Café dos Açores é uma “cultura com grande interesse comercial”

Café dos Açores é uma “cultura com grande interesse comercial”

A área de produção de café nos Açores registou nos últimos quatro anos um crescimento de 40%. Um dos segredos mais bem guardados da região, e o único na Europa, o café açoriano é, de acordo com João Ponte, Secretário Regional da Agricultura dos Açores, “uma cultura com grande interesse comercial” que pode ser um “um meio para aumentar o rendimento dos produtores”.

Foi há cerca de 40 anos que Manuel Nunes comprou um terreno com plantas de café nas traseiras. Durante várias décadas aproveitou-o para consumo caseiro, sem nunca pensar que um dia o poderia vir a servir aos clientes que visitam o café da família na Fajã dos Vimes, na ilha de São Jorge.

Com 67 anos, Manuel Nunes cresceu com o aroma do café produzido pelos seus avós, mas só em 1995 é que se lembrou de rentabilizar o café que “tínhamos a mais em casa”. Hoje, o Café Nunes é um ponto turístico muito conhecido em São Jorge e as plantas das traseiras passaram a 800, numa pequena área de 0,2 hectares que todos os anos é visitada pelos turistas interessados em conhecer a produção de café.

Com uma produtividade anual de 1000 quilos brutos, a família Nunes consegue produzir cerca de 300 quilos de grão verde limpo da espécie Arábica que é “rica em aroma, muito frutada, doce e ligeiramente ácida e, em especial, com um teor de cafeína menor em comparação ao comercial”, conta Dina Nunes, filha de Manuel Nunes, com 33 anos.

Todas estas características são possíveis graças às condições edafoclimáticas especiais da região. “A ilha de São Jorge apresenta uma extensa linha de costa, como resultado da sua configuração alongada e aspeto montanhoso. Ao longo da orla costeira surgem as famosas Fajãs formadas por deslizamentos de terra e por escoadas lávicas. As Fajãs são um terreno plano de pequena extensão, situado à beira mar e com boas zonas cultiváveis. Estas Fajãs são uma singularidade diferenciadora da ilha, pela relação harmonizada entre o homem e a natureza e pelas paisagens e biodiversidade. Não é por acaso que as Fajãs de São Jorge se integram na Reserva da Biosfera pertencente à Rede Mundial da UNESCO”, explica Dina Nunes

“Agora, se compararmos com outras produções de café da variedade Arábica no mundo, estas normalmente crescem entre os 800 e os 2000 metros de altitude em regiões tropicais localizadas entre o Equador e o Hemisfério Sul, enquanto o nosso café, curiosamente, cresce em baixa altitude, abaixo dos 300 metros até quase ao nível do mar, com uma humidade relativa do ar, em média, acima dos 79%, e temperaturas médias anuais do ar que oscilam entre os 12ºC no inverno e os 25ºC no verão, e localizado no Hemisfério Norte. Estas condições edafoclimáticas, juntamente com a riqueza dos solos das Fajãs, dão condições de excelência para os cafezeiros sobreviverem”, acrescenta.

Todas estas características permitem ainda que toda a produção da família Nunes seja totalmente biológica. Sem pragas ou doenças visíveis, a produção de Manuel Nunes não precisa de nenhum produto fitossanitário, recorrendo apenas a cascas e borra de café, estrume e folhas e ramos das podas como fertilizante.

Já a colheita, que decorre entre maio e o final de agosto, tem vindo a alterar-se nos últimos anos. “Temos notado que as alterações climáticas estão a afetar a época da colheita, que tem tido uma variação de um mês por ano. Ou seja, este ano a colheita começou no final de março e pelas nossas contas e observação da flor estamos a prever que a próxima colheita se inicie no final de fevereiro. Isto pode afetar o nosso método de secagem ao natural, uma vez que o clima ainda não é propício nessa altura”, lamenta Dina Nunes.

A colheita é feita manualmente, grão a grão, e depois é colocada em eiras ao sol durante duas ou três semanas para secar até que a casca fique escura. Depois, remove-se a casca manualmente, esfregando os grãos de café com uma pedra, e escolhe-se os grãos à mão para se retirar todas as impurezas. Já a torrefação é feita ao lume, numa frigideira, até que se obtenha a cor desejada.

Dina Nunes explica que o café que obtêm é apenas para consumo próprio e para ser servido no café da família, até porque entendem que “nunca poderemos vir a competir contra os grandes mercados do café. Mas temos um produto de excelência, de qualidade, biológico e com história, dedicação e paixão” que está até registado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial, para proteger a sua origem.

Além da família Nunes, há muitas outras famílias açorianas a produzir café, de forma artesanal, para consumo próprio. Não se sabe bem há quanto tempo terá sido introduzida a cultura do café nos Açores: os agricultores e cafeicultores da região acreditam que a responsabilidade poderá ser dos emigrantes açorianos que regressaram do Brasil entre os séculos XVIII e XIX e dos portugueses que regressaram das antigas colónias de Portugal depois do 25 de abril de 1974.

Organizar e profissionalizar a produção

José Bernardo, agricultor açoriano e presidente da Associação dos Produtores Açorianos de Café (APAC), também cresceu com os aromas do café. As saudades da infância passada numa fazenda no Kwanza-Sul, em Angola, levaram-nos a dedicar-se à produção de café depois de se reformar de uma vida dedicada à função pública.

“Tirei o curso de Regentes Agrícolas, mais tarde tirei Agronomia e com o 25 de abril fui para a África do Sul, depois para os EUA e mais tarde regressei aos Açores. Agora que estou reformado, dedico-me à agricultura, com saudosismo da minha infância. É isto que gosto de fazer e é a fazer isto que me sinto feliz”, conta.

Há mais de 40 anos que tinha “uma dúzia de plantas de café praticamente abandonadas”, mas o tempo proporcionado pela reforma levou-o a “investir na cultura do café”. Neste momento, tem mais de 3 mil plantas e é “o maior produtor da Europa”.

“Comparativamente com os grandes produtores mundiais, esta é uma microprodução de café, no entanto, aqui nos Açores e na Europa, eu sou o maior produtor de café. Na Europa não se produz café em mais lado nenhum porque a planta do café não resiste às geadas. Nós aqui nos Açores não temos geadas. O nosso clima subtropical proporciona boas condições para a produção de café. Além disso, todo o café é produzido em baixa altitude, que em princípio não deve ultrapassar os 150 metros de altitude, caso contrário começa a ser frio de mais”, revela.

A Arábica, espécie de café que se produz nos Açores nas variedades Caturra e Yellow Bourbon, é uma das mais apreciadas em todo o mundo “por ter um teor de cafeína baixo, mas ser muito aromática”. José Bernardo conta que a sua produção nunca foi afetada por pragas e doenças e que os poucos problemas que tem têm a ver com os temporais que por vezes assolam a região. “É uma planta que resiste perfeitamente e, neste momento, está a produzir bem. Mas é uma cultura que precisa de abrigo porque aqui temos ventos muito fortes. Usamos cortinas de abrigo, com corredores de árvores autóctones que são resistentes ao vento e que protegem o café do vento forte e dos ciclones”, explica.

Outra das particularidades da produção de café nos Açores é que, devido ao clima subtropical, as plantas chegam a produzir duas vezes por ano, um fenómeno que, de acordo com o presidente da APAC, “não é normal. No Brasil e em África só produzem uma vez por ano.”

“Por um lado é bom, mas aqui temos um problema de mão-de-obra. Não temos quantidade nem volume que justifique a mecanização para a colheita do café e tem de ser tudo feito à mão. Como pretendemos um produto de qualidade e não queremos concorrer de jeito nenhum com o mercado global, temos de ser bastante exigentes na seleção do café. Só apanhamos os bagos que estão perfeitamente maduros e isso requer muita mão-de-obra. Colher o café e descascar manualmente não é economicamente viável”, conta ainda.

Foi precisamente para tornar a sua produção economicamente viável que, em 2015, decidiu juntar-se a outros produtores de café açorianos – que produziam apenas para consumo próprio – para criar a Associação dos Produtores Açorianos de Café (APAC). Juntos, pediram ajuda ao Governo Regional dos Açores que este ano já entregou as máquinas de que precisavam para organizar, profissionalizar e industrializar a produção.

“Se cada um dos produtores o fizesse individualmente seria um investimento muito grande. Agora que as máquinas já cá estão, vamos começar a produzir o café de todos os associados da APAC. Depois de apanhado, o café tem de ser espolpado e agora já temos uma máquina de espolpa de café. Depois de ser espolpado tem ainda de ser seco, até ter uma humidade inferior a 12%, o que é difícil porque aqui nos Açores temos humidades relativas bastante elevadas. Depois disso tem ser submetido a uma segunda descasca, para se retirar uma pequena película que o grão tem, e agora existe uma máquina específica para fazer isso. Só depois de tudo isto é que é feita a torrefação, que também uma ciência e tem os seus segredos específicos para todos os tipos de café”, explica ainda.

Diversificar a produção agrícola dos Açores

Todos esses segredos serão partilhados pela Delta Cafés, que em maio de 2019 anunciou uma parceria com a APAC, assumindo o compromisso de nos próximos 15 anos colocar nos lineares o primeiro café 100% português e o primeiro produzido na Europa.

Rita Tomé Duarte, Diretora da Unidade de Negócio Delta Q, explica em declarações à VIDA RURAL que este acordo com a APAC tem como objetivo “a cooperação em todas as etapas da produção, preparação e comercialização do café dos Açores durante os próximos 15 anos e que se estima poder envolver diretamente 500 cafeicultores de todas as ilhas do arquipélago.”

De acordo com Rita Tomé Duarte, em abril, quando foi celebrado o protocolo com a APAC, as poucas plantas de café que existiam nos Açores tinham “um valor comercial residual, visto a maioria do café ser desperdiçado ou usado para consumo próprio, devido ao escasso conhecimento específico sobre café por parte dos produtores. Após duas missões conjuntas no terreno [que contaram com o apoio de dois técnicos brasileiros], realizadas no decorrer de 2018 e abril de 2019, foi possível aferir que, dadas as características únicas do território do arquipélago dos Açores, era possível o cultivo com sucesso de café de especialidade, trazendo assim valor económico para as comunidades locais e ajudando na diversificação das culturas, que se mantêm ainda muito dependentes da indústria dos lacticínios e carnes.”

Com a celebração deste protocolo, a Delta Cafés tem apoiado, através do seu expertise, os 40 associados da APAC em todas as fases do processo de produção. “Numa primeira fase do projeto, no início de 2019, foi feito um levantamento exaustivo e produzido um relatório e dado aconselhamento técnico, desde a colheita à moagem e degustação aos cafeicultores associados da APAC. Na segunda fase do projeto, a iniciar em março de 2020, serão testadas a introdução de novas variedades de café mais competitivas e economicamente viáveis e será feito, em conjunto com a APAC, um plano estratégico a cinco anos para toda a cadeia produtiva do café. O objetivo é que, à medida que os resultados vão aparecendo, e respeitando sempre a natureza e o seu tempo, cada vez mais cafeicultores se juntem a este projeto e, desta forma, possam ser parte ativa no incremento do sector do agroturismo, promovendo um sector socioeconómico rentável para todos”, acrescenta ainda Rita Tomé Duarte.

Tanto a Associação dos Produtores Açorianos de Café como a Delta Cafés dizem que ainda “é prematuro estarmos a falar de quantidades de café açoriano”, mas a Delta não tem dúvidas de que a criação de um café ‘Made in Açores’ será uma realidade “nos próximos tempos”.

“O protocolo celebrado entre a Delta e a APAC é a 15 anos, pois estamos a falar da criação de uma indústria que está numa fase embrionária e há passos que não podemos negligenciar e que necessitam de algum tempo para serem consolidados. Como acreditamos no valor do projeto para todas as partes envolvidas, tanto a nível social, ambiental e económico, o investimento em formação e acompanhamento no terreno serão prioritários para garantir que o café açoriano apresentará consistência ao longo dos anos e que se tornará num café de especialidade de elevado valor reconhecido”, conclui Rita Tomé Duarte.

Já José Bernardo diz que acredita no potencial da cultura como forma de aumentar e diversificar as fontes de rendimento dos produtores açorianos. “Esta é uma cultura muito importante, sobretudo, porque a produção de leite está neste momento com algumas dificuldades. O café pode ser um complemento à produção de leite, mas será sempre um complemento à vaca leiteira e nunca uma alternativa”, defende.

Uma cultura com grande interesse comercial

Esta é também uma posição defendida por João Ponte, Secretário Regional da Agricultura dos Açores, que acredita que com “a plantação de novas plantas registada nos últimos anos, é expectável que nos próximos anos a produção de café [nos Açores] cresça substancialmente”.

Em declarações à VIDA RURAL, o Secretário Regional da Agricultura dos Açores, explica que a cultura tem contribuído para “a diversificação agrícola” da região, registando nos últimos quatro anos um crescimento na área de produção de 40%.

“Embora a planta do café tenha sido introduzida na região entre os séculos XVIII e XIX como planta de interesse produtivo e ornamental, só nos últimos dois ou três anos é que a produção está mais organizada e tem um intuito mais comercial. Até aqui, devido aos modos de produção e transformação, que foram sempre muito artesanais, morosos e pouco rentáveis, o café não tinha qualquer expressão agrícola. Com esta alteração de paradigma, o café surge como uma cultura com grande interesse comercial e apetência produtiva nos Açores, constituindo-se como mais um meio de aumentar o rendimento dos produtores”, acrescenta João Ponte.

O Secretário Regional da Agricultura dos Açores sublinha ainda que as características edafoclimáticas dos Açores e os solos vulcânicos da região se constituem como “fatores decisivos para a produção de um café singular” e que “a cultura tem margem para crescer em termos de área e de produção.”

“A prioridade, neste momento, passa, pois, por criar condições na transformação e no desenvolvimento de uma marca capaz de valorizar o produto. O anúncio, este ano, da parceria entre a Delta Cafés e a Associação de Produtores Açorianos de Café (APAC) é um bom pronuncio e reveladora do potencial que o café dos Açores tem. Trata-se de uma ligação importante pelo conjunto de competências e de saberes que uma empresa de café como a Delta possuiu nesta área e que seguramente muito ajudará a cultura nos Açores a ganhar um novo impulso”, conclui.

Atualmente, o Governo dos Açores disponibiliza um apoio à produção de café de 1400 euros por hectare. “Os produtores de café podem, ainda, candidatar-se aos apoios das medidas Agroambiente e clima, MAAZD e Agricultura Biológica do programa ProRural+. O Governo dos Açores tem vindo a apoiar, de diferentes formas, os produtores de café à semelhança do que faz com todas as outras culturas agrícolas existentes na Região. Além do apoio técnico, que exige dos técnicos da Secretaria Regional da Agricultura e Florestas uma permanente atualização de competências, o Governo tem apoiado a Associação de Produtores Açorianos de Café, através da cedência de instalações, da cedência de um técnico e na aquisição de equipamentos específicos para a transformação de café”, explica ainda João Ponte.

Recentemente, foi também entregue ao Governo dos Açores, por um grupo de trabalho criado para o efeito, o Plano Estratégico Regional para a Fruticultura que inclui o café, um documento que contempla propostas e objetivos operacionais específicos para esta cultura na próxima década e que deverá ser conhecido em breve.

O artigo foi publicado originalmente em Vida Rural.

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