A utilização de plantas hortícolas com(o) plantas ornamentais – Rosário Sommer

A utilização de plantas hortícolas com(o) plantas ornamentais – Rosário Sommer

O definição de horticultura como “arte de cultivar hortas ou jardins”1 inclui a palavra “arte”, arte essa que dirá respeito à habilidade de cultivar plantas hortícolas e ornamentais, aromáticas, medicinais e outras herbáceas para aperfeiçoar o ambiente em que vivemos, diversificando simultaneamente a nossa dieta.

A horticultura urbana tem vindo a conquistar um crescente interesse, com muitos Municípios a organizar e a disponibilizar espaços comunitários para o cultivo de talhões por parte dos seus munícipes.

Esta nova procura pela experiência de cultivar algo para consumo próprio, também por parte de uma geração mais jovem cujo afastamento do mundo rural parece ter despertado uma renovada curiosidade pelo cultive-você-mesmo, é uma tendência global.

A opção de manter um talhão de uma horta urbana não será contudo praticável para a maioria da população ativa em virtude da sua agenda preenchida com compromissos familiares, profissionais e sociais.

Existem porém soluções práticas para satisfazer este desejo, recorrendo às varandas, terraços, pátios e pequenos canteiros frequentemente disponíveis, mas desaproveitados.

Para os iniciantes ou para os horticultores mais experientes, que procuram diversificar a sua colheita, existem no mercado cultivares mais compactas de plantas hortícolas que produzem abundantemente mini-legumes de diferentes cores e formatos ocupando pouco espaço. Trata-se de plantas que, não sendo geneticamente modificadas, foram selecionadas e melhoradas a partir da enorme diversidade existente na natureza.

A experiência de cultivar hortícolas em varandas urbanas e afins pode e deve ser acompanhada pela experiência de criar um recanto que apeteça cuidar, usufruir e até partilhar, sendo que as plantas hortícolas são também cultivadas pela apreciação estética e pelo lazer.

Curiosamente, tanto a planta de beringela, introduzida pelos árabes na Península Ibérica, como as plantas de tomate e de pimento, que chegaram à Europa por mão dos Descobridores, foram inicialmente consideradas plantas ornamentais, provavelmente em virtude da beleza e diversidade dos seus frutos e por se desconfiar, à época, que alguns seriam tóxicos.

O resultado final de um tal jardim-horta valorizará não só os espaços individuais para o interior do lar, como também a aparência das fachadas para o seu exterior, representando um valioso contributo a comunidade. Quem não se deixa encantar por uma varanda ou terraço bem cuidado?

Na prática, em particular para quem se está a iniciar nesta nova atividade, é importante criar rotinas, o que exige continuidade. É igualmente essencial criar boas condições para o sucesso da experiência.

Uma forma de consegui-lo é complementando o cultivo das plantas hortícolas com outras plantas que se revelam benéficas quando plantadas em consociação, as denominadas “plantas companheiras”. Aproveitam-se neste caso, entre outros, as propriedades naturais repelentes de certas espécies ornamentais e aromáticas para afastar importantes pragas das espécies hortícolas.

A consociação de cada planta hortícola com uma planta aromática e uma planta ornamental, selecionadas entre as potenciais plantas companheiras, não só melhora as hipóteses de um bom desenvolvimento hortícola, como tem a vantagem de harmonizar o arranjo e de prolongar o tempo de vida útil de ocupação do vaso. Algumas aromáticas, habitando frondosamente o vaso durante todo o ano, providenciando aromas e sabores, apelam à continuidade dos cuidados por parte do hortelão-jardineiro, contrariando a sazonalidade inerente às espécies hortícolas.

A “arte” da horticultura oferece a possibilidade de criar um espaço contemplativo que permita ao hortelão-jardineiro aperceber-se dos diferentes ciclos da vida das plantas: floração, frutificação, maturação do fruto e que este aprecie as diferentes cores, aromas e texturas e até sons gerados. Culminado o processo ciclicamente na experiência da partilha de sabores!

Essa “arte” exige todavia a capacidade de superar desafios, aprender a ler necessidades particulares das plantas hortícolas e a lidar com as suas vulnerabilidades. Tendo em conta o objetivo perseguido de completar o seu ciclo reprodutivo, o que não se verifica em regra com as outras plantas ornamentais, é necessário ter um cuidado especial com a regularidade da rega para garantir um bom desenvolvimento das flores e posteriormente dos frutos. Contudo, aquilo que poderá parecer uma dificuldade pode ser transformado num momento diário calmante de dedicação ao jardim-horta. A natureza recompensa garantidamente de forma generosa.

Não esquecendo nunca quaisquer plantas da preferência de cada hortelão-jardineiro, sejam gerânios, amores-perfeitos ou prímulas, as plantas hortícolas ornamentais não são ciumentas e gostam de companhia!

Importante mesmo é aproveitar mais e melhor o espaço disponível em nossas casas para reintroduzir a cultura da natureza no nosso dia-a-dia e assim uma outra forma de arte.

 

Rosário Sommer

Fundadora – Generosa

 

horticultura in Dicionário infopédia da Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2017.

 

 

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