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Entrevista Julián Reynolds. Do cinema à geologia, até aos vinhos no Alentejo

por Jornal de Negócios
11-05-2023 | 23:30
em Nacional, Últimas
Tempo De Leitura: 5 mins
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O produtor da casa Reynolds, existente há mais de 200 anos, tem histórias para contar desde que o seu tetravô chegou ao Porto no início do século XIX. Uma narrativa que passa por Inglaterra, Espanha, Nova Zelândia e Portugal. Mas a palavra certa para Julian Cuellar Reynolds é: raiano.

Ahistória da sua família no sul da Europa começa na segunda década de 1800 no Porto, com o seu tetravô a estabelecer-se no Porto. Quem era Thomas Reynolds?

O meu tetravô que se estabeleceu no Porto era um homem do mar e um comerciante que levava mercadorias para Londres onde tinha um armazém. Enviava produtos com muita procura no Reino Unido, não só de Portugal, mas também de Espanha. O azeite e a cortiça, que na altura começava a ser utilizada na indústria. Viu essa oportunidade de negócio e acabou por instalar-se no Porto no início do século XIX, entre os anos 20 e 24, não sabemos exatamente, porque nos falta esse documento.

Abriu uma empresa, mas os seus filhos já saíram do Porto…

Instalou-se com a firma Thomas Reynolds & Sons. Na segunda geração – estamos a falar do meu trisavô e do seu irmão – Thomas (com o mesmo nome do pai) e Robert Reynolds foram para o sul interessados na indústria da cortiça. A indústria utilizava cortiça para as juntas dos motores. Criaram a primeira fábrica em Alburquerque, Espanha, em 1833, abriram outra em Portalegre e acabaram por possuir 14 fábricas entre Espanha e Portugal. De Portugal levavam o produto pelo rio Tejo até Lisboa e daí para Inglaterra. Também embarcavam muita cortiça através do porto de Sevilha, que levavam através do rio Guadalquivir.

Thomas e Robert Reynolds, da segunda geração, ficaram pela Raia, mas não eram os ingleses típicos…

Na altura, quando os britânicos iam para outros países, formavam comunidades e nunca se misturavam. Mas estes meus antepassados, o meu trisavô e o seu irmão misturaram-se completamente com os portugueses e com os espanhóis. Um casou-se com uma espanhola e outro com uma portuguesa. O Robert nunca mais saiu da região e o Thomas, mais velho, foi para a Nova Zelândia e nunca mais voltou. Uma curiosidade interessante: eles eram protestantes e quando se apaixonaram por aquelas damas não podiam casar porque não era permitido pelos dois países católicos.

Então, como fizeram?

O Thomas enamorou-se de uma rapariga que trabalhava numa das fábricas no Alentejo e foi um escândalo. Fugiu com ela, casaram-se na embaixada britânica em Lisboa e partiram para a Nova Zelândia. Levaram um rebanho de ovelhas merinas que introduziram na Nova Zelândia, hoje o maior produtor do mundo de carne de ovelha merina.

Thomas partiu e o seu trisavô Robert ficou por cá.

Certo. Ambos ficaram totalmente arruinados financeiramente. Tinham investido num banco em Sevilha que foi à falência. Ficaram sem nada. Tiveram de vender património e isso também ajudou à decisão de Thomas para ir para a Nova Zelândia. O Robert ficou cá para tentar vender o resto e seguir o mesmo percurso. Isso só não aconteceu porque tinha boa cabeça, começou a gerir o negócio de maneira diferente e foi quem realmente desenvolveu a indústria da cortiça com grande sucesso. Chegou a ter, na sua curta vida que durou até aos 52 anos, 50 propriedades no Alentejo de cortiça e fábricas em Portugal e Espanha e uma em Perpignan em França.

Robert casou-se em Espanha?

O meu trisavô também tem uma história engraçada. Casou com uma senhora de Jerez de los Caballeros, na zona sul da Estremadura espanhola, filha de proprietários de grandes herdades. Quando o pai e as gentes do lugar perceberam que o inglês andava a namorar com esta rapariga, expulsaram-no. Mas a rapariga tinha um só irmão que era cónego da Catedral da Badajoz e o Robert decidiu falar com ele para lhe oferecer uma viagem a Roma para visitar o Santo Padre e solicitar uma bula papal para se poder casar. E assim foi. O cónego ficou como um cúmplice ideal para os dois.

Foram viver para Portugal?

Casaram e o Robert e a sua mulher instalaram-se, até à sua morte, em Estremoz. Ali viveram com os quatro filhos e duas filhas. Alguns nasceram lá, outros em Londres, mas viveram todos lá.

Um deles, o seu bisavô.

O primogénito também era Robert, o meu bisavô e o seu irmão, o segundo, John Reynolds, foram quem realmente iniciou a produção de vinhos tranquilos. Já tinham produzido vinhos do Porto, no Norte. Robert ficou com a marca Robert Reynolds Wine Growers, e o irmão John ficou a morar na Quinta do Carmo que era parte do património da Reynolds Estate, e começou a produzir um vinho chamado Quinta do Carmo. Morreu jovem e sem filhos. Estava casado com a senhora Isabel Bastos e, quando ela morreu, muito mais tarde, a quinta passou para a família Bastos.

Mas tinha mais propriedades.

John também tinha uma herdade, Mouchão, perto da Herdade Dom João, que era casa-mãe da Reynolds. O Mouchão ainda continua nas mãos da família através de Rafael, o irmão mais novo do meu bisavô. Realmente foram três marcas criadas pela família. A primeira, Dom João, a segunda, Quinta do Carmo, e a terceira, Mouchão.

Mas não era o vinho que os levava a comprar as propriedades…

A família comprava-as por causa da cortiça, só que em algumas delas havia outros produtos como as vinhas. O Robert começou a ter interesse em produzir o seu próprio vinho, nos anos 1880, que foi quando introduziu, pela primeira vez no Alentejo, a casta Alicante Bouschet.

A seguir, o seu avô […]

Continue a ler este artigo no Jornal de Negócios.

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