Brasil: Alfaces consorciadas apresentam bom desempenho em sistemas agroflorestais

Brasil: Alfaces consorciadas apresentam bom desempenho em sistemas agroflorestais

  • Estudo avaliou o desempenho produtivo da alface irrigada em cultivo solteiro e consorciada com rúcula e rabanete em sistemas agroflorestais (SAFs).
  • Os sistemas de consórcio são vantajosos em comparação ao cultivo solteiro da alface, ao produzir maior quantidade de hortaliças (rúcula e rabanete) por unidade de insumos e água.
  • Trabalho também analisou o manejo de solo para utilização de plantas que atuam como adubos verdes em SAFs.
  • Hortaliças são boas alternativas nos primeiros anos de implantação dos SAFs.
  • Resultados apontam para a viabilidade de produzir hortaliças em SAFs, aliando produtividade à sustentabilidade.

Alfaces cultivadas em consórcio em sistemas agroflorestais agroecológicos (SAFs) apresentaram diâmetro horizontal, massa seca e número de folhas similares às produzidas sozinhas nas mesmas condições. Esse foi um dos resultados de estudos realizados por pesquisadores do Núcleo de Agroecologia da Embrapa Meio Ambiente (SP), em parceria com a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq). O objetivo dos cientistas foi encontrar meios de aprimorar os fatores de produção nos cultivos consorciados de hortaliças e de adubos verdes em entrelinhas de um sistema agroflorestal no Sítio Agroecológico da Embrapa Meio Ambiente. Somente nos experimentos a pleno sol (sem sombreamento), a massa seca da alface apresentou diferença significativa entre os dois sistemas, com o valor no cultivo solteiro superior ao do cultivo consorciado.

“Os sistemas agroflorestais agroecológicos (SAFs) apresentam uma combinação de espécies de culturas agrícolas de interesse econômico e de espécies com várias outras funções, entre elas os adubos verdes, que são responsáveis pela ciclagem e fornecimento de nutrientes que melhoram a qualidade dos solos nos seus aspectos físicos, químicos e biológicos”, explica o pesquisador da Embrapa Joel Queiroga.

O cientista frisa que as hortaliças têm se consolidado como uma alternativa interessante de cultivo para os primeiros anos dos SAFs, uma vez que ocupam pequenas áreas e possuem um alto valor econômico agregado. O estudo avaliou o desempenho produtivo da alface irrigada em cultivo solteiro e consorciada com rúcula e rabanete nesse tipo de sistema de produção e a pleno sol.

O que é SAF?

Os sistemas agroflorestais agroecológicos e biodiversos, também conhecidos como SAF’s ou Agrofloresta, são sistemas produtivos que combinam culturas agrícolas com árvores florestais e frutíferas na mesma área, buscando uma utilização mais eficiente dos recursos naturais como solo, água e energia. Podem ser desenhados em diferentes arranjos de espécies, espaçamento e dinâmica de manejo, conforme o interesse do agricultor, as condições locais de solo e clima, e disponibilidade de mecanização e mão de obra.

Constatou-se que a associação de culturas irrigadas promoveu melhor aproveitamento dos fatores de produção e um aumento na produção por unidade de área. “O sistema de policultivo ou consórcio apresentou uma interação positiva no SAF e os sistemas de consórcio apresentaram-se vantajosos em relação ao cultivo solteiro da alface, ao produzir maior quantidade de hortaliças (rúcula e rabanete) por unidade de insumos e água”, relata Laísa Hurpia, da UFSCar.

Os pesquisadores explicam que a olericultura intensiva convencional tende a explorar todo o potencial do solo, água e insumos, para maximizar a produção, exigindo altos níveis de investimento, o que pode causar impactos negativos ao meio ambiente. Para minimizar esses impactos, têm-se adotado sistemas de produção agroecológicos como os SAFs biodiversos, que combinam espécies em uma mesma área e intervalo de tempo, propiciando maior otimização e melhor aproveitamento de insumos, água e mão de obra. Essa combinação pode ser tanto de espécies voltadas para a produção de alimentos como também para a restauração ou manutenção da qualidade do solo, como as plantas que servem como adubos verde, como feijão-de-porco, crotalária, aveia-preta, tremoço-branco, guandu, nabo forrageiro, mucuna, milheto e outras.

Plantas como adubo

Nessa área, outro estudo em entrelinhas de SAF agroecológico teve como objetivo avaliar o estabelecimento de plantas de adubos verdes: aveia-preta, nabo forrageiro e girassol consorciadas sob dois diferentes preparos de solo. De acordo com Queiroga, a adubação verde é uma prática simples e de baixo custo para recuperar a fertilidade do solo, a partir do aumento do teor de matéria orgânica, da capacidade de troca de cátions e da disponibilidade de nitrogênio por meio da fixação biológica quando essa adubação é feita com espécies da família Leguminosa e de outros macro e micronutrientes aportados ao solo por essas espécies.

Além disso, essas plantas melhoram a formação e a estabilização de agregados na infiltração de água e na aeração do solo, também proporcionam melhorias nos atributos físicos do solo, como o aumento da porosidade, redução na densidade e a maior retenção de água, o que tornam as condições do solo mais favoráveis ao desenvolvimento de microrganismos, insetos, animais e plantas.

O analista da Embrapa Waldemore Moriconi conta que os resultados demonstraram que as espécies nabo forrageiro e girassol apresentaram melhor estabelecimento com o preparo mais intensivo de solo. A aveia-preta apresentou melhor estabelecimento com o preparo menos intensivo.

O preparo de solo considerado mais intensivo utilizou roçadeira mecanizada seguido de grade aradora, e o menos intensivo usou apenas enxada rotativa. Os preparos foram concluídos com uma gradagem niveladora com tronco de arraste antes e outra após a semeadura.

O pesquisador da Embrapa Luiz Octávio Ramos Filho destaca a importância do efeito dos tipos de preparos de solo para o estabelecimento das diferentes espécies de adubos verdes e a necessidade de aprofundamento dessas pesquisas para uma melhor definição desses consórcios e preparos de solos visando o melhor estabelecimento dos adubos verdes em SAFs agroecológicos.

Dados sobre as pesquisas podem ser acessados em duas publicações científicas sobre o trabalho com a alface e sobre a avaliação de adubos verdes em SAFs

Adubação verde

É uma prática em que plantas são utilizadas como adubos para o solo. Consiste, basicamente, no plantio de espécies e posterior manejo desse plantio, de forma que os nutrientes acumulados nas plantas, após a decomposição do adubo verde, são incorporados ao solo, permitindo a absorção pela cultura plantada em sequência ou em consórcio.

Espécies para adubação verde

Leguminosas

• Herbáceas/arbustivas: crotalária, mucunapreta, mucuna-cinza, feijão guandu, feijão-de-porco, calopogônio, puerária, amendoim, tefrósia.

• Arbóreas: gliricídia, leucena, ingá, flemingia.

Não leguminosas

• Milho, sorgo, milheto, girassol, capim-elefante, braquiária.

Critérios para escolha das espécies

• Possuir capacidade de fixação de nitrogênio, preferencialmente.

• Apresentar elevada produção de biomassa vegetal e acúmulo de nutrientes.

• Proporcionar rápida e elevada cobertura do solo.

• Possuir sistema radicular vigoroso e profundo.

• Ter produção abundante de sementes.

• Ser adaptada às condições de solo e clima.

Fotos: Gustavo Porpino (adubação verde nos cerrados), Ana Maio (feijão guandu) e Nátia Élen Auras (pré-cultivo de crotalária para fins de adubação verde)

O artigo foi publicado originalmente em Embrapa.

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