“Há que conquistar mercados alternativos mas para isso precisamos de uma Interprofissional”

“Há que conquistar mercados alternativos mas para isso precisamos de uma Interprofissional”

Jorge Durão Neves foi eleito presidente da ANPROMIS – Associação Nacional de Produtores de Milho e Sorgo – em março passado para o triénio 2019-2021 mas a sua ligação com o setor já vem bem detrás, quer enquanto membro de Direção daquela entidade, quer enquanto Diretor geral da AGROMAIS, Organização de Produtores ligada à fundação da ANPROMIS.

Com o 10.º Colóquio Nacional do Milho à porta falámos sobre os grandes desafios que se colocam à fileira nos próximos anos e qual a estratégia da ANPROMIS para os enfrentar, tendo em conta também que os eventos que promove constituem uma referência no panorama agrícola nacional, mobilizando um elevado número de participantes e empresas apoiantes.

Enquanto presidente da ANPROMIS eleito há relativamente pouco tempo, o que é que se propõe desenvolver para este mandato?

Há pouco tempo como presidente da Direção, já há mais tempo como membro da Direção e através da AGROMAIS há muitos anos ligado ao setor uma vez que esta integra a ANPROMIS desde início. A ANPROMIS é talvez das organizações mais dinâmicas deste país, como demonstram todas as iniciativas que tem desenvolvido ao longo destes anos. Os seus Congressos que são realizados de dois em dois anos constituem uma referência a nível nacional debatendo não só temas relacionados com a cultura do milho, como também da agricultura de regadio. Por outro, e no que diz respeito aos Colóquios que se realizam nos anos intercalares, tratamos de abordar assuntos mais técnicos e com relevância regional. Sendo o milho um setor tão representativo da agricultura portuguesa e do regadio, as nossas responsabilidades são acrescidas. A título de exemplo, face aos desafios das alterações climáticas, quais são os desafios que se nos colocam para que uma cultura, eminentemente de regadio, se mantenha competitiva num país mediterrânico como Portugal?

Pegando já na deixa das alterações climáticas e do seu impacto na cultura, o que é que está a ser feito?

Temos vindo a tomar um conjunto de medidas, todas convergentes para um objetivo comum, que passa pela necessidade de definirmos uma estratégia nacional para enfrentarmos um flagelo que condiciona de forma crescente a nossa atividade, como são as alterações climáticas. A este propósito, no passado mês de junho desafiámos a ANPOC (cereais de pragana), a ADVID (vinha), a FENAREG (regadio), a FNOP (hortofruticultura) e a UNAC (florestas) para criarmos o Centro Nacional de Competências para as Alterações Climáticas do Setor Agroflorestal (CNCACSA), que junta agora 58 Entidades representantes dos Agricultores, da Investigação, da Academia e as entidades tutelas pelos Ministérios da Agricultura, do Ambiente, da Ciência e do Mar, em torno da definição de um propósito comum – adaptarmo-nos às Alterações Climáticas. No entanto, e para que os objetivos que estiveram na origem deste Centro de Competências sejam alcançados, é fundamental prevermos desde já fontes de financiamento dos projetos de investigação que se venham a julgar determinantes no Plano de Atividades de curto, médio e longo prazo que estamos neste momento a elaborar.

Por outro lado e no que diz respeito à competitividade da cultura do milho, qual é a estratégia?

A primeira de todas foi conseguirmos, juntamente com a ANPOC – Associação Nacional de Produtores de Cereais, Oleaginosas e Proteaginosas e a AOP – Associação de Orizicultores de Portugal, a aprovação da Estratégia Nacional para a Promoção da Produção dos Cereais em Conselho de Ministros do Governo anterior. É uma Estratégia com dezassete pontos, alguns já com implementação iniciada e outros que virão a sê-lo a curto e médio prazo.

O que seria o desejável a esse nível?

Temos de ver que há realidades diferentes. Vejamos a realidade dos cereais de sequeiro, tem de ser encarada enquanto atividade complementar a outras, nomeadamente a produção de carne em extensivo, porque faz parte de um ecossistema que é importante preservar. Por outro lado, estamos num país onde neste momento a produção de milho representa entre 1/3 e 1/4 do que são os consumos nacionais. O Alqueva, que até foi uma origem interessante de milho no momento em que os blocos de rega iniciaram a atividade, hoje em dia já é um objetivo muito mais difícil de alcançar, porque o paradigma de Alqueva mudou muito. Não por demérito do milho, mas porque as alternativas que ali foram sendo instaladas mostraram-se mais rentáveis quer para os agricultores, quer para os proprietários da terra.

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Há novas zonas de produção?

Isso está muito dependente dos planos de regadios e do aumento que possa haver da área regada em Portugal. Cabe realçar que o regadio vai estar sempre dependente do que forem as políticas de mitigação das alterações climáticas. A questão da retenção da água e das barragens vai ser crítica nesta matéria e o posicionamento do Estado português vai ser muito importante nesse aspeto. Temos de nos questionar se queremos ou não ter reservatórios de água. São estas as condições que vão condicionar o futuro, mas Portugal tem ótimas condições para poder ir à procura de mercados alternativos para a sua produção. Neste momento o consumo de milho em Portugal está muito condicionado pela alimentação animal. Essa, por seu lado, está muito direcionada para a importação de milho, por questões fundamentalmente de preço de mercado. Se nós em Portugal queremos criar valor acrescentado para os produtores nacionais, temos de procurar mercados alternativos.

Qual tem sido o papel da ANPROMIS junto das suas associadas para cumprir estes desígnios?

Mais uma vez com a ANPOC, a ANPROMIS está envolvida num processo de valorização dos cereais portugueses através do projeto ValorCer. Um dos objetivos passa precisamente pela criação de uma interprofissional para o setor dos cereais, porque faz parte do papel das interprofissionais a promoção dos seus produtos. Em Portugal, não é muito fácil fazer promoção porque o milho é um produto menos ligado ao consumidor final, logo, dificilmente se conseguirá uma quota de mercado muito superior à atualmente existente. Deste modo, temos de ir à procura lá fora. Acreditamos que através de uma interprofissional teremos melhores condições para que as organizações de produtores que comercializam milho, consigam orientar-se no para o mercado exterior. Vamos ver! (…).

O artigo foi publicado originalmente em Voz do Campo.

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