilha do Pico, o primeiro fórum […]

Últimas

Mais 19 mil animais de carne nos Açores nos últimos 12 anos

Revelou o diretor regional da Agricultura, que destacou a importância crescente do setor da carne nos Açores numa ‘masterclass’ na Terceira

O diretor regional da Agricultura, […]