“O azeite continuará a ter preços no consumidor cada vez mais baixos”

“O azeite continuará a ter preços no consumidor cada vez mais baixos”

Herdade de Maria da Guarda, no Alentejo, deverá ter uma colheita de azeitona superior à do ano passado, ao contrário do que se passa no resto do país. Por ironia, a evolução positiva ficou a dever-se a um “erro”

A apanha de azeitona já se iniciou e o Instituto Nacional de Estatística até revelou que deverá sofrer uma redução de 30% face ao ano anterior, cumprindo a tradição de a um ano de safra seguir-se um de contrassafra. Mas há sempre exceções. João Cortez de Lobão, proprietário da Herdade de Maria da Guarda, no Alentejo, explica o que aconteceu aos seus 1,3 milhões de oliveiras.

Que motivos contribuíram para que a Herdade esteja a prever um aumento de produção na colheita de azeitona?
A Herdade de Maria da Guarda foi no ano passado bastante penalizada por tentar inovar na poda no ano anterior, o que acabou por se revelar uma má opção. Por vezes cometemos erros. Uma poda mal feita há dois anos resultou numa forte quebra de produção no ano passado. Felizmente, neste ano a produção voltou a aumentar e assim estamos em contraciclo com o resto do setor, que no ano passado teve produções recorde e neste está mais fraco.

O acréscimo de produção esperado é desejável no atual contexto de incerteza dos mercados?
Mais produção é sempre bom para a Herdade de Maria da Guarda, porque produzimos só azeite de qualidade superior. Toda a produção da Herdade está vendida à partida, fruto dos excelentes acordos que temos com os nossos parceiros de negócios. O que significa que quanto mais produzimos, mais vendemos. O mercado de embaladores com quem trabalhamos em exclusivo é muito grande e continua a crescer.

Os preços do azeite têm vindo a cair nos mercados internacionais. Receia esse impacto?
O preço do azeite está mais baixo mas aquilo que é importante é conseguir, com novas técnicas, produzir azeite a um preço cada vez mais competitivo. Há 50 anos, teríamos de ter um batalhão de 300 a 500 pessoas para apanhar o que a Herdade de Maria da Guarda produz hoje. Atualmente fazemos toda a apanha com pouco mais de 30 pessoas incluindo pessoal do lagar. As novas técnicas permitem fazer o azeite como se faz há 8 mil anos mas com um custo muito mais baixo, o que permite chegar a preço acessível aos quatro cantos do mundo.

E qual foi o efeito da pandemia na empresa?
Connosco só aconteceram alterações dos procedimentos de segurança pandémica. Não há lay-offs e o azeite continua a chegar à prateleira dos supermercados. Não será por nossa causa que os grandes embaladores internacionais poderão ter ruturas de fornecimento.

Quantas pessoas emprega a Herdade de Maria da Guarda hoje?
Temos 37 pessoas do quadro. Poderíamos ter menos mas achamos que a empresa tem uma função social, sobretudo quando se trata de casais em que o marido ou a mulher ficou em situação de fragilidade por trabalhar no comércio ou na restauração – devido aos ditames da DGS as pessoas deixaram de ser motoras do negócio local. A estrutura de recursos humanos não teve, portanto qualquer redução para fazer face à situação de crise pandémica mundial.

E na campanha que agora se inicia, teve dificuldade em contratar mão-de-obra?
Nenhuma. A Herdade de Maria da Guarda tem sempre mais pessoas do que aquelas de que precisa, o que lhe dá uma certa folga nas alturas de maior aperto. Além disso, enquanto houver desemprego em Serpa temos sempre de contratar locais. É o que fazemos e continuaremos a fazer. Estamos aqui há quase 300 anos e queremos que as próximas gerações da família sintam essa mesma responsabilidade para com a região.

É o tal lado social?
Sim, a este propósito posso adiantar que a Herdade de Maria da Guarda paga, por exemplo, 800 euros líquidos como prémio a cada colaborador no mês em que tem um filho. Acresce ainda um valor suplementar de cerca de 40 euros mensais por filho menor em compras no supermercado de Serpa.

Nas vendas notou-se o impacto da pandemia?
Nenhum impacto.

Que previsão faz do mercado para os próximos tempos?
Penso que o azeite continuará a ter preços no consumidor cada vez mais baixos e que a produção será cada vez maior para podermos fazer chegar o azeite a todos os mercados a um preço acessível. Os EUA, por exemplo, ainda só consomem cerca de um quilo per capita e têm capacidade – e até diria obrigação, dadas as preocupações com a alimentação saudável – de consumir mais 30% a 40% nos próximos cinco anos.

As exportações então também não foram afetadas?
Nada foi afetado. Apenas tivemos de nos ajustar com maior segurança nos procedimentos de higienização e mais limitações na quantidade de colaboradores que podem manobrar o produto para os clientes internacionais.

O olival da Herdade beneficia do regadio do Alqueva e, por isso, pode ser intensivo. Como reage a quem critica este regime pelo sobre-uso de recursos, como a água ou mesmo os pesticidas?
Aquilo que é importante quando se está produzir o azeite é fazer a análise para confirmar que não houve erros nalgum tratamento e assim verificar que não há vestígios de químicos ou de pesticidas no azeite. No nosso caso não tem e nunca teve, porque também somos muito parcos na utilização de produtos químicos. É bom que se diga que o termo intensivo se refere ao facto de ser uma cultura com mais plantas por hectare e não à ideia distorcida de que se utiliza muitos produtos químicos por hectare no cultivo da oliveira. Em alguns países, apesar de resultar de olivais modernos intensivos, o azeite é classificado como azeite orgânico ou biológico por não se encontrarem quaisquer vestígios químicos – ao contrário do que alguns comentadores pouco conhecedores do setor afirmam.

Na Herdade faz-se colheita noturna de azeitonas?
Nunca fizemos, por razões de segurança com o pessoal. Durante a noite há mais risco de acidentes. O que fazemos é: se anoitece às 18.30 e precisamos de terminar um setor, podemos prolongar mais meia hora ou uma hora. Mas isso não é ter turnos a trabalhar de noite.

Que projetos há para futuro?
A certa altura tínhamos esperança de encontrar um parceiro para poder embalar e vender, mas como foi difícil deixámos cair esse projeto, focando-nos em continuar a produzir quantidade de qualidade superior e a preço muito competitivo. A Herdade de Maria da Guarda nesta altura está mais focada em devolver à sociedade o valor que cria apoiando-se em quatro pilares: a cultura, a investigação, a educação e a beneficência. Estes quatro pilares foram a inspiração de uma Fundação com essa missão, entretanto criada – a Fundação Gaudium Magnum, que tem como capitais fundacionais as receitas das vendas internacionais do azeite.

O artigo foi publicado originalmente em Dinheiro Vivo.

Comente este artigo
Anterior Surto de gripe aviária no Reino Unido origina o abate de 10 mil perus
Próximo Só 4% dos agricultores portugueses têm menos de 40 anos. Como vai ser o futuro da agricultura nacional?

Artigos relacionados

Dossiers

Revista OVELHA 73 – set 2020

A Revista OVELHA é uma publicação mantida pela ACOS – Agricultores do Sul, desde o primeiro momento da constituição desta associação. Publicada há mais de 30 anos, a Revista Ovelha cobre […]

Sugeridas

“As desgraças aqui nunca vêm sós”. Depois do furacão Lorenzo, agricultores temem efeitos do coronavírus nos Açores

Seis meses depois da passagem do furacão Lorenzo, os agricultores da ilha das Flores esperavam recuperar com a chegada da primavera, mas temem […]

Últimas

Agrogarante leva inovação e competitividade à FNA

A Agrogarante estará presente na 56ª edição da Feira Nacional de Agricultura, que vai decorrer de 8 a 16 de junho, […]