Fito-Entrevista: Os desafios à produção agrícola por Rosa Amador

Fito-Entrevista: Os desafios à produção agrícola por Rosa Amador

Rosa Amador, Direção Geral da ADVID – Associação para o Desenvolvimento da Viticultura Duriense.

O Futuro da atividade agrícola dentro e fora do setor.

A visão sobre os desafios à produção agrícola na atualidade, tomando como ponto de partida o estudo que a ANIPLA realizou em parceria com a Universidade Católica.

O Centro de Estudos Aplicados (CEA) da Universidade Católica Portuguesa, em parceria com a ANIPLA, realizou um estudo à população portuguesa adulta para aferir o seu conhecimento quanto às realidades da produção agrícola. Uma das conclusões indica que 93% dos inquiridos não sabe que a produção alimentar global precisa de aumentar 60% até 2050.

Os resultados demonstram a necessidade de se aumentar o diálogo entre o sector agrícola e a população, para aumentar a cooperação e gerar maior conhecimento público para um tema de tanto impacto na sociedade.

1. O que podem fazer os agricultores para aumentar a perceção do consumidor de que é preciso acelerar de forma substancial a produção de alimentos para dar resposta ao crescimento da população mundial?

O aumento populacional e as escolhas alimentares dos consumidores terão impactos sobre o consumo de água, de energia, sobre o uso do solo e afetarão a saúde pública, agravados num contexto de alterações climáticas.

Considerando que é necessário produzir mais alimentos com menos recursos, para alimentar uma população de 9 mil milhões, mantendo a pegada ecológica dentro de limites sustentáveis, é necessário modificar os comportamentos e decisões de consumo e reduzir os atuais níveis de desperdício alimentar, para assegurar uma alimentação saudável através de uma agricultura sustentável.

Para isso, é necessário que os organismos oficiais, nacionais e comunitários, bem como as organizações de produtores promovam a informação junto dos consumidores, sobre a agricultura, os alimentos, as pescas e o ambiente. Paralelamente, deve ser promovida informação ao nível das escolas, ao nível da publicidade, ao nível da intervenção dos profissionais de saúde e na rótulagem, entre outros.

2. O que vai ser necessário fazer para responder a esta necessidade de aumento de produção?

É opinião unânime que vai ser necessário produzir mais alimentos com menos recursos. A questão é: como?

Pensamos que se consegue atingir através da agricultura sustentável. A agricultura sustentável promove a preservação dos recursos naturais, a redução das emissões de gases de estufa, o combate à perda de biodiversidade, preservação das paisagens de grande valor e a economia circular.

Complementamente, será ainda fundamental que sejam reformulados os modelos de consumo individual, reduzindo drasticamente o desperdício e sejam desenvolvidos modelos de distribuição com valorização de cadeias mais curtas de abastecimento e mercados locais.

Mais ainda, devem ser continuados os avanços tecnológicos apoiados em investimento que promovam uma agricultura inteligente em termos ambientais e climáticos e reduzam os custos para os agricultores. O setor agrícola e as zonas rurais têm de estar intimamente ligados ao desenvolvimento do capital humano e à investigação e deve ser intensificado o apoio à inovação.

Há que investir em novas estratégias e novos conhecimentos para aumentar a produtividade, para cultivar variedades mais sustentáveis e que envolvam uma utilização mais eficiente dos recursos hídricos. A agricultura de precisão, baseada nas novas tecnologias de informação, terá que ser um instrumento essencial da agricultura pelo aumento da eficiência na utilização dos recursos/fatores de produção, mas o conhecimento do funcionamento dos agro-ecossistemas também é fundamental para substituir fatores de produção de origem industrial (pesticidas, fertilizantes e energia).

Em suma, terá de se reforçar a investigação científica, o desenvolvimento experimental e a transmissão de conhecimentos de modo a identificar e promover sistemas e tecnologias de produção agro-alimentar capazes de conciliar um aumento na oferta de produtos agrícolas e alimentares com uma gestão sustentável dos recursos naturais, a biodiversidade e a economia de baixo carbono. As Associações de Agricultores que disponibilizam conhecimento, aconselhamento, competências e inovação são entidades essenciais que não podem estar desligadas deste processo.

No que diz respeito à viticultura, é nosso entendimento que a investigação e desenvolvimento, além do suporte (estudos de mercado e de consumidores) e credibilidade que acrescenta às ações de promoção, irá aumentar a competitividade do setor vitivinícola e dos territórios subjacentes. Considera-se como primordial para enfrentar o futuro, continuar os estudos sobre as castas portuguesas, sobre as questões relacionadas com a biodiversidade, estratégias de adaptação às alterações climáticas, a eco-eficiência, a mecanização na viticultura de montanha, a preservação dos solos, preparação do setor para o aparecimento de novas doenças e pragas, novas tecnologias de produção de vinho, criação de bases de dados e ferramentas de avaliação da qualidade dos produtos. A investigação e desenvolvimento irá permitir a inovação nos produtos, processos e procedimentos. Para isso, será necessário promover a difusão do conhecimento produzido, mas também promover a capacitação do potencial humano, de modo a que o conhecimento seja adotado e implementado pelos viticultores.

3. Na sua opinião, quais são os três maiores desafios que os agricultores enfrentam perante fenómenos resultantes das alterações climáticas?

A agricultura é um dos setores mais expostos às alterações climáticas, dado que depende das condições climáticas. A variabilidade climática inter-anual é uma das principais causas da variabilidade do rendimento das culturas e dos riscos inerentes à exploração agrícola.

Grande parte do impacto das alterações climáticas na agricultura diz respeito à água. A escassez de água terá um grande impacto na produção agrícola e nas paisagens europeias. A agricultura terá também de racionalizar o uso da água, melhorando a sua utilização e reduzindo as suas perdas.

Prevê-se igualmente um impacto negativo resultante de eventuais pragas e doenças emergentes.

O aumento de temperatura e os fenómenos extremos como elevada precipitação em períodos curtos de tempo, terão implicações negativas na conservação do solo devido à mineralização da matéria orgânica e maior erodibilidade do solo.

Em suma, os principais desafios dos agricultores são a perda de rendimento, a escassez da água, eventuais pragas e doenças emergentes e degradação/perda de solo.

Num futuro muito próximo, será crucial implementar medidas de adaptação, mas os agricultores não poderão abordar sozinhos o problema das alterações climáticas, as políticas públicas terão que promover e apoiar a investigação e o desenvolvimento tecnológico, o desenvolvimento de infra-estruturas que permitam a criação de reservas de água, as estruturas agrícolas, nomeadamente através de sistemas de irrigação de elevada eficiência, sistemas de drenagem, tecnologias de informação, entre outros e os métodos de produção que favoreçam a adoção de práticas de conservação ambiental e paisagísticas para que os agricultores continuem a prestar serviços para o ambiente rural.

4. O estudo demonstrou que os portugueses preferem alimentos biológicos, mas desconhecem a forma como são produzidos, nomeadamente, o facto de também usarem produtos fitofarmacêuticos. É um mito que é necessário esclarecer?

Os consumidores devem ser informados sobre os modos de produção dos alimentos, quer sejam biológicos, quer sejam outros modos de produção como a produção integrada. A produção integrada é um modo de produção sustentável que tem por base a preservação dos recursos naturais, a manutenção da estabilidade dos ecossistemas agrários, o fomento da biodiversidade e a proteção de plantas com base na proteção integrada.

A produção integrada e a agricultura biológica são duas modalidades de agricultura sustentável, cujas diferenças se traduzem essencialmente na utilização de adubos e pesticidas químicos de síntese em produção integrada, em oposição à agricultura biológica.

De facto, consideramos que os modos de produção não se podem resumir e avaliar em termos de impacto ambiental, apenas tendo por base a utilização de determinado tipo de produtos fitofarmacêuticos. Pelo contrário, devem valorizar-se e avaliar-se o impacto de práticas de conservação implementadas, quer em produção integrada, quer em biológico, com vista a fomentar o equilíbrio do ecossistema, tendo em conta que algumas poderão ter um impacto significativo na “saúde” do ecossistema.

5. Na defesa de práticas sustentáveis, tem-se apelado ao consumo de produtos sazonais (da época) e locais. Qual a importância dessas práticas para os agricultores portugueses?

Os circuitos curtos agro-alimentares proporcionam um novo paradigma para a produção, comercialização e consumo alimentar e traduzem-se para os agricultores, em escoamento dos produtos de forma regular, na possibilidade de aumento da produção e da diversificação das atividades da exploração através da transformação dos produtos, no pagamento imediato e justo e, como consequência, no aumento do rendimento dos produtores. Possibilitam ainda, o contacto direto com os consumidores, conhecendo a sua opinião sobre os produtos e preços praticados, a criação de emprego para o próprio e familiares ou outros e o reconhecimento social e profissional.

No caso do vinho, a sazonalidade não é fator importante no consumo, no entanto o conceito de origem está na base da produção dos vinhos portugueses que assenta essencialmente nas denominações de origem e indicações geográficas. Estas premissas contribuem não só para a promoção da venda do vinho e da sua genuinidade, mas também para a promoção dos territórios que lhes estão subjacentes, em que o enoturismo é o expoente máximo. Com a promoção e o crescimento deste tipo de turismo inerente à cultura do vinho, promove-se não só o desenvolvimento das zonas rurais, a fixação de população e o aumento na diversidade de receitas das empresas, mas também a redução da pegada ecológica pela compra de vinho no local de produção.

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O artigo foi publicado originalmente em Anipla - fitoentrevista .

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