Covid-19 trouxe corrida os cabazes. O futuro da alimentação é local?

Covid-19 trouxe corrida os cabazes. O futuro da alimentação é local?

O estado de emergência causado pela pandemia levou a um pico na procura dos cabazes de frutas e vegetais vendidos directamente pelos produtores aos consumidores. Na rede nacional de cabazes PROVE, só na região de Setúbal registaram-se mais 900 consumidores no último mês. 

Criado há mais de dez anos para escoar produtos de qualidade de pequenos agricultores familiares, a rede de cabazes PROVE tem vindo a crescer em todo o país. São já 7000 consumidores registados num circuito que liga os produtores directamente ao consumidor, através da venda de cabazes. Mas os números do último mês surpreenderam todos. Só na região de Setúbal, sede da Adrepes (Associação de Desenvolvimento Regional da Península de Setúbal), que gere o projecto PROVE, há 15 a 20 novos consumidores por semana. Mais 900 consumidores entraram na rede só no último mês

“A ideia é aproveitar este crescimento para que isto não seja uma realidade temporária”, diz ao PÚBLICO Joaquim Carapeto, presidente da Adrepes. Cresceram também os pedidos de entrega ao domicílio, motivados pelo confinamento em estado de emergência. No PROVE, alguns produtores têm prestado esse tipo de serviço, em particular a clientes com idade superior a 70 anos ou com doenças crónicas. As entregas fazem-se na sua grande maioria como até aqui, nos núcleos regionais onde se instituiu a utilização de luvas e máscaras e muitos optaram por aceitar os pagamentos antecipados por transferência bancária. 

“As pessoas viram-se fechadas em casa e uma das primeiras perguntas que fazem é: ‘como é que me vou alimentar?’”, diz-nos Alfredo Cunhal Sendim, agricultor biológico e proprietário da Herdade do Freixo do Meio, no Alentejo, que também viu as encomendas disparar. Inicialmente, defende, foi “um acto de medo” e não um pensamento profundo sobre uma alimentação saudável que motivou o pico da procura, mas acredita que a crise pode abrir de novo a discussão em torno da importância de um consumo e de uma agricultura sustentáveis.

No Algarve, há produtores a quadruplicar as vendas. “Estamos a falar de pequenos produtores que estavam fora do circuito económico tradicional”, explica Artur Gregório, da Associação de Desenvolvimento Local In Loco. Apesar das dificuldades que produtores de pequena dimensão têm na adaptação a novas plataformas digitais onde é possível encomendar directamente aos produtores, Artur Gregório diz que o balanço é positivo. “Os produtores estão a organizar-se, a estruturar-se”. A verdade é que na plataforma digital Prato Certo (onde é possível encontrar uma listagem de produtores e cabazes disponíveis a nível nacional), dinamizada pela Associação In loco, o crescimento da procura fez-se a par de um aumento da oferta: “Tínhamos até à data cerca de 70 produtores inscritos. Nas últimas duas semanas passámos para 166”, diz ao PÚBLICO. Com o encerramento dos mercados locais onde escoavam habitualmente os seus produtos, a ligação directa com o cliente é tanto uma tábua de salvação como uma oportunidade para o futuro. 

Fora do circuito económico de grande escala, os pequenos produtores garantiram prazos de entrega e segurança no contacto com os consumidores. No final de Março, o Ministério da Agricultura lançou mesmo uma campanha – “Alimente quem o Alimenta” – incentivando o consumo de produtos locais e o recurso aos mercados de proximidade. Mas quem está no terreno espera mais. Artur Gregório aponta para a necessidade de aproveitar o momento disruptivo trazido pela pandemia para tornar os portugueses menos dependentes do grande retalho e mais próximos de uma alimentação sazonal e saudável.  Já o proprietário da Herdade Freixo do Meio anseia por um sistema mais de apoio mais estruturado a práticas agrícolas que se baseam na agroecologia. “Não vamos resolver a alimentação de Lisboa, mas é preciso investir em sistemas alternativos”, defende Alfredo Cunhal Sendim.

O artigo foi publicado originalmente em Público.

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