“A Natureza só nos dá lucro quando a destruímos”

Desta vez, a rapper Capicua subiu ao palco, mas não rimou. Sem ter música de fundo, fez muito bem de jornalista e moderadora com os seus dois convidados, pessoas que admira pelos projetos agrícolas que desenvolvem – ao seu lado esquerdo, sentou-se Alfredo Cunhal Sendim, da Herdade do Freixo do Meio, em Montemor-o-Novo, mais longe ficou Luís Alves, do Cantinho das Aromáticas, em Vila Nova de Gaia. “São uns românticos e inspiram-me com as suas utopias pessoais. Não sei bem como chamá-los ou como gostam de ser apresentados : jardineiros, agricultores, ativistas, ecologistas…”

Foi com este mote que Capicua lhes passou a palavra. E ambos responderam “agricultores”, com muito orgulho. Mas o uníssono acaba aqui, porque as histórias e narrativas não voltarão a tocar-se ao longo desta conversa agridoce sobre o estado do planeta.

Em Montemor, Alfredo usa o seu pedaço de terra, uma “quinta integral”, para fazer experiências num caminho alternativo à presente relação que temos com o sistema natural. Em Vila Nova de Gaia, Luís reuniu, numa quinta medieval abandonada, uma coleção muito grande de ervas aromáticas, medicinais e condimentais e agora intitula-se um “freak das aromáticas”.

“Temos de tentar ser melhores”

A conversa subiu de tom, com Alfredo visivelmente indignado com o que o ser humano está a fazer à sua casa, a que pertence e o alimenta. “Desde a Revolução Industrial que nos temos vindo a afastar da Natureza. E agora não sabemos regenerá-la, mas temos de aprender. Ela pode fazê-lo sozinha, mas não temos tempo.” A morte do planeta, garante, é real e essa tem de ser uma causa de todos. Só que, e aqui é que as frases se tornaram veementes, “não podemos querer ter sol na eira e chuva no nabal: querer os mesmos confortos que criámos, que nem nos dão felicidade, só mais sofrimento, e ao mesmo tempo não degradar ou destruir. Vamos ter de fazer sacrifícios. Só que ninguém quer mudar ou perder rendimentos! Mas temos de tentar ser melhores, ter mais amor, mais afeto, mais carinho.”

Luís Alves também afirma que há que repensar todo o sistema, até a fórmula que mede o índice de riqueza do País. E entende por que somos mais lestos a reagir: “Nada disto tem impacto direto nas nossas vidas. Com a pandemia reagimos muito rápido porque sentimos que nos afetava individualmente, com a emergência climática ainda não.” Mas nota que não se pode passar por cima da questão política, pois enquanto a agricultura não for encarada como fundamental, nada feito.

“A PAC [Política Agrícola Comum] acabou de ser aprovada, mas é uma vergonha”, acrescenta Alfredo Sendim. “Quando destruímos a Europa, elaborámos um plano Marshall e conseguimos. Agora que estamos a  destruir a nossa sobrevivência não conseguimos fazer nada”, conclui o gestor da Herdade do Freixo do Meio. “Vivemos numa abstração humana e a natureza só nos dá lucro quando a destruímos.”

Apesar de as ideias apresentadas terem uma nota catastrófica, a conversa acabou em tom otimista, com a positividade cravada na voz de Luís Alves, quando disse a Capicua: “Ainda tenho esperança que, no meu tempo de vida, possa dar um mergulho no Douro, como na capa do disco dos GNR, Psicopátria.” Na assistência, o baixista da banda do Porto, Jorge Romão, há de ter sorrido por baixo da máscara.

O artigo foi publicado originalmente em Visão.

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