Floresta portuguesa ocupa mais de um terço do país

Floresta portuguesa ocupa mais de um terço do país

Com uma extensão superior a três milhões de hectares, a floresta é o principal uso do solo em Portugal e ocupa mais de um terço do país.

Estes são alguns dos dados a reter do 6.º Inventário Florestal Nacional (IFN6) e da Carta de Uso e Ocupação do Solo de Portugal Continental de 2015 (COS2015), os dois levantamentos geográficos que fornecem dados sobre a floresta portuguesa, sua representatividade e evolução. Ambas as avaliações apresentam uma evolução positiva da floresta, em termos do aumento de área ocupada nos últimos anos (e até 2015).

Tanto o IFN6 (levantamento oficial da responsabilidade do ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, que detalha o estado da floresta portuguesa), como o COS2015 (informação geográfica de uso e ocupação do solo de natureza temática, sob a forma de inventário, produzida pela Direção-Geral do Território) traçam um retrato do estado da floresta portuguesa no ano de 2015.

Dada a diferença de indicadores e metodologia, cada um destes levantamentos apresenta valores distintos: o COS 2015 divide o espaço em unidades de paisagem (polígonos), enquanto o IFN se baseia num conjunto de pontos, por exemplo.

Principais ocupações do solo em Portugal Continental, 2015

CARTA DO USO E OCUPAÇÃO DO SOLO (2018)

6.º INVENTÁRIO FLORESTAL NACIONAL (2019)

Ocupação do solo - Inventário Florestal Nacional

Fontes: Carta de Uso e Ocupação do Solo de Portugal Continental de 2015  COS2015 (2018), Direção-Geral do Território e Relatório Completo do 6.º Inventário Florestal Nacional (20­­19) ICNF

Segundo o relatório completo do IFN6, mais de um terço do solo nacional (36%) era ocupado, em 2015, por áreas florestais, seguindo-se as áreas de matos e pastagens (31%), área agrícola (24%), solo urbano (5%), improdutivos e águas interiores (2% cada). Estes dados dão conta de uma evolução ligeiramente positiva na área da floresta: em comparação com 2005, ano sobre o qual incide a avaliação do 5.º Inventário Florestal Nacional, há mais 8,3 mil hectares de floresta (uma variação de +0,6%).

Já de acordo com a COS2015, a floresta portuguesa ocupava 39% do território continental (3 478 646 ha). Este dado revela também um acréscimo face ao passado, já que, em 1995, a percentagem não chegava aos 37% (36,9%). Em 2015, se considerarmos a floresta e os sistemas agroflorestais, a área arborizada soma 47%.

Os valores nacionais estão em linha com os 43% de floresta e áreas florestadas registados na União Europeia (UE-28) em 2015, de acordo com o Eurostat e o State of Europe’s Forests 2015 Report: 38% de floresta (161 milhões de hectares) e 5% de área arborizada (21 milhões de hectares).

Os Inventários Florestais são feitos sob coordenação do ICNF desde 1964 e revistos a intervalos de cerca de 10 anos. Devido a esta periodicidade, o estado da floresta portuguesa apresentado no IFN6 “é forçosamente diferente da sua situação atual”, como sublinha o documento. Desde a avaliação de 2015, há a realçar os “severos incêndios rurais de 2017 e 2018 (Monchique)” que, estima-se, “tenham afetado uma área arborizada de 274 mil hectares”.

Evolução da ocupação do solo por floresta (milhares de hectares), 1995 – 2015

CARTA DO USO E OCUPAÇÃO DO SOLO (2018)

6.º INVENTÁRIO FLORESTAL NACIONAL (2019)

Evolução das áreas por uso do solo - Inventário Florestal Nacional

Fonte: Relatório Completo do 6.º Inventário Florestal Nacional (20­­19) ICNF
Carta de Uso e Ocupação do Solo de Portugal Continental de 2015  COS2015 (2018), Direção-Geral do Território.

Como evoluiu a área florestal em Portugal ao longo do tempo?

Ao longo da história, a dimensão da área florestal em Portugal variou muito. A primeira avaliação formal data de 1874, na sequência do trabalho do militar Gerardo Pery, publicado em “Geografia e Estatística Geral de Portugal e Colónias como um Atlas”. Nesse ano, a área de floresta estimada rondava os 640 mil hectares, ou seja, cerca de 7% da área total de Portugal. Este valor reflete o processo de desflorestação para a construção naval nos finais do século XV e início do século XVI, a necessidade de produzir alimentos, a emigração e as guerras.

A partir de 1886, foram criadas as bases dos Serviços Florestais e deu-se início à reflorestação de áreas incultas e à fixação de dunas com pinheiros (Pinus spp.).

Evolução histórica da área de floresta, 1860 – 2020

Área de floresta - gráfico de evolução entre 1860 e 2020

Fonte: A ocupação florestal do solo em Portugal Continental (2015), ICNF

Evolução da ocupação das principais espécies e formações florestais, 1902 – 2010

Gráfico da evolução da ocupação das principais espécies e formações florestais, 1902 - 2010

Fonte: Floresta Comum, a partir de dados do ICNF

No século XX, a área florestada foi aumentando até à década de 70 devido à plantação de pinheiros, assim como de sobreiro (Quercus suber L.) e azinheira (Q. ilex L.) e, desde a década de 50, também de eucalipto (Eucalyptus sp.). Em 1995, a área florestada chegou aos 3,3 milhões de hectares (dados do 4.º Inventário Florestal, indicados no IFN6).

Nos últimos anos, tem-se verificado um decréscimo na área de pinheiro-bravo (Pinus pinaster) e de montados de sobreiro e azinheira, assim como um crescimentona área de eucalipto, pinheiro-manso (P. pinea L.) e outras folhosas. Mesmo assim, os montados de sobro e azinho representam um terço da floresta nacional.

Floresta seminatural e plantada predomina em Portugal e na Europa

A diversidade e a composição das áreas florestais europeias foram influenciadas pelas atividades humanas, pelo que as florestas originais estão praticamente extintas no “Velho Continente”. Na União Europeia, a floresta nativa corresponde a 4% da área florestal. Em Portugal, essa percentagem é bem menos expressiva: cerca de 0,76% da área florestal total, de acordo com o relatório de 2015 Forest Europe: State of Europe’s Forests (Tabela 28: Indicador 4.3A).

A chamada floresta seminatural, composta por espécies nativas e introduzidas, que se regeneram naturalmente ou por plantação, é largamente dominante: 87% da Europa e 71% em Portugal.

Sem as florestas plantadas, a área florestal nacional seria muito menor. De facto, estas florestas têm vindo a aumentar a sua área em termos globais, tendo passado de cerca de 264 milhões em 2010 para 290 milhões de hectares em 2015, o equivalente a 7%, segundo o Global Forest Resources Assessment 2015.

A nível mundial, o peso da floresta nativa na área florestal total representa 36%, sendo a Rússia o país que mais contribui para este total (mais de 20% de floresta natural), segundo dados de 2010 da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO).

A Europa (excluindo a Rússia) destruiu a quase totalidade da floresta natural ao longo dos séculos: a maioria das áreas “sobreviventes” até aos dias de hoje situa-se na região do Danúbio-Cárpatos, refere a organização ambiental WWF. Presume-se que, fora deste “Coração Verde”, mesmo as espécies consideradas nativas na Europa Ocidental tenham sido plantadas, com a sua manutenção garantida por regeneração natural e também por corte e replantação. A destruição da floresta natural resultou da desflorestação intensiva ocorrida no continente europeu até ao século XVIII.

Áreas de floresta natural, seminatural e plantada
(em percentagem das áreas totais de floresta)

Dados de Forest Europe: State of Europe’s Forests 2015 (dados nacionais e europeus);
FAO – Global Forest Resources Assessment 2010 (dados mundiais)

Floresta mundial continua a diminuir

Embora a área global de floresta esteja a reduzir-se nos últimos anos (de 31,6% da superfície terrestre em 1990 para 30,6% em 2015), o ritmo de perda tem sido menos acentuado do que no passado. Em algumas partes da Europa, Ásia e América do Norte, a área florestal tem aumentado, o que contribui para compensar o decréscimo global.

O ritmo de perda continua a ser mais expressivo nos países em vias de desenvolvimento (África Subsaariana, América Latina e Caraíbas), dada a conversão de áreas florestais em áreas agrícolas e urbanas.

Fonte: Global Forest Resources Assessment 2015, FAO

O artigo foi publicado originalmente em Florestas.pt.

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