O “ecossistema” da Califórnia

O “ecossistema” da Califórnia

[Fonte: Público] Nos últimos 20 anos, o valor da produção agrícola da Califórnia praticamente duplicou. E parece relevante assinalar que os produtores reconhecem que isso só foi possível pela enorme cooperação que existe entre todos e que permite criar um “ecossistema” que defende e promove a produção californiana nos Estados Unidos e no Mundo.

Estive recentemente na Califórnia, integrado numa missão de agricultores da região de Alqueva promovida pela Magos Irrigation Systems em parceria com a Consulai e com o apoio da EDIA, e tive oportunidade de conhecer um pouco da realidade agrícola daquele estado norte-americano.

A agricultura californiana impressiona pela sua escala e pelo seu dinamismo. No total, a agricultura na Califórnia ocupa uma área de 10,2 milhões de hectares (ou seja, uma área agrícola superior à área total de Portugal Continental) e representa um produto agrícola superior a 45 mil milhões de euros (cerca de 6,5 vezes o valor da produção agrícola nacional). Na Califórnia existem 77.000 explorações agrícolas, sendo a área média por exploração de cerca de 130 hectares. As principais atividades agrícolas da Califórnia são a produção leiteira, as uvas, as amêndoas, os pequenos frutos, as nozes, os pistáchios, o tomate indústria, o gado bovino para carne, os citrinos e os hortícolas.

Só tive oportunidade de conhecer aquilo que se designa como “Vale Central”, composto pelo Vale de Sacramento e pelo Vale de São Joaquim, que representa cerca de 50% da área agrícola da Califórnia (cerca de metade da área total de Portugal), e que apresenta um declive médio inferior à Lezíria do Tejo.

Estes vales têm de facto excelentes condições edafoclimáticas para a produção agrícola. Nem tudo é perfeito, sobretudo aos olhos de um europeu; a tipologia de produção, com dotações de rega bastante acima daquelas que praticamos (por exemplo, na amêndoa regam uma média de 12.000 m3 por ha, quando em Portugal se regam alguns pomares com 4500 m3) e com baixas preocupações de eficiência no uso dos fatores, parece pouco sustentável e incompatível com as restrições regulamentares em vigor na Europa. É um problema que enfrentam, sobretudo marcado pelo prolongado período de falta de água que viveram nos últimos quatro anos, mas que também se percebe que têm uma enorme margem de progressão e que o farão de forma rápida.

De qualquer forma, nos últimos 20 anos o valor da produção agrícola da Califórnia praticamente duplicou. E parece relevante assinalar que os produtores reconhecem que isso só foi possível pela enorme cooperação que existe entre todos e que permite criar um “ecossistema” que defende e promove a produção californiana nos Estados Unidos e no Mundo. De variados exemplos, destaco quatro pontos que me parecem bastante diferenciadores da nossa realidade e que fazem bastante diferença.

O primeiro é a uniformidade na utilização da tecnologia. Percorrer o vale central da Califórnia é ver milhares de hectares que parecem todos iguais; é usado o mesmo compasso, as mesmas variedades, o mesmo sistema de rega, etc… Nas conversas com os produtores percebe-se que não se sentem motivados para “inventar”, preferindo apostar na adoção de um modelo produtivo rentável e com resultados comprovados.

Um segundo aspeto é a existência de fortes estruturas de agregação da produção, quer sejam operadores privados, quer sejam organizações de produtores, que conseguem ter escala na comercialização dos seus produtos e inovar nos produtos que oferecem. Por exemplo, a Blue Diamond é uma cooperativa com mais de 3000 produtores de amêndoa, que comercializa mais de 165.000 toneladas de amêndoa e com um volume de faturação superior a 1000 milhões de euros. Em conversa com um dos diretores foi possível perceber o enorme foco na criação de diferenciação no mercado e no empenho colocado no acompanhamento dos produtores, garantindo que se sentem envolvidos e valorizados na venda da sua amêndoa.

Outro exemplo do tal “ecossistema” é a existência do Almond Board of California, que é uma organização (do tipo interprofissional) que agrega 6800 produtores e 100 processadores de amêndoa, apoiando a promoção e os mercados de exportação da amêndoa californiana e investindo em investigação e desenvolvimento. É uma estrutura que gere um orçamento anual de cerca de 90 milhões de euros, totalmente financiado pelos produtores de amêndoa. Repito: totalmente financiado pelos produtores!

Por último, queria destacar o modelo de extensão agrícola que têm no terreno em colaboração com a Universidade da Califórnia (UC Davis). Tivemos oportunidade de visitar um centro de experimentação onde se desenvolvem mais de 130 ensaios em resposta a problemas concretos dos agricultores. Os serviços da Universidade estão divididos em diferentes categorias, tendo um conjunto de mais de 200 advisors no terreno, em grande proximidade com os produtores, que têm o apoio de especialistas e de professores universitários. Um sistema capilar que permite identificar os problemas concretos e que contribui para que haja confiança por parte dos produtores na universidade.

Parece simples. Mas nós não temos conseguido fazer este percurso, mesmo quando existem incentivos disponíveis. Não conseguimos estabilizar modelos produtivos, não conseguimos na organização da produção, pelo menos de forma sistemática e com escala suficiente para afirmar Portugal nos mercados internacionais, nem conseguimos na ligação às entidades do sistema científico e tecnológico, que continua a depender integralmente de fundos públicos e tem por isso uma ligação à produção que fica aquém do desejável.

Apesar disto, muito tem sido feito nos últimos anos e acredito que podemos mudar ainda mais e aproveitar as excelentes oportunidades que se vão colocar ao nosso país e ao setor agrícola nos próximos anos

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

Pedro Santos

Engenheiro Agrónomo; director-geral da Consulai (www.consulai.com)

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