Independência Energética na Agricultura – José Pedro Salema

Independência Energética na Agricultura – José Pedro Salema

Uma agricultura verdadeiramente sustentável é hoje ainda uma utopia para muitos mas não só é possível como será essencial e obrigatório para a humanidade vencer o desafio das alterações climáticas. Para o conseguir será preciso produzir localmente a totalidade das necessidades energéticas com recursos a fontes renováveis.

A energia – capacidade de produzir trabalho ou acção – é usada sob várias formas nos sistemas agrícolas contudo nem todas têm o mesmo impacto negativo ou pegada no meio ambiente.

O gasóleo é o combustível fóssil mais frequente nas máquinas agrícolas e cada litro quando queimado oferece um valor energético de 36 MJ (ou cerca de 10 kWh) e liberta 2,6 kg de dióxido de carbono na atmosfera. Segundo os dados da DGEG, em 2019 o consumo de gasóleo agrícola em Portugal foi de 306 mil toneladas que terão emitido 932 708 100 kg de CO2!

Uma forma de reduzir este impacto do uso dos motores a diesel, para além do aumento da sua eficiência, pode passar pelos biocombustíveis e/ou pela reutilização de óleos usados. Se a primeira alternativa tem que ser devidamente quantificada com análises de ciclo de vida para perceber o real impacto, a segunda é fácil, está testada e tem impactos adicionais muito reduzidos.

Mas a verdadeira revolução virá com a substituição dos motores diesel pelos eléctricos que são cerca de 3 vezes mais eficientes, dispensam manutenção, têm binário constante, são silenciosos e não emitem qualquer gás com efeito de estufa.

Já existe hoje disponível no mercado um tractor agrícola convencional, da conhecida marca Fendt, com tracção 100% elétrica e com capacidade de bateria suficiente para uma jornada. Faltam mais.

Tractor Fendt

Na mobilidade eléctrica convencional, tipicamente urbana, começam a surgir vários modelos com autonomias muito interessantes e preços cada vez mais competitivos. No entanto, no mercado dos veículos de trabalho a oferta global ainda é insuficiente. Existem algumas honrosas excepções como a empresa adquirida pelo serviço de correio alemão e que hoje tem um modelo no mercado ou a camioneta ligeira da Mitsubishi montada em Portugal, ambas vocacionadas para a distribuição urbana…

Mas se parece evidente que temos que substituir todos as carrinhas, camionetas, tratores e máquinas automotrizes a combustão por modelos eléctricos temos que pensar também na produção da electricidade que as vai alimentar. E uma exploração agrícola só será verdadeiramente sustentável quando conseguir produzir localmente a totalidade das suas necessidades energéticas com recursos a fontes renováveis.

Uma área importante a desenvolver será a dos sistemas de carregamento rápido que consigam tirar o máximo partido da produção renovável local. Existem em Portugal excelentes referências nesta área como a EFACEC ou a Magnum Cap já com provas dadas.

Hoje já existem muitas situações em que a introdução de sistemas fotovoltaicos ou eólicos é mais económica que a tradicional ligação à rede elétrica. A alimentação elétrica de sistemas de comunicação ou monitorização recorre frequentemente à energia solar com enormes vantagens face à tradicional ligação à rede.

produção de biogás a partir dos resíduos agropecuários pode também dar um contributo importante para a independência energética da agricultura e o seu potencial está muito longe de ser atingido.

Os sistemas de armazenamento de energia que tornam possível a alimentação constante a partir de fontes intermitentes, como quase todas as renováveis, estão a evoluir muito rapidamente, principalmente ligados à indústria automóvel. Muito rapidamente surgirão soluções muito interessantes para a agricultura que urge estudar e potenciar a sua aplicação.

No nosso país cada hectare de área agrícola consume 6,3GJ de energia (ou 1750 kWh). Esta quantidade de energia pode produzida por um sistema fotovoltaico com 1 kWp de potência, ou 3 paineis standard de 330-340W. O desafio é grande mas não é difícil imaginar a potenciação das áreas marginais e das bordaduras para esta função.

Em 2017 foi instalado no reservatório e estação de filtração da Cegonha (do sistema Alqueva) um sistema alimentação elétrica com recurso à produção fotovoltaica sobre estruturas flutuantes e com recurso a um banco de baterias (de chumbo) que teve um custo de investimento igual ao da construção de uma linha de média tensão mas não tem quaisquer custos mensais.

Central fotovoltaica flutuante com banco de baterias - Reservatória da Cegonha - Empreendimento de Fins Multiplos do Alqueva

Este tipo de soluções desligadas da rede, com recurso a baterias de grande capacidade, podem ser completamente disruptivos uma vez que começam agora a surgir no mercado baterias (iões de lítio) para este tipo de aplicações com durações muito superiores (3x), pesos/volumes muito inferiores (1/3) para a mesma capacidade e preços competitivos.

Mas o verdadeiro desafio vem hoje com as grandes necessidades energéticas – como alimentar os grandes motores que impulsionam as estações elevatórias para a rega ou as grandes máquinas agrícolas. Existe também aqui conhecimento ciêntifico disponível como mostra, por exemplo, o projeto Maslowaten. Falta divulgar e promover a sua aplicação.

No final de 2019 a EDIA concluiu a construção de duas centrais fotovoltaicas de 1MW cada para autoconsumo junto das estações elevatórias da Lage e de Cuba-Este. A produção destas unidades vai ser absorvida, na sua grande maioria, pelos grupos de bombagem ali instalados.

Central fotovoltaica flutuante para autoconsumo - Reservatório e Estação Elevatória de Cuba-Este - Empreendimento de Fins Multiplos do Alqueva

A associação do fotovoltaico flutuante às infraestruturas de regadio tem evidentes sinergias. A produção mensal acompanha perfeitamente o consumo e as superfícies (albufeiras, charcas e reservatórios) onde são colocados os paineis não tem utilizações concorrentes. Por outro lado, o efeito refrescante da água sobre os paineis aumenta a sua eficiência e a redução da incidência de luz sobre o reservatório diminui o crescimento da algas que tanto atrapalham os sistemas de adução e filtragem.

Para conseguir progredir no sentido da independência energética, depois de evoluir o máximo possível na senda da eficiência, é preciso conhecer necessidades e imaginar como os recursos energéticos locais as poderão satisfazer integralmente.

Existem já hoje muitas soluções com aparentes vantagens económicas e ambientais claras mas que ainda necessitam de testagem, aperfeiçoamento e ampla divulgação. Pelo mundo também já existem bons exemplos que podemos tentar seguir. Vamos a isso?

José Pedro Salema
Presidente do Conselho de Administração da EDIA

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