A ASAE, o Coronavírus e os Porcos: o Bom, o Mau e os Vilões – João Adrião

A ASAE, o Coronavírus e os Porcos: o Bom, o Mau e os Vilões – João Adrião

“Faz do alimento a tua medicina, e da medicina o teu alimento”

Hipócrates

Sumário:

1) As regras de higiene e segurança alimentares são essenciais para a nossa saúde;

2) “A Natureza, às vezes, é filha-da-mãe” (Ricardo Araújo Pereira);

3) Num mundo global, sem normas de higiene e segurança alimentar globalizadas, estamos à mercê de fenómenos como o que estamos a sofrer.

Como o peixe, também nós podemos morrer pela boca. Com efeito, muitos dos nossos problemas de saúde têm origem no nosso consumo alimentar: sejam químicos, fungos, bactérias ou… vírus.

A ASAE:

Não gostamos deles. Inspecionam, fiscalizam, investigam, apreendem…

Mas o seu trabalho limita-se a assegurar que a criação, abate, acondicionamento, transporte, venda, cumprem regras básicas de segurança e qualidade alimentares, defendendo os nossos interesses enquanto consumidores (nas suas várias dimensões) e… a nossa saúde.

O Coronavírus:

Vivemos tempos excepcionais: o mundo todo está a braços com uma pandemia.

Mas, episódios pandémicos não são novidade. A palavra vem do grego (pan=tudo+demos=povo) e estes falavam por experiência própria, porque também eles as sofreram. Pestes, Gripes, Tifo, Cólera, ou mais recentemente, SIDA ou Ébola, foram ao longo da história exemplos dos perigos que pairam sobre as sociedades humanas.

É que os vírus, algo tão simples, algo no limite do vivo e não vivo, algo tão minúsculo que só os conhecemos há pouco mais de 100 anos (o conceito é de 1898, poucas décadas passadas da teoria microbiana das doenças, de Pasteur), transmitem-se entre animais, têm mutações que lhes permitem contornar a imunidade dos hospedeiros, procuram novas vítimas para se reproduzirem. Enfim, sim são maus para nós, mas apenas buscam o mesmo de todos os seres-vivos: viver…

Por vezes esquecemos o que tudo é Natureza e que somos parte dela. E “a Natureza, às vezes, é filha-da-mãe” (Ricardo Araújo Pereira), dando-nos um banho de humildade ao lembrar-nos que somos simples animais num mundo de germes.

Os Porcos:

Diz-se que o porco come de tudo? que o tubarão é o caixote do lixo dos oceanos? Ora bem, a espécie com maior espectro alimentar é… o Homo sapiens. Nós…

Mas não é a mesma coisa comprar um bife no supermercado, que até ali chegar esteve debaixo de um apertado conjunto de normas, ou ir às compras ao mercado de Wuhan.

Desconheciamos o perigo? Não é verdade. Vários foram os avisos. O próprio Bill Gates em 2015 alertou para os riscos de uma pandemia viral… Entre trabalhos científicos, destaco as conclusões de Zhou et al. em 2019:

“Portanto, é altamente provável que futuros surtos de coronavírus tipo SARS ou MERS se originem de morcegos, e há uma probabilidade ainda maior de que isso ocorra na China.”

(https://www.mdpi.com/1999-4915/11/3/210/htm)

Ou de um outro, já de 2007 de Vincent et al.:

“A presença de uma grande reserva de vírus do tipo SARS-CoV em morcegos-ferradura, juntamente com a cultura de comer mamíferos exóticos no sul da China, é uma bomba-relógio. A possibilidade de reemergência da SARS e outros vírus novos de animais ou laboratórios e, portanto, a necessidade de preparação não deve ser ignorada”.

(https://cmr.asm.org/content/20/4/660)

Mas o que são estes mercados? Na China há centenas de mercados de animais selvagens (e não só na China, como também noutros países asiáticos, ou africanos – por exemplo de onde, e possivelmente também de morcegos, apareceu o Ébola – mas ainda mais problemáticos na China, dada a elevada população e as relações e mobilidade com o resto do mundo). Neles, por entre gaiolas ferrugentas, chão ensanguentado, enxames de insectos e cheiro nauseabundo, vendem-se mortos ou vivos, incluindo animais caçados e transacionados ilegalmente, alguns de espécies ameaçadas, mas também muitos ao abrigo da lei, sendo de salientar a regulamentação que lhes tem sido movida (de listagem de espéces a quntas de criação, etc). São Ratos, Cobras, Larvas, Aves, Crocodilos, Pangolins, Primatas, Cães, Civetas, Morcegos, etc, etc…

“Depois da casa roubada, trancas à porta”: o governo chinês proibiu estes mercados. Mas… Até quando? É que já em 2003, no auge da epidemia SARS, haviam sido proibidos. Não obstante, o tempo foi passando, a memória foi-se perdendo, as regras aliviando… E voltou tudo ao mesmo uma vez que estes funcionam para fins alimentares luxuosos e ostensivos, assim como para a famosa (e pelos vistos inútil no que a salvar vidas de uma pandemia diz respeito) medicina tradicional chinesa, ambas fortes áreas de negócio, com imensos lobbies e relações de poder.

Esta é, assim, uma boa altura para relembrar a importância do trabalho da ASAE, tal como a urgência na padronização e internacionalização de regras básicas de segurança e higiene. Num mundo globalizado, também estas normas têm obrigatoriamente de o ser. Até porque (novamente o sábio povo nos diz), “mais vale prevenir que remediar”, e a incapacidade das sociedades em lidar com este tipo de fenómeno, tem tragicamente sido notória por estes dias.

PS: No periodo que medeou a publicação deste artigo, surgem notícias da reabertura destes mercados.

João Adrião

Gestor Ambiental e Florestal

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