Carta aberta da ACBM ao Senhor Reitor da Universidade de Coimbra

Carta aberta da ACBM ao Senhor Reitor da Universidade de Coimbra

Carta aberta ao Magnífico Reitor da Universidade de Coimbra

Exmo. Senhor Professor Doutor Amílcar Celta Falcão Ramos Ferreira

A Associação de Criadores de Bovinos Mertolengos não podia deixar de dirigir-se a V. Exa. na sequência do discurso de abertura proferido na abertura do ano lectivo da Universidade de Coimbra.

Com grande surpresa tomámos conhecimento de que esta instituição irá retirar da ementa das suas cantinas a carne de bovino a partir de Janeiro de 2020, medida esta integrada num grupo de acções com vista à neutralidade carbónica na Universidade de Coimbra.

Senhor Reitor, as alterações climáticas são uma realidade da qual os agricultores portugueses e os criadores de bovinos Mertolengos em particular estão bem cientes pela simples razão de que são os primeiros a sentir o seu efeito. Como sabe, ser agricultor é uma actividade de risco e estar sujeito ao clima. Todos nós concordamos com a redução de emissões e queremos mitigar o problema. Não queremos que os nossos netos deixem de ser agricultores.

Contudo Senhor Reitor, anunciar o objectivo de atingir a neutralidade carbónica dizendo que irá implementar um pacote de medidas e a única identificada é banir a carne de bovinos das cantinas, parece-nos uma atitude impensada e demagógica. É o mais fácil de decidir e com grande impacto.

Por outro lado, Senhor Reitor, consideramos a eliminação da carne de bovino das cantinas de Universidade de Coimbra uma medida discriminatória. Não é justo limitar a opção de escolha alimentar e muito menos obrigar quem pretenda consumir carne de bovino a não utilizar a cantina.

Não pensou o Senhor Reitor no cenário que um anúncio destes traria?

Se pensou quais foram as razões de tão isolado anúncio?

Qual a razão para falar apenas na eliminação da carne de bovino e não apresentar o plano com identificação das medidas concretas a tomar na Universidade de Coimbra para atingir a neutralidade carbónica? Não basta referir exemplos: “… reciclagem, reordenamento do tráfego, diminuição do uso de combustíveis fósseis...”.

Como todos sabemos, de acordo com o IPCC – Intergovernmental Panel on Climate Change, na produção mundial de emissões nocivas, a agricultura representa 13% e deste valor, toda a produção animal é responsável por cerca de 8%. Ou seja, os bovinos (em produção ou não) no mundo são responsáveis por menos do que 8% das emissões nocivas. Nos mesmos 13% responsabilidade da agricultura mundial, a fertilização e a produção de arroz em conjunto representam 3,38% das emissões totais no globo. Será que o Senhor Reitor na abertura do próximo ano lectivo, irá anunciar a eliminação do arroz e outros produtos agrícolas da ementa das cantinas da Universidade de Coimbra?

Senhor Reitor, na Raça Bovina Mertolenga estamos bem cientes do problema e por esta razão temos vindo a trabalhar em parceria com o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária e a Universidade de Évora, na selecção e melhoramento dos nossos animais, bem como na procura de soluções noutras áreas da produção, com vista à mitigação das emissões nocivas para o ambiente. Um dos exemplos mais emblemáticos é o controlo da eficiência alimentar na testagem de machos Mertolengos aprovados como futuros reprodutores. Basicamente o objectivo é seleccionar os animais que, para o mesmo nível produtivo, necessitam de menor quantidade de alimento e consequentemente são emissores de menor quantidade de metano.

Convém também não esquecer que os bovinos de carne fazem parte de sistemas produtivos que utilizam as pastagens na sua alimentação e que estas são um importante factor no sequestro de carbono, como aliás ficou mais do que comprovado em Portugal com o projecto Terraprima. Sem os ruminantes e particularmente os bovinos, o ciclo natural das pastagens não ocorreria e estas acabariam por desaparecer com consequente redução no sequestro de carbono. Por último referimos ainda a importância da existência destes animais no contexto social como factor de combate à desertificação rural e função de “sapador” na limpeza de material combustível.

Considerando que o anúncio da eliminação da carne de bovino nas cantinas da Universidade de Coimbra foi um equívoco, despedimo-nos com os melhores cumprimentos.

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