A  Floresta está hoje pior do que estava no dia seguinte ao dos Incêndios !… – João Dinis

A Floresta está hoje pior do que estava no dia seguinte ao dos Incêndios !… – João Dinis

Na verdade, logo a seguir aos Grandes Incêndios, a Floresta ainda que queimada, vamos dizer, também estava disponível na expectativa dos impulsos concertados tendo em vista a sua regeneração. Impulsos que viriam do Ministério da Agricultura e do Governo até porque a situação ficou calamitosa nas áreas ardidas. Como é sabido, a Floresta tem um papel estratégico para a economia mas também o tem para o ambiente e para a qualidade de vida das Populações, as rurais mas também as citadinas.

Nós até costumamos dizer e sem querermos exagerar:- “Árvore minha amiga…Floresta minha vida !”.

Então, perante aquela violência brutalmente destruidora dos Incêndios, era legítimo esperar, e reclamar, que viessem medidas realmente excepcionais, capazes de nos arrancar do desastre e do desalento. Lamentavelmente não foi isso que aconteceu e não é isso que acontece.

Afinal, para o Ministério da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural e para o Governo até parece que tivemos uns Incêndios um pouco duros mas não mais do que isso… Afinal, e passe a tragédia das mortes, foi “coisa” semelhante à que já nos tinha acontecido em ocasiões congéneres… E, note-se, isto com a agravante de cedo terem sido alertados para a extrema gravidade do caso e instados a actuarem de outra forma, com sabedoria, e em conformidade com a dimensão calamitosa do desastre inicial e, também, para logo enfrentar, a sério, as repercussões imediatas e futuras. Mas não quiseram ouvir quem assim interveio, quem alertou e propôs medidas concretas como, por exemplo, a CNA desde logo fez. Também por isso, tiveram intervenções, e omissões, desastradas.

Aliás, a Floresta, o Pinhal que sobreviveu aos Grandes Incêndios está hoje a ser “devorado” por pragas e doenças, o que constitui outra calamidade ! Enquanto isso, o Ministério da Agricultura produz umas declarações vagas mais ao jeito de “assobiar para o lado”…

Por vezes, em especial o Ministro da Agricultura lá vem com a conversa do costume a carpir a tradicional “falta de verba”…mas, agora, sabe-se já que não vai investir toda a verba que teve (e tem) disponível no Orçamento de Estado para o ano corrente ! Como é possível tamanha “incompetência” orçamental…também operativa…e também política???… E de tal jeito assim é que por vezes somos levados a dizer que mais do que falta de vontade política para actuar como se exige, o Ministro da Agricultura tem é revelado má vontade política contra os pequenos e médios Agricultores e Produtores Florestais lesados pelos Grandes Incêndios do ano passado e pelo Grande Fogo da Serra de Monchique, no caso já neste ano.

É evidente que não costumamos pedir a cabeça de Ministros que aquilo que mais importa e, aliás, mais difícil se tem revelado, é conquistar uma mudança nas políticas prosseguidas nas últimas décadas também naquilo que diz respeito à Floresta.

eucalipto

Cuidado com a aplicação da “lei Herodes” para os eucaliptos novinhos…

Atenção que o “mau da fita” não é a árvore eucalipto…

Pois então que se não cruxifique a Natureza enquanto se absolve a “grande plantadora e degoladora” de eucaliptos, a grande indústria de celulose…

O maior interesse estratégico das celuloses e hoje também já dos aglomerados e das indústrias de biomassas manda que se faça “quanto mais madeira melhor…ao mais baixo preço na produção” e deu no que deu:- a plantação indiscriminada e super-intensiva (monocultura) de eucalipto, o que, aliás, pode agora degenerar em outras espécies intensivamente plantadas.

Apesar disso, é um manifesto exagero virmos agora como uma espécie de “lei Herodes” para matar todos os eucaliptos novinhos, vindos em regeneração espontânea. Aliás, nem sequer é exequível, e em algumas situações em que não há alternativa, pelo menos no curto prazo, até é desaconselhável. Mais útil que matar todos os eucaliptos novinhos é desbastá-los em algumas zonas. Portanto, o mais necessário é agir com sabedoria e não fruto de certos “fundamentalismos”… Dos que plantam eucaliptos em regime super-intensivo, mesmo em terras com boa aptidão agrícola, e dos que os querem arrancar todos…

E sabedoria não é ir fazer, tipo impulso, acções, ainda que propagandísticas, de arranque indiscriminado de eucaliptos. Reflorestar áreas ardidas sem o ser a eucalipto, é uma tarefa estratégica mas não é para ser feita a “preto e branco” na secretaria assim:- arranca eucaliptos e planta outras árvores ! Em primeiro lugar, é necessário ouvir as Pessoas lá onde elas ainda estão, é indispensável estimular as Pessoas, convencê-las até muitas vezes sem pretender ser moralista ou paternalista. E não adianta “ameaçar” as Pessoas com a espoliação prática das suas parcelas ou com multas da GNR…

Neste contexto, afirmações ainda recentes do Ministro da Agricultura quando vem dizer (segundo a comunicação social) que as Pessoas sabiam que não é permitido plantar eucaliptos e que, por isso, agora têm que os arrancar de onde eles nasceram, tais afirmações roçam a anedota:- é que o Fogo, que semeou os eucaliptos para nascerem no pós-incêndios, simplesmente não quis saber das leis e das opiniões do Ministro da Agricultura e semeou eucaliptos aos milhões… E, agora, “obrigam-se” os proprietários florestais – que já tiveram prejuízos imensos com os Incêndios – a irem gastar mais dinheiro a arrancarem os eucaliptos todos que o Fogo e a Natureza plantaram e fizeram nascer nas parcelas ardidas… Não vai dar resultado que uma “coisa” dessas não acontece só porque “alguém” pretenda que aconteça…

E comprar árvores em massa  para as distribuir massivamente – ao gosto “do freguês” – é um disparate “florestal” e financeiro. Desde logo porque primeiro é necessário saber o que plantar em cada zona de cada Município e até é necessário saber onde não plantar nada.   É que, ninguém duvide, tão importante como reflorestar neste momento, é também saber prevenir – agora e estruturalmente – os incêndios florestais. Se não for assim, aquilo que hoje se fizer a reflorestar, corre sérios riscos em desaparecer com os próximos incêndios que, se não houver prevenção, virão destruir esse trabalho e anular o investimento feito. E, entretanto, para quê comprar as árvores em viveiros para a trabalheira de as ir carregar, e plantar e em que condições práticas? Ficará caro… Quem paga a factura ?

No caso do Pinhal, em especial, embora eu não pretenda fazer “doutrina”, direi que o mais exequível, e aconselhável, é arranjar semente-pinhão das nossas espécies mais tradicionais e, depois, sim, distribuí-la, à semente-pinhão, pelas Pessoas ou montar equipas, por Freguesia, para a semear embora sempre de acordo com os Proprietários.

E por que razão não há-de ser o Ministério da Agricultura e o Governo a fazerem aquilo que lhes compete:- preparar os planos de reflorestação e pagá-los !!  Claro que em colaboração com os Municípios e com os Proprietários.

Portanto, muito cuidado com a “lei Herodes” para os eucaliptos novinhos!

Não, à aplicação da máxima da – “dura lex sed lex” – para os eucaliptos e para os Proprietários Rurais!

Haja sabedoria na urgência e que não nos falte a paciência!

João Dinis

Pequeno Produtor Florestal lesado pelos Incêndios de Outubro.

Membro do “Grupo Céus Limpos”

Membro da Direcção da CNA, Confederação Nacional da Agricultura

Estratégias políticas “comandam” combate ao Incêndio de Monchique e Silves… – João Dinis

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