Benvindo Maçãs, diretor da Estação Nacional de Melhoramento de Plantas

Benvindo Maçãs, diretor da Estação Nacional de Melhoramento de Plantas

A Estação Nacional de Melhoramento de Plantas (ENMP) do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV) é um local de referência para a agricultura nacional, onde tem sido produzido muito conhecimento depois transferido para quem dele mais necessita, os agricultores.
Numa reestruturação do INIAV há cerca de uma década, a Estação passou a fazer parte da Unidade de Investigação e Serviços de Biotecnologia e Recursos Genéticos numa solução que procurou promover equipas mais horizontais e integradoras. Para o seu diretor, Benvindo Maçãs, é uma solução positiva precisamente por conseguir fazer ligações externas e abrir as equipas a outras ferramentas que lhes estavam mais distantes.
Foi também mais ou menos há uma década que Benvindo Maçãs assumiu este cargo, mas há 36 anos que trabalha na ENMP, tendo desde cedo assumido responsabilidades que lhe trouxeram maturidade e um espírito autocrítico aguçado, numa preocupação constante em conseguir fazer sempre mais alguma coisa.
Olhando para o percurso, próprio e da Estação, diz-se satisfeito, mas não no sentido de trabalho terminado. Há muito para fazer, nomeadamente no ponto de vista científico, onde o grande desafio agora é ajustar as equipas às novas ferramentas tecnológicas e sob a “pressão” do melhoramento genético face às alterações climáticas.

Comecemos a nossa conversa precisamente sobre as alterações climáticas. Recentemente a Estação promoveu mais uma edição do Dia do Agricultor e as páginas dos jornais encheram-se com o anúncio de que em Elvas seria instalado um Laboratório de Combate aos Efeitos das Alterações Climáticas. Do que se trata em concreto?
Não é propriamente um laboratório porque na nossa atividade já desenvolvemos muito trabalho de adaptação da agricultura às alterações climáticas no que se refere ao melhoramento genético.
O que o Sr. Ministro veio comunicar foi uma intenção de considerarmos a Estação Nacional de Melhoramento de Plantas como um local onde se possa fazer experimentação e investigação nesse tema. É um grande desafio mas é o culminar do trabalho que tem vindo a ser feito na procura dessas soluções para as alterações climáticas.
Elvas é uma Estação de Melhoramento Genético que procura criar novas combinações genéticas e utilizar a diversidade genética das culturas para criar novas variedades, mais produtivas, com melhores características qualitativas e tecnológicas, sempre com a preocupação de estarem muito bem adaptadas ao nosso ambiente. Temos um ambiente difícil para a agricultura, há cenários que apontam para a redução do período de chuvas e que a temperatura irá subir mais cedo na primavera (…) pelo que é necessário haver soluções de plantas para adaptar a essas condições.
Inclusivamente, no âmbito dos cereais praganosos, a Estação está a desenvolver um projeto com uma instituição francesa (ARVALIS), no sentido de encontrar um tipo de planta de trigo ideal para se adaptar a essas condições. E para isso acontecer o trabalho tem de ser desenvolvido no local.

Ainda sobre o Dia do agricultor. Como correu?
Temos tido sempre uma grande adesão porque é um dia para o agricultor, é para discutir os sistemas agrícolas e os seus problemas numa reciprocidade de troca de conhecimento, no sentido de ajustar as agendas de investigação àquilo que são os problemas reais da agricultura.
Ultimamente tem havido um grande impulso nessa área que começou com a Parceria Europeia para a Inovação, através dos Grupos Operacionais. Essa foi uma importante forma de reforçar a aproximação dos diferentes agentes (produção, indústria e investigação). Por outro lado, também têm sido criados os Centros de Competências, plataformas muito importantes para promover esse reforço de aproximação. Na Estação está a ser dinamizado um desses centros denominado CEREALTECH – Centro Nacional de Competências dos Cereais Praganosos, Oleaginosas e Proteaginosas – em parceria com a ANPOC – Associação Nacional de Produtores de Cereais – e entidades da indústria, no âmbito do qual está a ser definida uma agenda de investigação própria.

Nota-se que a produção está mais preocupada com o trabalho da investigação?
Nota-se esse interesse crescente, até porque os problemas são cada vez mais e maiores, nomeadamente no que respeita às questões climáticas e todos somos poucos para trabalhar na resolução do problema.

“A Estação investiu muito num Programa de Melhoramento de espécies com interesse para pastagens mas, no âmbito das alterações climáticas estamos preocupados com a provável redução do seu ciclo de crescimento.”

Este ano no Dia do Agricultor também tivemos em discussão a produção de forragens que é outra realidade que nos preocupa. Na mesa redonda juntaram-se vários especialistas que ajudaram a perceber que Portugal já tem mais de 50% da sua superfície agrícola utilizada dedicada a pastagens. É um valor significativo mas uma grande parte dessa área ainda é ocupada com pastagens pobres, o que não contribui para a sustentabilidade da produção animal. Consciente disso a Estação investiu muito num Programa de Melhoramento de espécies com interesse para pastagens mas, no âmbito das alterações climáticas estamos preocupados com a provável redução do ciclo de crescimento das pastagens. Na tentativa de antecipar o problema estamos conscientes de que é preciso melhorar a capacidade de produção de forragens. Estamos a trabalhar no melhoramento de espécies e de misturas de espécies que nos permitam aumentar a produtividade e melhorar a qualidade, porque é disso que se trata do ponto de vista da produção animal. Por outro lado também evitar a importação da “proteína vegetal” para introdução nas rações, de que a Europa é deficitária.

Para ler na íntegra na Voz do Campo n.º 227 (junho 2019)

O artigo foi publicado originalmente em Voz do Campo.

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