Amorim: “A missão continua a ser dar valor acrescentado à cortiça”

Amorim: “A missão continua a ser dar valor acrescentado à cortiça”

No ano em que assinala os 150 anos da sua fundação, grupo anuncia a intenção de incentivar a plantação de 50 mil hectares de montado de sobro na próxima década. Os primeiros 250 já estão plantados.

Os primeiros 250 hectares já estão plantados, desde há uma semana, entre os quilómetros 74 e 76 da A2 , a auto-estrada do Algarve, em Alcácer do Sal. É com esta plantação, feita numa área onde havia um eucaliptal em fim de ciclo, que o grupo Amorim está a começar a dar escala ao projecto de intervenção florestal iniciado em 2013, em conjunto com a Universidade de Évora. E que, findos todos os testes e ensaios, permitiu chegar à conclusão que ambicionavam: que a rentabilidade do montado de sobro pode ser intensificada, porque o primeiro ciclo de extracção da cortiça pode ser encurtado dos actuais 25 anos para cerca de dez anos. Tal é possível através da introdução de um sistema de regadio gota-a-gota nos primeiros dez anos.

O grupo Amorim já plantou os primeiros 250 hectares, mas o objectivo já está definido para toda a década. No dia em que arrancaram as celebrações dos 150 anos da fundação do grupo, António Rios Amorim anunciou a intenção de mobilizar os produtores florestais a plantarem, em conjunto, 50 mil hectares de sobro nos próximos dez anos. E, destes, o grupo Amorim tem como limite participar directa e activamente na plantação de cerca de 10%. Para já, investiu 1,5 milhões de euros para plantar os 250 hectares em Alcácer do Sal.

“Durante estas apresentações vão ouvir falar de muitos números. Mas aquele que é mais importante que retenham é este: por cada tonelada de cortiça produzida, o montado de sobro sequestra até 73 toneladas de CO2. Portugal quer ser neutro, em 2050, em emissões. O grupo Amorim já tem pegada de carbono negativa em 2020”, afirmou António Rios Amorim, presidente e CEO da Corticeira Amorim, na cerimónia em que lançou o programa de comemorações dos 150 anos da empresa, e que se vão prolongar durante todo o ano de 2020.

Nesta cerimónia, o presidente executivo da Corticeira, e a presidente do grupo, Paula Amorim, e respectivos irmãos, acompanharam uma vasta comitiva de convidados numa visita à fábrica da Amorim & Irmãos, onde se construiu a história da empresa.

A acompanhá-los estava também António Amorim, pai do actual presidente executivo, e que aos 91 anos continua a ser uma figura importante e activa na gestão da empresa.

No final da visita, que terminou na Casa do Fundador, cujas paredes estão revestidas com fotografias e documentos que ajudam a contar a história da empresa – e da família – o grupo Amorim anunciou também um novo rosto, e com uma logomarca idealizada pelo gabinete de Eduardo Aires, que concebeu uma tipografia original para o grupo. A logomarca centra-se no O da palavra Amorim, estilizado como a cortiça que abraça o sobreiro. 

Num cenário de alterações climáticas e numa altura em que Portugal tem de redefinir a sua política de reordenação de território, António Rios Amorim acredita que é chegada a oportunidade de aumentar a produção desta espécie autóctone.

Paula Amorim, filha de Américo Amorim, e “chairman” do grupo, anuiu que o tema da sustentabilidade é hoje “trendy” – perguntaram-lhe se o mediatismo de Greta Thunberg ajudava ao posicionamento do grupo –  mas recordou que ele está no ADN do grupo desde sempre. E agora que os destinos da empresa estão nas mãos da quarta geração da família, as palavras de Paula Amorim foram em primeiro lugar para o tio, António Amorim, que aos 91 anos continua todos os dias a ir trabalhar na empresa, desempenhando varias funções “com muito entusiasmo”, mas também para o primo, António Rios Amorim, “um apaixonado raro pela cortiça”.

“Américo Amorim era uma pessoa com uma grande visão, que não tinha medo e que gostava de assumir riscos e que, sempre que surgia uma oportunidade avançava. É com a mesma ambição dos nossos antepassados, a mesma vontade de criar e deixar obra feita, que encaramos o futuro e perpetuamos este legado. Temos a sorte de nesta fase poder contar com António Rios Amorim, cuja persistência e positiva obstinação revelam que é o gestor certo nesta etapa do grupo”, afirmou Paula Amorim

Nova fábrica na Austrália

Foi por acreditar convictamente nas características únicas da cortiça que o grupo chegou onde está instalado, 150 anos depois da sua fundação: como a maior empresa de transformação de cortiça do mundo, 4431 colaboradores – dos quais 1200 estão fora de Portugal –, 19 unidades industriais um pouco por todo o mundo e que em Abril se prepara para inaugurar a vigésima, em Adelaide (Austrália), num investimento de três milhões de euros.

E se o passado é brilhante, o futuro revela-se igualmente audacioso, porque o grupo continua a perspectivar no negócio das rolhas grande capacidade de crescimento (estando a olhar com atenção para o segmento das bebidas espirituosas, que duplica comparativamente ao vinho o volume de garrafas comercializadas todos os anos a nível mundial).

Com 5,5 milhões de rolhas produzidas anualmente (o que dá uma media de 25 milhões de rolhas por dia), o grupo Amorim prepara-se para, ainda este ano, conseguir dar garantia aos seus clientes que erradicou em todos os seus produtos o indesejado TCA (tricloroanisole), a molécula que deixava o sabor a rolha e estragava algumas garrafas de vinho, e quase ia dando cabo da reputação das rolhas de cortiça. Se o problema já está resolvido nas rolhas de micro-aglomerado de cortiça, este ano de 2020 também poderá ser dada a garantia da sua erradicação nas rolhas de cortiça natural.

A unidade de negócios rolha continua a ser aquela que aporta maior importância aos resultados do grupo (que em 2018 fechou com vendas consolidadas de 763 milhões de euros, com 27 mil clientes e 93% das vendas fora de Portugal).

Mas o grupo Amorim não pretende descura a componente de inovação, e de investigação e desenvolvimento de produto, que lhe tem permitido aplicar cortiça em várias soluções e produtos.

“Foi isso que nos distinguiu sempre dos concorrentes. Acreditamos convictamente na cortiça e na potencialidade das suas aplicações. O montado é um ecossistema único no mundo, um dos 36 hotspots mundiais da biodiversidade, é o habitat de mais de 200 espécies de animais e 135 espécies de plantas por quilómetro quadrado. É uma floresta extraordinária, e a cortiça é um produto extraordinário”, declarou entusiasmado António Rios Amorim, que por várias vezes afirmou: “A nossa missão continua a ser dar valor acrescentado à cortiça”.

O artigo foi publicado originalmente em Público.

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