Micosilvicultura: medidas agroflorestais para aumentar a produção de cogumelos

Micosilvicultura: medidas agroflorestais para aumentar a produção de cogumelos

[Fonte: Voz do Campo]

Introdução
Os pinhais, carvalhais, soutos e montados de sobro e azinho são habitats produtivos de cogumelos silvestres de grande importância, pois criam condições privilegiadas para o seu desenvolvimento. Os cogumelos silvestres comestíveis são produtos florestais não lenhosos (PFNL) com considerável potencial económico, podendo constituir um rendimento adicional ao rendimento proveniente da produção de madeira, cortiça ou fruto.
A maioria destes cogumelos com valor comercial são fungos ectomicorrízicos, que estabelecem uma relação de simbiose com as plantas hospedeiras, na qual ocorre transferência de água e sais minerais (do fungo para a planta) e de hidratos de carbono (da planta para o fungo). Esta associação traz benefícios para a planta, aumentando a extensão das raízes, melhorando a sua nutrição e protegendo-a contra doenças radiculares. Povoamentos florestais especialmente produtivos são os pinhais onde ocorre grande produção de Lactarius deliciosus (sanchas), os soutos produtores de Boletus edulis (boleto) e Cantharellus cibarius (canários) ou os montados onde se podem encontrar duas espécies de primavera, Amanita ponderosa (silarca) (Fig. 1) e Choiromyces gangliformis (túbera), e no outono Boletus aereus (boleto).

Também existem cogumelos decompositores com interesse gastronómico e económico como Lepista nuda (pé azul) e Morchella esculenta (pantorra) que se podem encontrar em áreas de acumulação de matéria orgânica ou Agaricus arvensis (bola de neve) e Macrolepiota procera (púcara) que podem ocorrer em zonas de prados e pastagens.

Micosilvicultura
A micosilvicultura é o conjunto de práticas silvícolas aplicadas na condução dos povoamentos florestais, agroflorestais ou agrosilvopastoris com o objectivo de preservar e aumentar a produção de cogumelos silvestres comestíveis. Estas devem ser adoptadas com base no conhecimento do recurso micológico, ou seja, com base no conhecimento dos habitats produtivos mais importantes, das espécies de cogumelos com valor gastronómico/económico, da tradição micológica e da estimativa da produtividade do habitat da região onde vão ser implementadas.

Medidas agroflorestais/micosilvícolas
Aquando da realização de práticas silvícolas algumas medidas agroflorestais de aplicação geral podem ser ajustadas para se obter uma prática “micosilvícola”.

Instalação de novos povoamentos
A escolha da espécie florestal é determinante para obter determinadas espécies de cogumelos silvestres. Embora existam espécies de fungos generalistas, que se podem encontrar tanto em pinhal, como carvalhais, soutos ou montados, pois estabelecem relações simbióticas com diferentes hospedeiros, há outras espécies que estabelecem relações apenas com plantas hospedeiras específicas, como Lactarius deliciosus (Fig. 2). Se pretender produzir esta espécie deve escolher o pinheiro manso e/ou bravo para instalação de um novo povoamento e, se possível, adquirir plantas micorrizadas. Assim estamos a criar um novo foco de inóculo no local da plantação e a promover a produção desta espécie de cogumelos no futuro.

Se instalarmos um novo povoamento sem recurso a plantas previamente inoculadas (visto que estamos dependentes da quantidade/qualidade de espécies disponíveis no mercado) devemos escolher locais onde exista inóculo (exista produção da espécie de cogumelos silvestres pretendida nas imediações) pois assim estamos a favorecer o processo de micorrização natural e a aumentar a produção de cogumelos.
A instalação de povoamentos mistos (pinheiros e carvalhos) fomenta a variedade de habitats e pode ser uma alternativa para aumentar a diversidade fúngica desse povoamento.

Desbaste
O desbaste, utilizado para reduzir a competição entre árvores, pode ter feitos positivos ou negativos na produção de cogumelos, consoante a sua intensidade e a espécie de fungos presentes no povoamento.
Deve evitar-se o abate numa extensa área de floresta, conservando algumas faixas e também algumas árvores adultas – árvores refúgio, que funcionam como reservas de micélio, preservando o inóculo no local.
Durante a extração de madeira deve concentrar-se os trabalhos numa zona bem definida para minimizar perturbações no solo e no coberto arbustivo.
Se não existirem problemas fitossanitários pode considerar-se a possibilidade de deixar material do corte para criar zonas favoráveis ao desenvolvimento de cogumelos decompositores, como Lepista nuda (pé-azul).

Controlo de matos
O controlo de matos deve ser realizado de modo a atingir um equilíbrio entre a quantidade de biomassa a eliminar e a conservar, reduzindo o risco de incêndio mas permitindo a regeneração natural da vegetação.
Deve ser efetuado com grade de discos a pouca profundidade ou, de preferência, com corta-mato e repetidos com pouca periodicidade. Deve ter-se também em consideração que algumas espécies de arbustos são hospedeiras de cogumelos comestíveis com interesse, como a espécie Choiromyces gangliformis associada às estevas (Fig. 3).

A limpeza de matos fomenta a vegetação herbácea (prados e pastos), contribuindo para o aumento da produção de cogumelos decompositores. A criação de clareiras pode também aumentar a produção de algumas espécies de fungos micorrízicos, como Terfezia arenaria ao favorecer a instalação da sua planta hospedeira Xolantha guttata.

Mobilização de solos
A proteção das camadas superficiais do solo é fundamental para a manutenção da capacidade produtiva de um local (Fig. 4).

Realização de queimadas
As queimadas são utilizadas com o objectivo de remoção de madeira morta ou outro tipo de biomassa do povoamento para minimizar o risco de incêndio florestal.
Numa área afetada por um incêndio florestal é recomendável, plantar ou promover rapidamente a regeneração natural durante o primeiro período vegetativo após o incêndio, evitando períodos superiores a 5 anos sem replantação. A maioria dos fungos micorrízicos morre nos anos seguintes à morte das raízes da planta hospedeira a que estavam associados.

Realização de podas
A quantidade de cogumelos produzidos pelos fungos micorrízicos depende da quantidade de hidratos de carbono disponibilizados pela planta hospedeira (Fig. 5).

Promoção de regeneração natural
As plantas de regeneração natural beneficiam da presença de árvores de idade avançada que funcionam como reservatório de espécies de fungos e estabelecem rapidamente relações de simbiose com os fungos existentes no local (Fig. 6).

Bibliografia recomendada

DGADR e ICNF (Coord.). 2013. Guia do Colector de Cogumelos – para os cogumelos silvestres comestíveis com interesse comercial em Portugal. DGADR Eds. 145 pp.

DGADR e ICNF (Coord.). 2013. Manual de Boas Práticas de Colheita e Consumo de Cogumelos Silvestres. DGADR Eds. 44 pp

Machado, H., Martins, A., Santos-Silva, C., Bastidas, M.J. 2011. Manual para a Gestão dos Recursos Micológicos Silvestres do Baixo Alentejo. ADPM, Associação de Defesa do património de Mértola. 71 pp.

Machado H, Ramos C, Sapata M. 2013. Fichas de cogumelos. Publicação realizada no âmbito do Projeto “Rede Temática para a Valorização dos Recursos Silvestres do Mediterrâneo”, Ed. UAlg – Universidade do Algarve. ISBN: 978-972-579-034-2.

Martínez-Peña, F., Oria de Rueda, J. A., Ágreda, T. 2011. Manual para La Gestión del Recurso Micológico Forestal en Castilla y León. SOMACYL – Junta de Castilla y León.

Ramos AC, Machado MH, Sapata MM, Bastidas MJ. 2015. Cogumelos, produção, transformação e comercialização. Editora: PUBLINDUSTRIA. 150 Páginas. Idioma: Português ISBN: 978-989-723-107-0.

Tomao, A., Bonet, J. A., Martínez de Aragón, J., de-Miguel, S. 2017. Is silviculture able to enhance wild forest mushroom resources? Current knowledge and future perspectives. Forest Ecology and Management 402:102-114.

Um artigo de Helena Machado e M.ª João Barrento
Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, I.P. Av. da República, Quinta do Marquês, 2780-159 Oeiras. Portugal
helena.machado@iniav.pt | mjoao.barrento@iniav.pt
*Escrito ao abrigo do anterior AO

Publicado na Voz do Campo n.º 225 (abril 2019)

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