Anjo e Demónio: o Javali – João Adrião

Anjo e Demónio: o Javali – João Adrião

“Hércules traz o Javali sobre os ombros, de Erimanto ao palácio de Euristeu, que ao ver o monstro foi tomado de pavor e escondeu-se numa grande ânfora”

(Dicionário de Mitologia Greco-Romana, Bertrand)

Nota pessoal prévia: Não sou caçador. Vejo a caça enquanto ferramenta de estudo e gestão.

Têm, nos nossos dias, um lugar de destaque: os agricultores reclamam medidas urgentes, neles, por essa Europa fora, já foram detectados casos de Peste Suína, são fotografados até “às portas” das grandes cidades… São os Javalis (Sus scrofa).

Símbolo maior dos nossos montes bravios (a etimologia leva-nos ao árabe “iábal” que significa “montês”, e ainda hoje é também conhecido por Porco-montês), o Javali está enraizado na cultura europeia, desde a mitologia e lendas (o grego Hércules ou o lusitano Endovélico), a simbologia variada (legiões romanas, heráldica medieval), arte e decoração, ou a documentos medievais, de Forais a obras literárias de referência. Entre elas o Livro da Montaria de D. João I que, talvez como contraponto ao Libro de la Monteria de Alfonso XI de Leão e Castela (focado no Urso), se centra na caça ao Javali. Possante, corpulento, agressivo, chegou a ser utilizado (por exemplo na festa do Jubileu de Avô, Oliveira do Hospital, de 1635) a par de Ursos e Lobos, em “Lutas de Feras”. O Urso já escasseava, mas Lobos e Javalis abundaram pelos séculos seguintes (Padre Luís Cardozo, 1747. E sugerindo que a abundância de um não condiciona a abundância de outro). A memória perdura, ainda, na sua apreciada carne, com curiosamente um dos pratos atuais, o “javali à romano” a remeter-nos para os banquetes dos tempos do Império, tão bem caricaturados na aldeia gaulesa de Urdezo.

Não obstante esta rica história, em meados do século XX, praticamente não existiam Javalis em Portugal (limitavam-se a algumas serranas raianas e a tapadas), ao ponto da sua caça ter sido proibida em 1967 e de dois anos depois, Baeta Neves o apresentar à IUCN como uma espécie ameaçada. A esta regressão, não terão sido alheios os surtos de Peste Suína Africana.

Todavia, daí para cá, o Javali encetou uma espantosa recuperação. Logo após a proibição, já se clamava por “batidas àquelas feras” (por exemplo Arganil, 1969 – em “A Comarca de Arganil” n° 6521). As primeiras Montarias dos tempos modernos, realizaram-se em 1981, tornando-se importantes eventos em vários locais, e representando anualmente umas poucas dezenas de milhares de animais abatidos (Fonseca e Correia, 2008). Mas a expansão desta espécie (com elevada taxa reprodutiva) não abrandou, encontrando-se nos nossos dias, literalmente, por todo o país.

Esta expansão é uma fonte de problemas para o Homem, que vão da perigosidade do contacto em zonas muito populosas (como cidades ou praias), da colisão com veículos, ou da perda de biodiversidade (por exemplo nas Matas da Arrábida), assim como ao risco de propagação da Peste Suína e afetação do Porco-doméstico (espécie muito importante para nós, da alimentação à medicina), e, claro, aos estragos agrícolas, problema agravado pela dificuldade de adotar medidas restritivas, dados os custos e/ou ineficiência dos métodos de protecção.

Urge, então, gerir as populações deste animal, amado por uns, odiado por outros.

Num quadro de Desenvolvimento Sustentável (de consensual relevo para o futuro do Mundo Rural), a caça afigura-se, assim, como uma indispensável ferramenta de gestão. Com efeito, favorece o crescimento equilibrado das vertentes económica, social e ambiental. Destacam-se vantagens como a valorização económica, turística, gastronómica, ao mesmo tempo que se vai ao encontro da satisfação das populações locais, a que se somam vários benefícios ambientais que vão da conservação de espécies raras da flora, à diminuição e fiscalização do furtivismo e, no limite, à proteção da própria espécie contra a propagação de doenças como a Peste, que, no passado, já o levaram ao limiar da extinção, assumindo o Homem, desta forma, o seu papel ecológico de predador multi-milenar de Javalis.

João Adrião

Gestor Ambiental e Florestal

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