A instabilidade geopolítica no Médio Oriente está a produzir efeitos concretos sobre o sector das carnes a nível global. A Global Cold Chain Alliance (GCCA) publicou, em Março de 2026, três relatórios de monitorização que identificam dois eixos de impacto: as perturbações imediatas na logística frigorífica internacional e o risco estrutural de encarecimento dos factores de produção pecuária, com origem nas cadeias de fornecimento de fertilizantes.
A logística frigorífica sob pressão
As restrições de circulação no Estreito de Ormuz estão a traduzir-se num aumento dos custos de frete marítimo e aéreo, ao qual acresce a aplicação generalizada de sobreprémios de seguro de risco de guerra por parte das seguradoras. Para as empresas do sector das carnes, o efeito prático é imediato: expedições mais caras, rotas mais longas e uma cadeia frigorífica sujeita a tensões crescentes.
O desvio de embarcações para rotas alternativas aumenta os tempos de trânsito e eleva os custos de refrigeração durante o percurso. Contentores refrigerados imobilizados em portos ou sujeitos a atrasos prolongados comprometem a integridade da cadeia frigorífica e reduzem o tempo de vida útil comercial das carnes frescas à chegada — com impacto directo na qualidade do produto e nas condições de comercialização nos mercados de destino.
Para as carnes frescas expedidas por via marítima, qualquer atraso significativo no trânsito pode inviabilizar a comercialização do produto nos mercados de destino.
Fertilizantes, rações e custos de produção
O segundo eixo de impacto é de natureza mais estrutural e com efeitos a médio prazo. O Médio Oriente é uma região fornecedora relevante de matérias-primas para o fabrico de adubos e fertilizantes, em particular compostos azotados e fosfatados, cuja escassez ou encarecimento se propaga ao longo de toda a cadeia de valor agrícola e de criação animal.
A perturbação nas cadeias de fornecimento de fertilizantes eleva os custos de produção das principais culturas para rações, através dos cereais, soja e outras oleaginosas. Em consequência, é expectável um agravamento dos custos de produção nos ciclos de subsequentes às próximas colheitas, com repercussões sobre carne, leite e ovos. Para as empresas transformadoras, este cenário traduz-se em pressão sobre as margens operacionais, especialmente quando o aumento dos custos não pode ser transferido para os preços praticados a jusante na cadeia de abastecimento.
Exposição dos mercados e perspectivas
As regiões com maior dependência de importações de carne e outras proteínas de origem animal, em particular o próprio Médio Oriente, o Norte de África e partes da África Subsaariana, são as mais vulneráveis a subidas de preços e a eventuais constrangimentos de abastecimento. Para os principais países exportadores mundiais, designadamente nas Américas e na Oceânia, o impacto faz-se sentir sobretudo ao nível dos custos de transporte e dos factores de produção.
A avaliação da GCCA é clara quanto à hierarquia dos riscos: a perturbação logística imediata é relevante mas gerível; o risco mais significativo a médio prazo é a persistência do encarecimento das matérias-primas para rações, com potencial para contrair a oferta global de carne e sustentar uma subida dos preços nos mercados internacionais ao longo dos próximos ciclos de produção.
Acompanhamento e fontes
A APIC acompanha esta matéria através da UECBV, que tem vindo a disseminar os relatórios periódicos da GCCA. Os três relatórios publicados em Março de 2026 estão disponíveis nos seguintes endereços:
• Relatório GCCA — 5 de Março de 2026
• Relatório GCCA — 4 de Março de 2026
• Relatório GCCA — 2 de Março de 2026
A APIC manterá o acompanhamento da evolução desta situação e informará os associados sempre que se verifiquem novos desenvolvimentos com relevância para o sector.
Fonte: APIC















































