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Mau tempo: Abandono no Vale do Tejo obriga agricultores a manter o território com remendos

por Lusa
07-03-2026 | 09:00
em Nacional, Últimas
Tempo De Leitura: 5 mins
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As cheias deste inverno trouxeram à superfície o que os agricultores do Vale do Tejo dizem há anos: um território onde diques, valadas, estradas e portas de água cedem ao primeiro embate, porque a manutenção desapareceu.

Entre a Azambuja e Santarém, multiplicam‑se estruturas remendadas à pressa, seguradas por estacas improvisadas e pelo esforço dos próprios agricultores. Um desses locais é a estrada de acesso ao Palácio da Rainha, na Azambuja, onde a via cedeu e o trânsito está cortado.

Onde antes havia um caminho de terra batida que seguia direto para o Palácio da Rainha, resta agora um desnível bruto, cortado por uma corrente de água que avança e recua ao ritmo da maré.

A água, ainda alta depois das cheias, avança lentamente sobre a margem exposta, inundando parcelas que já tinham cultura de inverno instalada e fragilizando o terreno onde deveria, nas próximas semanas, ser preparado o tomate, a cultura dominante da região da Azambuja.

“A estrada já precisava de manutenção há muito tempo”, diz Edgar Sousa, técnico agrícola que percorre a zona quase todos os dias.

Preparar terreno para o tomate, uma cultura que pode representar 10 mil euros por hectare, tornou‑se impossível neste cenário, uma vez que a terra não está em condições de ser trabalhada.

A solução, insiste, não passa por “remendos”. O que ali aconteceu não se resolve com um camião de terra ou uma máquina a alisar o caminho.

“Isto só com uma intervenção de fundo”, afirma, olhando para o corte que dividiu a estrada, consciente de que outra cheia levaria qualquer arranjo provisório.

À chegada ao local, o presidente da Associação de Agricultores do Ribatejo, Luís Neves, olha para o rombo na estrada e não se surpreende com o que encontra, apenas confirma o que, diz, vem alertando há anos.

“Há danos diretos das cheias, mas o problema é estrutural”, afirma, enquanto aponta para o caminho ferido e para os campos onde a água entra sem resistência.

“Não podemos adivinhar tempestades, mas podemos fazer a nossa parte”, diz. Dragagens, limpezas, manutenção dos taludes, reforço dos tapadões, tudo isso, assegura, “não tem sido feito”. E é por isso que, quando chega uma cheia mais forte, as infraestruturas cedem em série. “Se forem de barco pela vala acima, vão ver. Está praticamente tudo comprometido”, avisa.

O dirigente fala de desinvestimento “gritante”, de anos em que a manutenção foi sendo adiada até deixar de existir. O resultado, explica, não é apenas um rombo num caminho agrícola. É um território inteiro fragilizado, do Tejo ao Mondego, onde cada episódio extremo expõe falhas acumuladas.

“Podíamos minimizar muita coisa se a manutenção fosse feita”, afirma, recordando que todos os anos, após cada cheia ou incêndio, multiplicam‑se visitas e declarações institucionais, enquanto a intervenção estrutural continua por acontecer.

O que está em causa, insiste, não é um tema agrícola, mas um tema de território.

“Se fosse uma autoestrada ao lado da Autoeuropa e aquilo caísse, ninguém hesitava. Aqui, como é campo, parece que vale menos”, desabafa.

Com marés que chegam aos 3,80 metros, explica, “estas terras ficam incultas” e o impacto multiplica‑se muito para lá dos agricultores afetados.

“Se perdermos mil hectares aqui, isso pesa na economia da região”, afirma, acrescentando: “São 1.500, 2.000 hectares de produção que podem desaparecer”.

Outro dos pontos críticos da visita fica alguns quilómetros adiante, junto à vala, onde uma porta de água antiga mostra sinais evidentes de cedência. Construída há muitos anos, a estrutura está hoje sob responsabilidade da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), mas quem a tenta manter são os agricultores da zona, que a vão segurando “com estacas improvisadas”, tentando travar “os pequenos rombos que vão aparecendo”, explica Edgar Sousa.

Esse esforço, porém, coloca-os perante um problema: ao tentar preservar infraestruturas, arriscam‑se a ser multados.

“Corremos o risco de ser autuados por estar a intervir num património do Estado sem autorização”, diz Edgar.

E quando tentam fazer tudo de forma formal, a burocracia bloqueia qualquer resposta rápida. A autorização pode demorar até seis meses, um prazo impossível de compatibilizar com prazos agrícolas.

“Em plena campanha, não podemos esperar seis meses para resolver um problema que compromete milhares de euros”, sublinha.

O risco desta porta de água vai muito além das terras agrícolas. Atrás desta estrutura estão armazéns logísticos da Modis e da Sonae, que abastecem supermercados e centros de distribuição de grande parte da região centro e de Lisboa.

“Se este rombo avançar, a água chega facilmente aos armazéns”, alerta Edgar, um cenário que pode deixar instalações alagadas, comprometer trabalhadores e atingir diretamente a cadeia de abastecimento alimentar da região.

Depois deste ponto, a visita segue pela água. Para perceber a extensão dos danos ao longo da vala, a Lusa acompanha um passeio de barco entre a Azambuja e Virtudes, um percurso que confirma aquilo que os agricultores repetem no terreno: grande parte das estruturas só continuam de pé porque estacas lhes dão algum suporte. À medida que o barco avança, sucedem‑se troços de margem sustentados por estacarias improvisadas, remendos que seguram a terra apenas o suficiente para evitar que a água leve tudo na próxima maré.

São os agricultores que, na ausência de intervenção pública, tentam manter portas de água, valados e drenagens, assumindo riscos que incluem a possibilidade de serem multados por intervir em património público sem autorização.

“Sem este trabalho de tapar buracos, muitas destas zonas já tinham desaparecido. Os agricultores estão a cuidar do território na medida das suas possibilidades, mas há intervenções que estão muito acima do que conseguem fazer”, comenta Luís Neves.

A solução, defende, passa pela criação de uma entidade gestora do território, semelhante às existentes noutros regadios coletivos, capaz de assegurar drenagens, margens e infraestruturas agrícolas com uma gestão coordenada.

“É preciso que os proprietários, arrendatários, juntas e autoridades cheguem a uma plataforma de entendimento.”

Para o responsável, o objetivo é garantir que o vale do Tejo, e os hectares que o compõem, deixe de depender de remendos individuais e passe a ter uma estrutura de gestão capaz de responder à escala do território.

“Sem isso, continuaremos sempre a sobreviver com o possível, e não com o necessário”, afirma Luís Neves, que apela a que o território não seja esquecido.

“Mil hectares não mexem no PIB [Produto Interno Bruto]. (…) Este território é desprezado. Lembram‑se dele para pescar, passear ou admirar a paisagem, mas não quando é preciso fazer obra e manter o que existe”, conclui.

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