Como vê o sector agrícola em Portugal e quais devem ser as três prioridades para o setor?
Ao mesmo tempo que tenho grandes preocupações sobre o sector da agricultura em Portugal não deixo também de confiar que é possível dar a volta à situação. Todos sabemos que em poucas dezenas de anos desapareceram milhares de explorações agrícolas. Milhares de pequenos e médios agricultores enfrentam muitas dificuldades para conseguirem aguentar as suas explorações. Cresceu a agricultura intensiva e super intensiva e temos cada vez uma agricultura em que se produz para o mercado em vez olhar para as necessidades do país. As monoculturas expandem-se, incluindo na floresta com consequências que não são boas. Temos uma grande dependência externa, e sectores onde somos autossuficientes – como o leite – estão comprometidos. A nossa soberania alimentar não está garantida e temos um mercado dominado pela grande distribuição que esmaga os preços à produção. Um Presidente da República não governa, mas deve garantir que se cumpra a Constituição, incluindo nas disposições que dizem respeito às atividades económicas.
Que prioridades identifica?
Diria que existem três grandes exigências neste momento: Portugal sacrificou muito da sua capacidade agrícola em nome do mercado comum, é preciso assegurar uma ampliação das verbas da PAC em vez do corte que está em preparação a partir da UE.11; Os agricultores não podem continuar a ser esmagados pelo poder da grande distribuição e dos grupos económicos e são necessários mecanismos que garantam preços justos pagos à produção, esta é uma questão transversal a todos os sectores do sector agroflorestal; É preciso dar outra prioridade à agricultura familiar, nos apoios, no comércio da produção, na modernização tecnológica, no investimento público.
Temos uma grande dependência externa, e sectores onde somos autossuficientes – como o leite – estão comprometidos.
Sabendo que um PR atua mais como um catalisador e orientador estratégico, que tipo de ações promoveria para o desenvolvimento do sector agrícola e florestal?
O sector agrícola representa muito mais que uma mera atividade económica. Dele depende a nossa soberania alimentar, a vida de centenas de milhares de agricultores, a forma como gerimos e ocupamos o território e nos relacionamos com o ambiente. No entanto, sinto que o poder político não tem tido esta visão. Sinto que os interesses nacionais são muitas vezes relegados para segundo plano perante as imposições de grandes potencias na UE. Sinto que o mundo rural apenas tem visibilidade perante grandes tragédias como as dos incêndios. Sinto que muitas organizações de agricultores não são ouvidas. Sinto que a Constituição da República não é cumprida em muitos aspetos que esta determina.
Neste tema, que presidência da República defende?
O País precisa de um Presidente da República que coloque a soberania alimentar como um desígnio nacional. Que dê voz à agricultura familiar. Que não se conforme perante tratados comerciais – como o do Mercosul/UE – e se atreva a dar a sua opinião. O País precisa de um Presidente da República que questione o governo perante cortes no orçamento para a agricultura como aconteceu este ano. Não me calarei perante um agricultor que recebe cinco ou seis vezes menos do que o preço que o consumidor paga no hipermercado. E em relação à floresta, depois de tanto e tanto relatório sobre os incêndios florestais, está claro que o que é preciso é concretizar o que há muito está decidido. Se não existir um significativo investimento público na floresta, esta vai continuar a arder.
O País, no seu todo, precisa não só de investir na captação, armazenamento e distribuição de água.
Qual é o seu posicionamento sobre a expansão do regadio em Portugal, nomeadamente, através da Água que Une?
O País, no seu todo, precisa não só de investir na captação, armazenamento e distribuição de água, como continuar a garantir que se trata de um bem público. Quero assinalar que acompanho com atenção o que tem vindo a ser desenhado em torno desse projeto a que o governo designou por Água que Une. E sobre isso duas palavras: o investimento público deve ser orientado para satisfazer as necessidades do país e não outros fins. Tenho dúvidas de que seja o País a suportar os custos da agricultura superintensiva. Quanto a um segundo e crucial aspeto, o governo falou num investimento de 5 mil milhões de euros até 2030, mas não explicou como.
Esta entrevista integra um conjunto de interlocuções que o Agroportal está a realizar aos candidatos à Presidência da República.
Fonte: Agroportal Redacção/ Sara Pelicano















































