“Coligação” entre a Covid-19 e os “Estados de Emergência” faz da minha Aldeia uma Aldeia Fantasma !… – João Dinis

“Coligação” entre a Covid-19 e os “Estados de Emergência” faz da minha Aldeia uma Aldeia Fantasma !… – João Dinis

Sim, o problema da minha Aldeia não é ter Gente a mais… O problema da minha Aldeia é ter Gente a menos, normalmente.

O nosso problema, na minha Aldeia e nas outras que conheço, não é haver ar puro a mais, não é haver horizontes livres e espraiados por montes e vales e planícies.

Na minha Aldeia, o nosso problema é que estão a fazer-nos ter medo de respirar ar puro…é fazerem-nos crer que é perigoso alargarmos os nossos olhos por esses horizontes…e subirmos ao alto daquela colina – que, aliás, ali mesmo está há centenas de milhões de anos ! – e arfarmos na caminhada, sem máscaras…

Eu cá, confesso, já tenho receio em beijar a minha companheira…até a minha filhota… Um vizinho meu lamenta-se que não o deixam visitar a mãe que está acamada num Lar, aqui pertinho… Irra ! Que raio de vida !

Enfim, sabemos que anda por aí um “bicho ruim”, uma tal de “Covid 19”, a tentar tramar-nos a vida. E sim, convém termos alguns cuidados, mas também exageram nisso !

Os “senhores” governantes que pretendem mandar nisto tudo (…), até nos vírus, mandam-nos ficar fechados dentro da “gaiola”, sem arejarmos a não ser pelas janelas abertas… por onde entra o frio… E decretam-nos sucessivos “estados de emergência” e “estados de sítio”… Dizem-nos que nos fazem isso “para nosso bem” ?!… Será mesmo assim ou é de desconfiar de tanta “bondade”?… É que, de facto, não é necessária tanta “violência institucional” com estas restrições todas, a fecharem-nos em casa, dias e noites seguidos !

Por aqui, nas nossas Aldeias muito rurais, para a pouca Gente que ainda por cá teima em viver, não chegaria o uso da máscara, o distanciamento social para evitar alguns ajuntamentos maiores, o não viajar para outros concelhos ? Estamos convencidos que isto seria suficiente e nós também receamos a pandemia.

Entretanto, esses mesmos governantes (e outros “senhores”) não são capazes de atinar num plano de vacinação rápido, claro e eficaz ! Sim, por exemplo, quando vão ser vacinados – onde e com que tipo de vacina – todos os nossos idosos ? É que a Rainha de Inglaterra já foi vacinada quase de certeza. Enfim, “somos todos iguais mas há uns mais iguais do que outros!”… Porém, pode vir a acontecer, e em breve, que com as demoras (políticas…) na vacinação, em Portugal, muitos dos nossos idosos corram o risco de vir a morrer (com Covid) “na praia” dessa espera, quiçá a suspirarem pelas vacinas !…

E nós sabemos que, neste momento, muitos milhares de idosos há noutros países que já foram vacinados e que vão ser vacinados muitos mais nos próximos 30 dias … Então e para nós ? Então para nós, estes governantes, que se dizem tão nossos “amigos”, afinal dão prioridade aos “estados de emergência“ e aos “estados de sítio” em prejuízo da vacinação rápida e eficaz?

Largo da Capela – em Vila Franca da Beira (Oliveira do Hospital)

Apagaram-nos o “Cepo de Natal e Ano Novo” ! Congelaram as nossas Tradições !

Saí à rua na minha Aldeia onde quero continuar a ser um “pássaro do campo” que “pássaro de campo” não quer gaiola.

Fui ao Largo da Capela onde já passei muitos fins de ano à volta do “Cepo de Natal e Ano Novo”. Uma tradição crepitante de calor e luz naturais. Mas também “crocante” porque, tantas vezes, tantas vezes, e não por magia mas por tradição, por lá apareciam umas chouriças e umas febras, por vezes um frango, até um borrego. Tudo a colocar nas brasas do “Cepo”, a assar, a “chiar” no lume, até ser degustado e regado com pinga da boa, por norma do Vinho Dão !

Podem até dizer que isso é demasiado básico, demasiado “rural” ou “campónio”. Pois que digam isso e mais ainda… Mas que eu e os outros “rurais” e os citadinos (de visita à Aldeia) que apreciam, possamos continuar a conviver dessa forma ! Aliás, temos pena dos outros, inclusivé dos maiores críticos da tradição, que não sabem o que perdem !…

Sim, trata-se de conviver com prazer – o calor do “Cepo” e as iguarias valem a pena ! — e satisfação pela tradição cumprida. Que estamos (estaríamos…) ali, à volta do “Cepo de Natal e Ano Novo”, os Conterrâneos e outros Amigos, a convivermos uns com os outros. E assim também convocamos (convocaríamos…) os nossas antecessores na Aldeia e no ritual, para ali ficarmos, todos, em paz e satisfeitos (que ninguém se atreve a levar Vinho de má qualidade…) a ultrapassar a dimensão do tempo, nesses momentos ! Mas – bolas ! – não estamos !

Este Ano de 2020, o “Cepo” está apagado. O Largo da Capela e ruas adjacentes estão sem vivalma… Não, não vai haver iguarias. Não vai haver convívio…nem conversatas partilhadas…nem recordações comuns.

“Inventaram” um “estado de emergência” que apagou o “Cepo de Natal e Ano Novo”…que “congelou” as nossas melhores Tradições !

E as ”Janeirinhas” proscritas, também elas !

Das mais agradáveis das minhas recordações da infância ficaram no “pedir as Janeirinhas” – “ou de carne ou de choiriça” – quando a garotada em bandos (nessa época havia muita garotada na minha Aldeia…), com sacolas na mão – corria de porta em porta a interpelar os residentes para lhes “darem as janeirinhas”. Que excitação! Que expectativa !

Mais tarde, em adultos, o estilo dessa tradição manteve-se embora os grupos fossem formados menos espontaneamente e por norma, entravam sem grandes “restrições” pelas bebidas alcoólicas, com o Vinho (sempre) e também com a Jeropiga (“jorpiga”) e a Aguardente de Pêra.

Mas hoje – 1 de Janeiro de 2021 – nem carne, nem choiriça, nem vinho, nem nada ! Nem Crianças, nem Amigos, nem Conterrâneos, nem Gente. Que tristeza !

Quando passar esta “má onda” sanitária, vamos pensar em pedir uma “indemnização” ao Estado e à União Europeia. E vai ser alta “indemnização” que este “prejuízo” todo, a todos nós, até nem tem preço que o pague !

Sim, a Covid 19 e os “estados de emergência” convergem para fazer da minha Aldeia, já antes desertificada, uma Aldeia Fantasma !

Pois eu vos esconjuro !

Viva o Espírito de Natal e os Festejos do Ano Novo à solta pela minha Aldeia !

Viva a vida !

João Dinis

Membro da Direção da CNA, Confederação Nacional da Agricultura

Comente este artigo
Anterior Se paran las subidas en el mercado de las canales de vacuno
Próximo El limón se paga a menos de la mitad que el año pasado

Artigos relacionados

Nacional

PAN defende apoio excepcional a particulares e autarquias para limpeza das florestas

O PAN – Pessoas-Animais-Natureza avançou com a apresentação de um projecto de Lei que visa o reconhecimento e aprovação de uma situação […]

Dossiers

MAI e Agricultura são os únicos ministérios com cortes orçamentais

[Fonte: Sol]
Entre os 16 ministérios do governo apenas duas tutelas vão sofrer um corte nas verbas disponíveis para 2019: o Ministério da Administração Interna (MAI) e o Ministério da Agricultura, […]

Últimas

XI Congresso Nacional do Milho -7 e 8 de Fevereiro 2017 – Lisboa

No próximo mês de Fevereiro a  Anpromis, a  Associação Nacional dos Produtores de Milho e Sorgo, organiza o XI Congresso Nacional do Milho 2017. […]