Alimentação infantil: Não chega ser saudável, tem de ser também sustentável

Alimentação infantil: Não chega ser saudável, tem de ser também sustentável

É sobejamente conhecido que os primeiros anos de vida constituem um período de excelência para a educação alimentar, na medida em que as crianças são bastante permeáveis a novas aprendizagens e ainda estão a formar os seus comportamentos, pelo que a sua modelação é bastante mais fácil do que o que acontece em idades posteriores. Acresce, também, que é cada vez mais enaltecido o papel da alimentação em idades precoces na programação do binómio saúde/doença na idade adulta.

Em Portugal, aproximadamente uma em cada três crianças tem, no mínimo, excesso de peso, colocando o nosso país no lugar cimeiro no que respeita à frequência desta doença, ainda que os últimos estudos pareçam mostrar estagnação ou até uma ligeira inversão da prevalência. A promoção de uma alimentação saudável é, por isso, uma necessidade.

Embora proliferem iniciativas avulsas no âmbito da educação alimentar, a realidade da alimentação das crianças portuguesas parece reclamar a existência de campanhas de educação alimentar mais audazes e robustas, que envolvam também a modelação do ambiente onde as crianças são cuidadas, estudam ou se divertem e onde fazem as suas refeições. É conhecido que as crianças portuguesas em idade pré-escolar consomem demasiados produtos açucarados, snacks doces e salgados, têm uma elevadíssima ingestão de sal e de proteína, sendo que o excessivo consumo de produtos lácteos verificado nestas idades em muito contribui para o aporte proteico excessivo.

Paralelamente, observa-se um baixo consumo de produtos hortícolas, especialmente enquanto acompanhamento no prato. O consumo de leguminosas é, também, escasso junto da população infantil.

Nos últimos anos, novos desafios surgiram e perante a ameaça de um cenário em que não sejamos capazes de alimentar a população mundial, as questões da sustentabilidade alimentar começaram a estar, cada vez mais, na ordem do dia. É urgente sensibilizar a população para que faça escolhas alimentares que, além de saudáveis, também sejam sustentáveis. Por esta razão, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) elegeu como tema para a comemoração do Dia Mundial da Alimentação, no passado dia 16 de outubro, “dietas saudáveis, sustentáveis e acessíveis para todos”. Esta sensibilização não é fácil e encontra imensas resistências, porque implica alteração de hábitos e comportamentos bastante enraizados. Outros fatores de índole cultural, social e até económica também não facilitam tal mudança.

Acredito que iniciar a educação para a sustentabilidade alimentar na infância é uma aposta de sucesso. Promover junto das crianças uma alimentação mais rica em alimentos de origem vegetal, eventualmente colocando em prática o hábito de algumas refeições semanais não conterem carne ou peixe (sem extremismos de obrigar a ser vegetariano, quem não o deseja ser), poderá ser uma medida eficaz na redução da pegada ecológica. Outra medida passará pela valorização dos alimentos, sensibilizando as crianças para reduzirem todo o tipo de desperdício alimentar. Iniciativas como o cultivo de alimentos em casa ou na escola ajudarão nessa valorização. A promoção do consumo de produtos sazonais e, de preferência, locais, também são medidas eficazes em sustentabilidade alimentar. Numa altura em que os alimentos, especialmente os frutos e os produtos hortícolas, estão disponíveis nos locais de venda durante todo o ano, não é fácil para as crianças aprenderem qual é a época dos alimentos. Atrevo-me até a dizer que esta formação será também útil para os seus cuidadores que, perante a oferta do mercado, podem já não ter bem presente qual é a sazonalidade de cada alimento.

Outra medida interessante será motivar as crianças para o consumo de alimentos em natureza, ou minimamente processados, com menos invólucros e que são frequentemente mais saudáveis e mais sustentáveis. Pode acontecer que sejam menos cómodos de transportar e consumir, ou até agradarem menos ao seu paladar, mas os seus benefícios devem ser enaltecidos.

Finalmente, referiria a promoção da diversidade alimentar. Apostar na sazonalidade dos produtos não deverá ser sinónimo de monotonia alimentar. Segundo a FAO, 75% da comida provém somente de 12 espécies vegetais e de cinco espécies animais. Mais: cerca de 60% da energia e da proteína de origem vegetal serão fornecidas por somente três espécies – arroz, milho e trigo. Urge, por isso, aproveitar o potencial das mais de dez mil espécies de plantas comestíveis que são conhecidas.

Comente este artigo

O artigo foi publicado originalmente em Público.

Anterior Cuatro CCAA piden al FEGA unos 115 millones para el pago de anticipos de la PAC
Próximo Aproveitamento Hidroagrícola do Mira. Agricultores agradecem que Governo siga as suas recomendações

Artigos relacionados

Últimas

“Valorização das pastagens é uma enorme mais valia para a agricultura nos Açores”

O secretário regional da Agricultura e Florestas afirmou que a valorização das pastagens nos Açores constitui uma enorme mais valia para a redução de custos nas explorações, […]

Últimas

Exportação do vinho verde chegou aos 50% das vendas em 2016

[Fonte: Correio da Manhã]

A exportação de vinho verde português atingiu em 2016 os 50% das vendas, um valor “recorde”, divulgou hoje a Comissão de Viticultura da Região, […]

Dossiers

La alta demanda sitúa los precios de los huevos en su máximo anual


Se mantiene una semana más la tendencia alcista en el mercado de los huevos que vuelven a subir, con mayor o menor ímpetu dependiendo de la categoría, […]